Boas vibrações com a DENA

Por Álvaro Dols



Denitza Todorova é uma compositora e cantora búlgara, que mora em Berlim e que se esconde por trás do nome DENA. Este alter-ego é um projecto musical recente, que sem ter ainda editado o seu primeiro disco, tem já captado as atenções do panorama internacional. Na sua página de Facebook, DENA esclarece: “O E de DENA pronuncia-se como o A de dança.” Existe mais alguém assim tão fixe?

A sua música traz-nos a boa onda do Verão, uma mistura de pop leve, com claras influências do r’n’b e do hip-hop. O seu ar desleixado mega cool e as suas danças quase arrítmicas fizeram com que colássemos no seu vídeo “Cash, Diamond Rings, Swimming Pools”. Neste momento, DENA encontra-se a trabalhar no seu primeiro álbum, acompanhada pelo produtor finlandês Jonas Verwijnen. Estamos curiosos por ouvir o resultado.

Tudo acontece de forma fluída e relaxada com Denitza. O melhor é que tudo parece ir no bom caminho. Não sabemos se continuará a visitar os flea markets e a dançar com os vendedores locais, se trocará as sapatilhas pelos saltos altos, ou se a sua onda chunga cool ficará anulada pelo glamour das revistas… O certo é que o Verão já foi embora e que o frio já bateu à porta. Agora, perguntamo-nos sobre o que será feito de DENA?



VICE: Ei, Dena. Como vai tudo?
DENA: Yo. Estou agora na Bulgária, a preparar-me para passar uns discos em Sofia, durante o fim-de-semana.

Fixe! Olha, sem teres nenhum disco editado e só com três canções conhecidas, a tua música já percorreu o mundo. Qual é que foi a tua fórmula?
Acho que foi ter as ideias bem assentes e ter a sorte de conhecer as pessoas certas para trabalharem comigo. Estou muito agradecida por isso.

Estás agora a terminar o teu trabalho de estreia. O que podemos esperar dele?
Ritmo!

Altamente. Bem, vamos falar sobre a tua mudança da Bulgária para Berlim. O que causou isto?
Mudei-me para a Berlim, oficialmente, por motivos académicos. Mas não foi só isso. Por exemplo, a situação política da Bulgária, depois da queda do Muro de Berlim (e com aquele período anarca durante os anos 90), foi muito agreste para as famílias. Éramos os filhos do pós-comunismo e crescemos em condições de incerteza, sem regras. A certa altura, no início do milénio, a emigração tinha atingido o seu ponto mais alto. Muitos jovens abandonaram o país, muitas pessoas estudadas, com dinheiro poupado… Actualmente, as coisas estão a mudar, especialmente depois da Bulgária ter ingressado na União Europeia. Mas, para já, acho que Berlim é o sítio para se estar, pelo menos dentro da Europa.

Cantas em inglês. Falas mais línguas?
A minha língua materna é o búlgaro. Mas também aprendi alemão na escola e é por isso que já falava a língua, quando me mudei para Berlim. Depois, o facto de ter estudado na Alemanha e de, actualmente, falar mais alemão do que búlgaro também ajudou. Ainda, falo um pouco de espanhol, porque partilhei um apartamento com uma miúda espanhola, que era doida. Consigo perceber turco básico, por ser originária da zona fronteiriça entre a Bulgária e a Turquia. Em 2008, também morei em Istambul, durante um semestre de Erasmus. Claro que compreendo russo e sérvio: é uma das coisas boas de conseguir ler o alfabeto cirílico e de ser da zona dos Balcãs. Consegues perceber mais ou menos as linguagens dos países de Leste.

Uau! Então, podemos esperar influências búlgaras ou alemãs no teu próximo disco?
Claro que vou, igualmente, aproveitar as minhas raízes balcãs [para fazer música]. Isto é algo que está, naturalmente, incluído na minha maneira de pensar o ritmo.



Quando é que entraste na cena musical?
Em 2005, estive numa banda, com uma amiga minha de Toronto, quando me mudei para a Alemanha. Ela tocava bateria e eu dava uns toques no sintetizador, ambas compúnhamos e cantávamos. Era um bocado punk, mas, ao mesmo tempo, dançável e feliz. A banda durou cerca de dois anos, mas depois cada uma seguiu o seu caminho.

Li que colaboraste com o Whitest Boy Alive e o Erlend Øye aparece no teu último vídeo. Qual é a tua relação com ele?
Quando me mudei para Berlim, conheci o Maschat e o Daniel, que já pertenceram a uma banda chamada Extra Produktionen. Era uma das sensações da electrónica berlinense, mas, infelizmente, terminou. Eu e esses dois rapazes passávamos muito tempo juntos. Eles tinham um estúdio, que era uma espécie de casa cheia de músicos, sessões e projectos. Tudo a acontecer, todos a entrar e a sair. A certa altura, o Erlend e o Marcin apareceram por lá, porque o seu estúdio estava localizado no mesmo edifício. Resumindo: os meus amigos juntaram-se ao Whitest Boy Alive e o Erlend e eu tornámo-nos bons amigos. Desde então, ele tem-me ajudado imenso. Quanto ao vídeo, ele ligou-me nesse dia e apareceu na sessão. Foi super fixe e completamente espontâneo.

