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      As cidades também podem ser galerias a céu aberto

      December 5, 2012

      Por Sara Cunha

      Folgamos todos em saber que os tempos em que a arte era obra exclusiva de museus, vulgo espaços fechados com exposições de artistas, mais ou menos consensuais e, geralmente, com entrada paga, são coisa do passado. Uma realidade que, bem feitas as contas, até devia andar bem perto de subverter a génese da coisa. Nos tempos que correm e, paralelamente à novidade do Museu Google, o espaço urbano foi tomado de assalto por uma nova geração de artistas que, embora nascidos na era do capitalismo, são porreiros o suficiente para partilharem aquilo que são bons a fazer. Arte democrática, no sentido literal da palavra, a street art parece que anda aí com vontade de ficar e até já deu emprego a uns quantos funcionários públicos que estavam em risco de ir para a prateleira do excedente. O porreiro nisto tudo é a liberdade de acesso de quem cria e de quem a usa.

      Seguindo o exemplo de outras capitais europeias, Lisboa têm-se transformado numa espécie de Tate Modern a céu aberto (passe o parolismo) e os artistas de rua estão a tornar-se num comitiva quase tão numerosa como a claque do Benfica. Não há muito eram apelidados de vândalos e meliantes em horário nobre, o mesmo que agora lhes dedica reportagens e entrevistas. São uma espécie de rock stars da arte nacional contemporânea e dividem-se entre os projectos comerciais que lhes pagam a renda da casa e as obras (legais e ilegais) que lhes apagam a vontade de criar e estimulam o mobiliário urbano de cidades demasiado cinzentas e organizadas. Há os filhos das ruas e crescidos nas paredes, os que saíram de universidades com canudos de belas artes, os que te agitam o pensamento, os que dinamitam, os que desenham. E se o graffiti até nem era grande novidade, hoje o vocabulário de quem usa a rua como galeria cresceu em razão inversa ao PIB nacional, criando espaço a toda uma nova bateria de especialidades: cartazes, escultura, crochet, miniaturas, posters ou autocolantes.

      Isto é tudo muito bonito (e, até certa medida, já meio visto), mas o difícil nestas coisas é conseguires mapear as rotas destes movimentos urbanos. Eu tentei, mas não consegui e foi aí que dei com o nome deste rapaz: TARGET. Artista urbano a espaços (diz que, actualmente, o tempo escasseia para trabalhar na rua), este jovem é a cara que se esconde por trás daquela que será, provavelmente, a mais exaustiva plataforma online de street art em Portugal. Por lá, encontras o referencial de obras a ver no país, links para as páginas dos principais artistas nacionais, notícias sobre eventos, imagens e sugestões. Só encontras pouco material do próprio.

      Aqui ficam as minhas dicas, com ajuda do Target, para algumas das melhores obras que poderás visitar em Lisboa, isto, se estiveres numa de te mexer e não ficar toda a tarde a anhar numa esplanada qualquer (nada contra).


      Pantonio @ Amoreiras (fotografia por Target)

      Tirar partido daquilo que o Universo te dá, não era o que o outro dizia?


      Vhils @ Alfama (fotografia do artista)

      Esta é uma tormenta para encontrar. Boa sorte!


      Crono: Blu, Gémeos e Sam3 (fotografia por Target)

      Em plena Avenida Fontes Pereira de Melo, a poucos metros de sede de grandes empresas das energias e telecomunicações, esta imagem conta a história de todos nós.


       ± descarga policial (fotografia por Target)

      Esta está aqui, porque há uma sucessão natural nestas imagens, que deixo ao vosso critério encontrar…


      Chão do Loureiro (fotografia por Duarte Lourenço)

      Esta é a opção preguiçosa, para quem quer ver muitos exemplares em pouco tempo. Foi uma das primeiras iniciativas promovidas pela GAU e, como está “bem escondidinha, não corre o risco de ser apagada.


      Mar @ Rua da Cascalheira em Alcântara (fotografia por Pedro Seixo Rodrigues)

      É um dos mais conhecidos artistas street nacionais e tem obras da Covilhã às ilhas. Está envolvido em inúmeros projectos ligados ao design, à ilustração e à arte mais convencional. Tem uma técnica de fazer cair o queixo, por isso vale bem a pena conhecer mais.


      Galerias de Almada (fotografia por Target)

      A provar que a Margem Sul está longe de ser um deserto.


      Aryz @ Rua Rodrigues Sampaio (fotografia por Lara Rodrigues)

      São sete andares de pintura que, ao que parece, foram feitos sem nenhuma guia.


      Paredes GAU @ São Pedro de Alcântara (fotografia por Target)

      Podem ser vistas enquanto usas o elevador da Ajuda, até porque, se fores a pé, estarás capaz de escorregar no típico paralelo que torna as ruas de Lisboa num verdadeiro parque de diversões. As pinturas por cá vão rodando à força das ideias e projectos da Galeria de Arte Urbana e tem sido uma das iniciativas mais visíveis da luta contra o bombing e tagging.


      Marionetas @ Amoreiras: Nomen, Slap e Kurtz (fotografia de Target)

      A encerrar em beleza, uma obra tripartida nos Muros das Amoreiras.

      Perceba-se que este artigo não é listagem exaustiva, serve apenas para aguçar a curiosidade. Se quiserem, têm aqui um mapa ou podem começar a abrir os olhinhos para o que vos rodeia.

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      Temas: street art, Sara Cunha, Lisboa, Amoreiras, Target, graffiti, Museu Google, Alfama, portugal

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