Milhões de Festa


Barcelos também tem milhões de lendas

Por Nuno Rodrigues


Este sou eu, a merendar no Milhões de há uns anos.

Já são poucos os dias para o festival mais antecipado do Verão e as coisas estão a tomar um rumo estranho. Já temos mamas, bicicletas, rabos de gajas conhecidas e pessoal a cagar posts sobre o quão ultrajantes e cheeky vão ser no abençoado fim-de-semana de 25 a 28 de Julho, junto às margens do Rio Cávado, em Barcelos.

Por este andar, o Milhões de Festa arrisca-se a parecer uma noite má de um clube da moda qualquer, só que com bandas incríveis, ou a elevar os níveis de douchebag per capita (ou metro quadrado, dependendo da escola de medição a que se encontrem afiliados) a números só comparáveis com a Bershka em época de saldos (na loja de moda masculina, na moda feminina implicaria um aumento exponencial do nível de sheilas).

É por isso mesmo que, prontamente, se iniciou a tarefa de dar o devido substrato cultural à romaria. Uma espécie de iluminação aos peregrinos da farra e discípulos de Baco, através do ensinamento das duas lendas mais conhecidas da cidade, em total acordo com essa ancestral tradição que é o espetanço de petas. Além do mais, dado o conteúdo das lendas, os caros leitores podem já ficar com a impressão do nível de fritaria centenária desta terra.



LENDA DAS CRUZES
Comecemos pelo conto lendário que justifica a existência do Templo do Senhor da Cruz, a igreja circular na praça central de Barcelos. Em 1504, quando ainda havia sapateiros, um em particular, chamado João Pires, tinha uma filha formosíssima que dava pelo nome de Luisinha. Luisinha, gata, não passou despercebida ao olhar do galanteador de D. Pedro Martins, fidalgo da urbe. Observe-se que "galanteador" é um eufemismo para um mulherengo com 500 anos: o que este senhor queria era pinocada e a Luisinha, que deveria ser jeitosa para o efeito, passou a ser a presa do fidalgo.

E foi assim que se iniciaram os avanços destemidos do cavalheiro para fazer a corte à moça, que, com certeza, não passaram por pagar uns cocktails com cartão de crédito dourado e uma conversa leve sobre como a mulher o deixou e que não sabia o que ia fazer com todo o espaço que tinha na casa da praia e que achava extremamente interessante que a Luisinha estivesse a tirar uma licenciatura em turismo. Nem pensar. D. Pedro Martins abusou da sua sorte, ao perseguir constantemente a rapariga, e acabou por chatear o papá sapateiro, que lhe enfiou dois bananos que deixaram a marca na delicada face do fidalgo. Marcado pela coça que levou, D. Pedro Martins passou a ser motivo de riso nas tascas e feiras locais, o que não era nada cool para um fidalgo como ele.

Acontece que, como isto é uma lenda, agora se passa uma cena que não tem nada a ver, que é um barco da Flandres naufragar em Esposende, que é no litoral, perto de Barcelos, e por obra do demónio lá estava Luisinha na praia, com as amigas, que ajudam a socorrer os náufragos. Mas Luisinha, tal como Bilbo Baggins, encontra mais do que o que estava à espera: um pedaço de madeira enterrado na areia, que emitia um estranho calor e exalava um cheiro exótico (que mais tarde se provou ser Chanel n.º5 e, por isso, totalmente banal).

A querida rapariga decide levar a madeira para Barcelos e, chegada a casa, deita-a à fogueira. Sim, ela fez 15 quilómetros a pé com um pedaço mágico de um barco para chegar a casa e o deitar à fogueira. 'Tá tudo! De repente, a casa ficou toda iluminada e apareceu, desenhada no chão, uma cruz luminosa. Que fritaria. Deve ser mais ou menos estas merdas que o pessoal que queima as toneladas de ganza apreendida deve ver. Por algum motivo aleatório começaram a cavar o chão onde se desenhou a cruz, apenas para se aperceberem que todas as vezes a cova se enchia novamente de terra.

