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      A polícia grega anda a espancar anarquistas

      February 19, 2013

      Por Matthaios Tsimitakis


      Fotografia do antes e do depois de Nikolaos Romanos enviada pela polícia grega à imprensa.

      Faz uma semana que um grupo de oito pessoas armadas com AK-47s tentou assaltar um banco e um escritório dos correios na cidade grega de Velvetos. Depois de serem perseguidos até à província nortenha da Macedónia e de, pelo caminho, sequestrarem um médico de 27 anos, quatro deles foram bloqueados pela polícia na cidade Veroia. Foi aí que Nikolaos Romanos, de 20 anos, Andreas-Dimitris Bourzoukos, de 24, Yiannis Michailidis, de 25, e Dimitris Politis, de 24, se renderam.

      Num par de comunicados enviados desde a prisão, os anarquistas deixaram claro que os seus motivos não eram pessoais, mas que consideram o acto de roubar bancos parte da sua luta contra o Estado. Afirmaram, ainda, que queriam sublinhar que, enquanto foram perseguidos, não usaram as suas armas, nem magoaram o seu refém. Não estamos a dizer que sejam santos, não deixam de ser uns putos armados com AK-57s dispostos a roubar um banco, mas a policía espetou-lhes uma sova tal que ONGs como a Amnistia Internacional e algumas secções da imprensa grega estão dispostas a defender que foram vítimas de um crime.

      Além disso, as fotografias dos anarquistas que a polícia grega distribuiu à imprensa foram manipuladas com photoshop numa tentativa de ocultar os inchaços e as feridas nas suas caras.


      Dimitris Politis.

      A polícia tentou acalmar a indignação, afirmando que foram os miúdos que fizeram as feridas depois de se oporem com violência às detenções. Também disseram que um polícia ficou ferido em Veroia. Ambas declarações foram contraditas por várias testemunhas que reconheceram que os quatro rapazes se renderam de forma pacífica. (Talvez valha a pena recordarmos o médico-refém neste. No último comunicado que enviaram desde a prisão, os anarquistas explicam que a polícia bateu no refém por engano quando foram detidos.)

      Já anteriormente, as autoridades gregas foram acusadas de tratar os prisioneiros políticos não-fascistas de forma injusta. Nestas alturas, o Estado esquece os direitos humanos quando os implicados são imigrantes, manifestantes ou grevistas. Por outro lado, os membros do partido neo-nazi Aurora Dourada são protegidos. Imagens dos detidos consternados e arrependidos — sob a alçada policial — nunca são divulgadas. Esta é um aviso tácito para os outros fascistas. Aliás, do lado de fora, os julgamentos destes anarquistas até chega a parecer um processo justo.


      Os jovens aquando da chegada à esquadra, depois de serem sovados.

      O que mais chamou à atenção do público grego sobre esta história é o perfil dos quatro miúdos: todos são menores de 25 anos, pertencem a famílias da classe média e estudaram nas melhores escolas privadas do país. Mas também têm outra coisa em comum: radicalizaram-se depois da revolta de 2008 e depois de a polícia de Exarcheia ter morto Alexandros Grigoropoulos, um miúdo de 15 anos. O mais novo do grupo, Nikolaos Romanos de 20 anos, era um dos melhores amigos de Grigoropoulos e presenciou o seu assassinato.

      Para a imprensa conservadora da Grécia, estes quatro são a cara de uma nova geração de terroristas, que querem continuar o legado das guerrilhas marginais de esquerda que lutaram contra a ditadura militar desde 1974. Em 2002, a guerrilha principal, a Organização Revolucionária 17 de Novembro (que assassinou 23 pessoas em 103 ataques entre 1975 e 1998), foi capturada e o fenómeno viu-se consideravelmente reduzido.

      Do ponto de vista dos anarquistas, estos miúdos são revolucionários, partidários de uma larga tradição europeia que defendeu a liberdade e o direito humanitário. Com grande parte da população grega a viver na pobreza e com o governo a abraçar uma ideologia de direita, a sua causa adquire uma natureza romântica para alguns.


      Andreas-Dimitris Bourzoukos.

      A revolta de 2008 e a tensão que se seguiu provocaram o renascer das guerrilhas urbanas que se inspiram nos anarquistas dos anos 70 ou 80, mas que as adaptam aos nossos tempos. Enquanto os anarquistas europeus dos meados e finais do século XX tinham uma orientação claramente Marxista — e operavam de forma secreta, com alvos muito específicos —, a nova onda de guerrilhas opera através de redes nacionais, que por sua vez formam parte de redes internacionais, e não se centram apenas em políticos: na maioria das vezes os alvos são propriedades (como bancos, ou esquadras da polícia) e não pessoas.

      Entre esses grupos está o Conspiracy of Fire Nuclei. Até agora, mais de 30 pessoas foram acusadas de serem membros desde grupo e foram detidas e presas à luz das leis anti-terrorismo gregas. A polícia acredita que dois dos quatro jovens presos em Velventos pertencem a este grupo.


      Yiannis Michailidis.

      Três pais destes supostos membros do CFN presos em Velventos falaram comigo na condição de manter a sua identidade oculta. Estive com eles na praça Sintagma, ao lado do Parlamento.

      VICE: O que pensas das acusações contra o teu filho?
      Pai Anónimo #1:
      Eles seguiram as suas ideias com coerência, passaram das palavras às acções contra o sistema. Ainda que estejamos a sofrer muito, estamos do seu lado.
      Pai Anónimo #2: Entendemos o que fizeram, e também as suas ideias como forma de moral para se revoltarem contra o nosso sistema corrupto e podre. Nós também queremos mudar o sistema, mas de outras formas.

      Se não podemos mudar a situação através das formas tradicionais, acham que o método dos vossos filhos é consequente?
      Pai Anónimo #1
      : Tentamos entender que apenas estão a exercer aquilo a que chamam de “resistência pacífica”, são anarquistas nas acções. Chamam-lhes terroristas, mas eles estão a lutar pela paz.
      Pai Anónimo #3: Eles sofreram a violência do Estado e perderam a fé na justiça que o Estado deveria assegurar.

      O que acham do uso de armas?
      Pai Anónimo #1:
      Jamais as usariam para ameaçar aqueles que não são seus inimigos. No último roubo até asseguraram que ninguém fosse ferido.
      Pai Anónimo #2: Disseram-se muitas coisas sobre o seu estatuto social, que são de famílias de classe média. Os desfavorecidos lutam pela justiça, os que não o são lutam pela liberdade. Os nossos filhos cresceram com os princípios de que devem solidarizar-se com os sectores mais frágeis da sociedade.

      Neste contexto, cada acto violento é de certa forma simbólico?
      Pai Anónimo #2
      : Digamos que é uma forma de expressão incendiária. Antes de cada acção houve um anúncio. Quando realizaram algo extremo como um bombardeamento de um banco, avisaram as pessoas para que se mantivessem longe. A polícia sempre reagiu tarde.

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      Temas: Matthaios Tsimitakis, anarquistas, tortura, Polícia, Grécia, autoridades, ataques, espancamentos, revolta, anarquia, entrevista, extrema-esquerda, photoshop, imagens, Yiannis Michailidis, Andreas-Dimitris Bourzoukos, Nikolaos Romanos, Dimitris Politis

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