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      A Beatriz Talegón entalou a família socialista europeia

      February 19, 2013

      Por Rui Marçal

      Editor Online

      Aos 29 anos, Beatriz Talegón é a actual secretária-geral da União Internacional de Jovens Socialistas. Recentemente, ficou conhecida pelo discurso que entalou uma boa parte da família socialista. Mesmo sem querer “comprometer o PSOE”, e apesar de Zapatero já a ter aconselhado a ter prudência, a verdade é que a maior parte dos jovens que hoje estão desempregados (e que provavelmente não imaginarão o que é um hotel de cinco estrelas) se sentiu representada e saudou a coragem que esta espanhola demonstrou em Cascais.

      Falei com a Beatriz para perceber, entre outras coisas, se é possível ser-se simultaneamente coerente com a militância partidária e com o discurso que proferiu no encontro da Internacional Socialista.



      VICE: Olá Beatriz! Como estás?
      Beatriz Talegón:
      Bem. Prazer em conhecer-te.

      Igualmente. Conta-me, preparaste aquele discurso?
      Havia um discurso prévio preparado, mais oficial. Aquele discurso foi improvisado, mas seguindo a linha das nossas propostas e valores (as principais são aprovadas em congressos mundiais, de maneira democrática e as resoluções adoptadas estão no nosso site). Só que, naquele momento, tomei a palavra e expressei a mensagem de forma pessoal.

      Suponho que não estavas à espera de tamanha reacção.
      Claro que não. O discurso foi feito num contexto muito específico. Não sabíamos que os media fariam eco das minhas palavras e tão pouco que a Internacional Socialista estava a gravar todas as intervenções e que as tornaria públicas no seu site.

      A determinada altura dizes que “temos de lutar e ir para a rua”. Faz tempo que os socialistas não o fazem pela Europa, não achas?
      É mau generalizar. Não se pode dizer que nenhum socialista está na rua. Mas essa é, sem dúvida, a mensagem que os cidadãos estão a enviar: o povo precisa de sentir os políticos próximos. Todos os políticos. Eu disse-o concretamente ao meu partido.

      Mas para inverter essa situação, à escala europeia, o que pode a família socialista fazer na Europa?
      A primeira coisa que deve fazer é começar pela luta efectiva e real contra os paraísos fiscais. Estabelecer medidas de taxação para as transacções financeiras (taxa Tobin) e taxar os patrimónios mais altos. Por outro lado, implementar medidas para alcançar um salário mínimo interprofissão a nível europeu, apoiar garantias de emprego juvenil, promover a democracia directa e os pressupostos participativos. A redução da taxação de empresas que respeitem o meio ambiente também poderá ser importante, entre muitas outras coisas.

      Isso parece-me tudo muito bem, mas nas últimas eleições votaste no Zapatero, certo?
      O voto é secreto. Não tenho por que responder a essa pergunta.

      Tudo bem, mas és líder da União Internacional dos Socialistas e isso abrange o espaço político do PSOE. Por isso, supus que sim…
      Mas não suponhas nada. Tu és jornalista e se queres ser profissional não deves supor, deves transmitir o que te digo.

      Não vou escrever nada que não digas, Beatriz. O que pensas do último governo de Espanha?
      O último governo podia ter feito muito mais do que fez. Podia ter sido mais corajoso e com coerência nos ideais que defendemos.


      Beatriz na Internacional Socialista, em Cascais.

      És crítica, mas em determinado momento do teu discurso dizes que os socialistas devem “partilhar os problemas e as soluções”. Acreditas que isso é ainda possível com um partido como o PSOE? E já que falamos de Europa, é possível com a actual família socialista?
      É possível com qualquer partido que queira, de verdade, comprometer-se com o bem comum e representar os seus ideais numa sociedade plural e democrática. Mas tem de assumir que não é uma tarefa fácil, sobretudo com o descrédito actual. Isto porque a terceira via da família social-democrata brincou com o capital em vez de o controlar.

      Isso significa que o socialismo (não o socialismo romântico mas aquele que vemos hoje em partidos como o PSOE ou o PS português) ainda é a esperança para a Europa?
      A social-democracia é a única esperança para garantir os direitos de todos os cidadãos: a educação pública, a saúde, as infraestruturas necessárias e a sustentabilidade. Mas sejamos claro, os partidos actuais que se consideram social-democratas devem submeter-se a uma auto-crítica e fazer uma remodelação. Devem olhar-se a si próprios e perceber que as coisas estão a mudar. 

      Há uns meses falei com um politólogo português que me disse precisamente isso, que os socialistas europeus fizeram, nos últimos anos, uma viagem ao centro. Acreditas que os socialistas vão fazer aquilo que não fizeram nos últimos dez anos?
      Então, devem desfazer essa viagem. A social-democracia ou é de esquerda, ou não é social-democracia. E é isto que se está a passar agora. Na primeira legislatura, o governo de Zapatero fez um trabalho muito bom nesse sentido. Mas no último mandato, atendendo também às circunstâncias europeias, não se tomaram decisões de acordo com a ideologia social-democrata. E agora estamos a pagar as consequências desse descrédito…
       

      Isso é verdade. É por isso que confias nos jovens políticos e na tua geração?
      Só os jovens nos podem tirar deste buraco. Somos os únicos que não temos culpa das decisões dos nossos antepassados. É muito importante que se saiba isto. Somos muitos os que militamos um partido pelos ideais. E não compartilho muitas das decisões dos últimos anos, porque estas decisões afastaram-nos da esquerda. Mas, ainda assim, estou no meu partido porque, para mim, é uma questão de ideais.

      Diz-se que as conversas com os teus amigos foram uma inspiração. Ao mesmo tempo, parece-me que, hoje em dia, os políticos não estão na rua, não ouvem a rua. Quão importante é esta questão?
      É verdade. Muitos dos políticos de grandes responsabilidades estão a resolver questões urgentes e, às vezes, não lhes chegam as questões mais importantes. Os meios de comunicação também são responsáveis porque perdem muita energia em debates absurdos, em vez de se focarem nos problemas reais. E senti isso na pele esta semana. Em vez de poder falar de projectos, tive que defender-me de acusações falsas. Os media só informam quando há crispação. Assim não podemos trabalhar e as coisas não evoluem. Agora tenho de ir, desculpa.

      Não há problema. Muito obrigado, Beatriz.

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      Temas: Cascais, Internacional Socialista, PS, PSOE, conferência, esquerda, social-democracia, Rui Marçal, entrevista, Beatriz Tálegon, União Internacional de Jovens Socialistas

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