Barreiro Rocks: uma edição ibérica para enganar a crise

Por Pedro Soares



Confesso que começo a ficar aborrecido com isto da crise. Baixam-me o ordenado (aquele que eu receberia, caso arranjasse um emprego), acabam com o Câmara Clara (que seria o meu programa favorito, se eu visse a RTP2), e agora quase que faziam com que este ano não houvesse Barreiro Rocks. Aí sim, eu ia arreliar-me a sério.

De forma a enganar a crise e a contornar os cortes orçamentais, a malta da Hey Pachuco, que promove o Barreiro Rocks, decidiu apostar, este ano, numa edição ibérica e mais reduzida, de apenas um dia e meio. No fundo, não é uma grande novidade, uma vez que quem costuma ir ao festival todos os anos sabe que é normal encontrar tantos espanhóis, quanto portugueses (em cima e fora do palco).

O Barreiro Rocks é o melhor festival de rock’n’roll ibérico, mas é também uma altura do ano em que revê uma série de amigos, enquanto se bebe cerveja e se vê uns concertos do catano. O programa da edição deste ano é isso também: um reencontro de amigos. Com os Los Chicos, locomotiva rock'n'roll desgovernada, que nos deram uma das melhores after-parties da história do festival, ou com os próprios Act-Ups, banda da casa e que, se o mundo da música fosse justo, andariam aí em digressões mundiais constantes. Ou com os Jesus Racer R'n'r Trio, dois nuestros hermanos, que vimos pela primeira vez em 2003, e com Fast Eddie Nelson, bluesman da Margem Sul que, felizmente, continua a lançar discos todos os anos cada vez melhores.

Na parte das novidades, destaque para os Dirty Coal Train (trocadilho muito cool), lisboetas que acabam de lançar o EP de estreia pela Monotone e que prometem muito, com um horror-rock meio Cramps e meio Gories. E para os Los Saguaros, o que restou dos saudosos Sonic Reverends, agora em versão duo, mais western e com menos electricidade no sangue — e que também lançam no festival o registo de estreia.

O resto do cartaz completa-se com os Glockenwise, rapaziada que segue as pisadas dos Black Lips e que mostra que, com o rock'n'roll, queremos ser jovens e hedonistas para sempre, com os ALTO!, super-banda da cena barcelense, com os Tracy Lee Summer, power-trio barreirense, com os Greasy & Grizzley, primos afastados dos também espanhóis Los Chicos, e com Asimov, que pode muito bem ser a revelação deste Barreiro Rocks com o seu stoner-psicadélico. Ah, e com os Los Santeros, trio de mariachis-punk, que provam que o erro e o improviso também fazem parte daquela treta da atitude do rock'n'roll.

Se dizem que esta é uma forma de enganar a recessão, nós acreditamos. E não nos queixamos nada. Vemo-nos lá, desta vez no salão de Os Penicheiros, mais uma daquelas colectividades que parece que só existem no Barreiro.

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