Vai daí, o sítio vira romaria dos locais e, quase imediatamente, local de peregrinação. D. Pedro Martins, que além de céptico ainda estava chateado por ter tatuadas as mãos do sapateiro no lombo, decide acusar a Luisinha e respectivo pai de bruxaria, a ver se a fogueira lhes queima o corpo. No preciso momento em que, invocando o nome de deus, se prepara para os acusar, a cruz luminosa surge de novo! O fidalgo cai por terra, arrependido, e a população local admite que de bruxa Luisinha não tem nada, o único crime que cometeu é o de ser podre de boa. A nata da terra reúne-se e decide empreender a construção do templo no local onde a cruz apareceu, enquanto outros se encarregaram de inventar os carrinhos de choque e as farturas, para todos os anos se celebrarem as Festas das Cruzes, em comemoração deste belo milagre.


Na dúvida, culpem sempre o estrangeiro.

LENDA DO GALO DE BARCELOS
Crème de la crème das lendas portuguesas, a lenda do galo de Barcelos deu origem a um dos mais reconhecidos símbolos do nosso país, bem como aos porta-chaves de 99 por cento dos emigrantes nacionais. O colorido galo de Barcelos! Reza assim o mito: passava por Barcelos um galego peregrino, com destino a Santiago de Compostela, quando a população se encontrava alarmadíssima com um crime cometido no burgo. Ora, logo de início, este galego também era emigra, visto que Santiago de Compostela fica na terra dele e, por isso, a não ser que o rapaz gostasse de ultramaratonismo, vivia a Sul da Galiza e de Barcelos.

Quanto à natureza do crime, esta varia de fonte para fonte, uns dizendo que se tratou do roubo de peças de cutelaria em prata, até ao roubo de montante considerável da moeda corrente. A minha fonte mais segura diz que se tratou da violação de Luisinha que, por esta altura, ainda era uma moça muito desejada (ver lenda anterior). As atenções de todo o burgo viraram-se para o galego, esse infame estrangeiro que nunca ninguém tinha visto, o que não deixa de ser uma prova da hospitalidade milenar do povo português.

O peregrino, que se dirigia a Santiago de Compostela para cumprir promessa, foi prontamente agrilhoado e presente ao juiz, para que o julgasse, naquilo que se demonstrou ser também um exemplo de rapidez pragmática da justiça nacional, característica que não se diluiu com o tempo e ainda hoje todos prezamos. Sem grande margem de manobra para construir o caso, a defesa foi arrasada, resultando na condenação do galego a morrer por enforcamento. No entanto, este valente galego, não se resignou com tal decisão, pedindo para se apresentar perante o juiz que o condenara. O juiz, que devia estar mais do que satisfeito por restabelecer a paz ao burgo, decidiu autorizar o galego a apresentar-se uma última vez, na sua residência. Chegado à casa do magistrado enquanto este se banqueteava com uns compinchas, o galego clamou misericórdia dada a sua inocência, apenas para as suas esperanças se desvanecerem perante a incredulidade do magistrado e o seu gangue.

Posto isto, talvez achando que era mais fixe sair desta vida com um sabor trágico-místico, o galego exclamou: “É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”, apontando para o galo assado no centro da mesa. Uma espécie de “Bitch, I might be”, o que faz do galego o Gucci Mane da inocência. Foi então mandado embora, para ser enforcado, o rapaz, que entretanto pregou um cagaço à malta snobe da taina do juiz e, por isso, ninguém tocou no maldito galo. Chegado o momento da verdade, vaiado pela população que acorreu em peso ao local designado para o enforcamento (era chique ver os pezinhos a balançar no cadafalso) foi posto o laço ao pescoço do presumido criminoso.

No preciso momento em que se inicia o enforcamento, o galo, que não achou conveniente manifestar-se mais cedo (só naquela) levantou-se num salto e começou a cantar (matanto três com ataque de coração, danos mentais irreversíveis em todos os restantes) urgindo o magistrado a correr, o mais que o seu corpo provavelmente balofo permitia, para impedir o enforcamento. Dado o excelente timing e inaptidão ridícula de quem fez o nó e o deixou lasso, foi possível impedir o enforcamento do galego, deixando-o ir em paz na sua jornada, com uma sapatadinha de desculpas nas costas, ao que este terá respondido: “Na boa, mano. As confusões acontecem, não é verdade?”

Uns anos mais tarde e para surpresa de toda a população, que começou prontamente a esconder tudo o que fosse galo na região, não fossem ser vítimas daquele vudu marado outra vez, o galego voltou a Barcelos para erigir um monumento em louvor de S. Tiago e da Virgem Maria. Do galo assado nada mais se soube, havendo rumores de que se tenha mudado para o Kentucky, onde constituiu família com uma galinha frita.

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