A cegueira de bater punho

Por Ricardo Alves



Se tiverem um asco saudável à cultura pop portuguesa, provavelmente não estão a ver quem é este gajo. Mas, se não tiverem, já vos foi vendido como o profeta do empreendedorismo, o ayatollah das start-up, o rabino do pitch — e, possivelmente, associam-no àquela expressão idiomática que o catapultou: bater punho. E o que é bater punho? É uma ética vaga onde os jovens licenciados, sem terem trabalhado um único dia na vida, devem começar por mudar as regras do mercado e seduzir, o mais directamente possível, os empregadores (gente que tem sempre as portas abertas para putos de vinte e picos).

Claro que o Miguel é apenas mais um vendedor de banha da pila na vaga de retórica empreendedorística, mas as coisas ficam mais graves quando as instituições de ensino superior subscrevem este tipo de mensagens. É certo que, hoje em dia, já não temos órgãos revestidos de solenidade onde apenas o cânone académico conta — as universidades do nosso país são agora uma espécie de OTL para adultos estagiários. Mas, ainda assim, é perverso receber neste contexto mensagens de um guru de auto-ajuda que nos exorta a ser felizes e que nos elucida do quanto isso ajuda no nosso trabalho. A felicidade impede-nos de usar as grandes qualidades da juventude que são a raiva e a frustração — motores dinamizadores de trabalho.

Entretanto… nas palavras da Spark Agency do Miguel: “Se estão a desenvolver very cool stuff na vossa universidade ou no vosso núcleo, se existe um grupo muito louco sempre agarrado aos fios e teclados, se pensam que têm uma ideia de negócio ou se querem fazer interface com o mercado, façam-nos saber.” Caso não falem empreendedorês, permitam-me a tradução: “Se, no sítio onde vão assinar a folha de presença, houver gente infantil e facilmente seduzida q.b., liguem-nos para vos cravarmos umas centenas por uma presença de quatro horas."

A melhor solução para o desemprego não passa exactamente por contrair um empréstimo logo depois da licenciatura, de maneira a criar a tal startup que vai falir em menos de um trimestre. E desculpem cuspir nos vossos sonhos, mas há cursos que desembocam no desemprego e que, no entanto, vêem o número de vagas a aumentar de ano para ano. Ter um curso não é ter direito a trabalhar na área, pelo menos não neste país.

Fica aqui um jogo engraçado: tentem descobrir quais destas frases são citações directas do Miguel Gonçalves e quais são balelas idiotas.

“Eu passo as minhas camisas por uma questão de princípios.”
“Ser universitário é a coisa mais sexy do mundo. É um iPhone.”
“Não podemos competir financeiramente, mas podemos competir na audácia, na informalidade.”
“Eu aprendo estes termos em inglês e tenho um certo gosto em dizê-los em inglês.”

SOLUÇÃO: Todas as frases foram proferidas pelo Miguel Gonçalves. Perderam.

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