A fauna que gravita no (Guimarães) Jazz

Guimarães Rocka Ó-Ió-Ai 2012

Por Artur Montenegro

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Em ano de crise, o Guimarães Jazz continua a ter a notação de triplo A, pelas agências de rating. E não é por estarmos em plena CEC, é porque é mesmo assim. Toda a gente sabe que antes de Capital da Cultura já Guimarães era conhecida pela capital do jazz. E, ontem, o festival começou em grande, com o mestre Herbie Hancock a abrir as hostilidades.

E, talvez por isso, conjuga-se nesses dias pelo átrio, pelos corredores e pelas salas do CCVF a maior fauna heterogénea de seres vivos, em que apenas meia centena deles gosta efectivamente de jazz. Quem estiver atento facilmente descobre as diversas manadas e as consegue diferenciar como se estivesse no Kruger Park, sem necessidade de ver os programas do National Geographic.



Essas espécies que também se dividem em sub-espécies deverão ser assim divididas e caracterizadas:

OS MESTRES DO JAZZ
Os que gostam mesmo e percebem mais de jazz que qualquer outro ser vivo (como eu). Percebem as pausas melódicas dos músicos, os humores das notas musicais, a harmonia do caos, quando, no trecho musical, os músicos parecem estar perdidos para o comum dos mortais. Só eles têm a sensibilidade híper-apurada ao ponto de perceberem que o trompetista não está a dar o seu melhor, porque ainda sofre do jet lag e,portanto, o seuritmo circadiano impede-o de demonstrar o seu virtuosismo. Gostam do que os outros não gostam, porque são superiores a todas as raças inferiores que por lá gravitam. São facilmente distinguíveis de todos os outros, pelo seu ar compenetrado, sorumbático, e pelo olhar de nojo com que miram para o resto da populaça.

OS JAZZERS
Apreciam o jazz, mas este não é o seu único alimento. Muito longe de terem o nível dos Mestres do Jazz, esta sub-espécie aprecia a música jazz de uma forma mais cool, mas sempre vai tentando mandar umas “patelas” do género: “Viram como o gajo do sax fez a simbiose com gajo do contrabaixo ao descer uma oitava?” Ou: “Já vi este gajo a tocar no Cool Jazz Fest de Telaviv!” Geralmente, mandam estas bocas perto dos Mestres do Jazz naquela de verem se estes os acolhem e assim sobem na hierarquia “jazzer”. Topa-se esta espécie quando, nos concertos, revelam os seus estados de êxtase e soltam os “yeah” e os “uuuh” por tudo e por nada. São mais afáveis e mais dinâmicos que os Mestres.

OS SÓ-VIM-AQUI-PARA-VER-E-SER-VISTO
Estas espécimes sabem que o Guimarães Jazz é um grande evento e, por isso, querem lá ir para ver quem vai e quer os vejam lá. Têm fobia ao jazz, mas o socialite obriga a estes sacrifícios. É o Jet set à la carte. O pior momento para esta espécie é o concerto em si mesmo! O glamour perde-se, o who’s who esfumaça-se com o baixar das luzes. A partir do momento em que entram os músicos em cena, é como levar murros no estômago e no focinho consecutivamente durante uma hora até ao intervalo. “Como? Não há intervalo? Foda-se! Vou mamar com isto mais quanto tempo?” Olham para o relógio repetidamente, durante todo o concerto e vêem que o tempo e a música passam a ritmos muito lentos. Passam o resto do concerto a jogar tetris no telemóvel. No final, quando as luzes se acendem, levantam-se, aplaudem veementemente e olham em seu redor para verem se o seu estoicismo valeu a pena. Cá fora, socializam como ninguém e gritam loas ao concerto!

OS BORLISTAS
Vão ver jazz, como vão ver qualquer coisa, desde que arranjem uma borla. Estão lá, porque sim. Estes borlistas confraternizam muito entre eles, pois antes já estiveram numa exposição de pratos pintados a tinta-da-china e numa conferência sobre o lançamento de um livro do Edson Athayde, ou estiveram no D. Afonso Henriques a ver um jogo por convite. Borla é borla, e há que aproveitar! Para eles o jazz é nada, a borla é tudo, desde que lhes encha o currículo!

OS EXPERIMENTALISTAS
Malta de horizontes muito abertos e aventureira que está sempre disposta a conhecer coisas novas. Vão a um concerto de jazz para conhecerem mais, para ver como a coisa funciona, para contarem aos outros da mesma tribo como foi, para estes lá irem, tornando-se, assim, num ciclo vicioso. Em regra, quem lá vai a primeira vez, nunca mais volta. Comportam-se bem, não gostam de dar nas vistas, porque sabem que estão num habitat estranho e têm receio de como irá reagir a restante fauna.

E tu, qual é a tua espécie?

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