Algumas pessoas prestam atenção à tua história de vida. Não és norte-americana, nem inglesa. Fazes rap. Usas sweats e bonés. Dizem que tens semelhanças com a Santigold e com a MIA. As comparações são uma merda, não são?
Sim, um pouco. As boas notícias é que sou mesmo fã dessas artistas, daquilo que conheço dos seus trabalhos. E acho que todas essas meninas têm o seu estilo único de reflectir as suas crenças.

Mas então, com que grupo, ou cantor/a gostarias de ser comparada. Ou, até, de colaborar no futuro?
Não sei se gostaria de, alguma vez, ser comparada a outra cantora, compreendes? Por agora, estou viciada nas Icona Pop, uma banda sueca. Nem acredito que, no outro dia, partilhámos o mesmo palco, em Hamburgo. Não consigo esperar para voltar a estar com elas. Trabalhar com as Icona Pop seria bombástico! Também curto muito Das Racist, acho que eles marcaram bem o seu ponto de vista. Acho incrível a remix que fizeram da “National Anthem”, da Lana Del Rey. Para mim, eles são um verdadeiro projecto artístico, porque reciclam a cultura norte-americana de uma maneira muito interessante, através de canções. Adoro arte.

Vá lá! E com a Beyoncé? Sei que és uma grande fã dela e também das Destiny’s Child…
Completamente! A música, a produção e os arranjos das Destiny’s Child e da Beyoncé são icónicos para mim. Só liricamente é que não concordo a 100 por cento com algumas coisas. É um certo paradoxo, porque adoro determina música, mas, por vezes, creio que as líricas do hip-hop contemporâneo e do r’n’b contribuíram para o crescimento de um estereótipo. Esta parte não me agrada tanto. Por outro lado, acho que esta é uma das vantagens de não ser uma nativa de língua inglesa: por vezes, posso desligar-me do que está a ser dito.

Falando nas Destiny’s Child, lembro-me de quando era mais novo, de quando usava cassetes e de quando comprei os meus primeiros discos. Quais é que eram os teus músicos favoritos e quais é que foram os teus primeiros CDs?
O formato de CD chegou um pouco tardiamente à Bulgária. Por acaso, lembro-me mais da existência de uma soberania da cassete, durante muito tempo. A primeira cassete que comprei deve ter sido Erykah Badu. Ou Kelis.

Tens mais receio da música pop, ou da música comercial?
Não sou fã de música pré-feita. Em nenhum género. Ou de música que só é feita para vender um produto. Da mesma maneira, não receio nenhum tipo de música. Gosto de pop.

No teu website, está escrito “DENA from the block”. Inspiraste-te na Jennifer Lopez?
A referência ao “from the block” está, obviamente, ligada à canção da J-LO e à cultura do hip-hop. Mas, refere-se, igualmente, ao meu passado. Se alguma vez fores à Bulgária, irás ver que o tipo de arquitectura mais comum é o bairro, o quarteirão [block]. Além disso, existe a terminologia “bloco do Leste”, que une os países que se viraram para o comunismo, depois da Segunda Guerra Mundial. Não gosto deste termo, porque soa como uma etiqueta, que é fácil de ser colocada nas pessoas e nas suas culturas. Porém, este termo existe. Então, sim, o termo “block” é uma espécie de casa materna. Ao utilizá-lo, estou a brincar com o seu significado, com o que isso significa em Brooklyn e também na Bulgária.

No vídeo de Cash, diamond rings, swimming pools, apareces num flea market, a interagir com patrões e com cidadãos locais. Foi algo espontâneo?
Nós sabíamos que o queríamos filmar nesse local e sabíamos quais imagens é que queríamos. Mas, sim, a maneira como tudo se desenrolou foi muito natural.

Como foi dançar com eles? Ouvi dizer que és viciada em dança…
Foi muito divertido. As pessoas no mercado são tão fixes! Todas aquelas cenas de dança aconteceram naturalmente. Acho que isso teve que ver com as boas vibrações, com o divertimento que estávamos a ter… Falámos com imensa gente lá, também. Não apenas em búlgaro, mas num dialecto balcânico improvisado. A maioria das pessoas estava a curtir a canção, o que foi incrível.

Compraste alguma coisa lá, no mercado? Costumas comprar roupa em segunda mão?
Por acaso, não tenho nenhuma inclinação especial por roupas em segunda mão. Curiosamente, houve uma coincidência: a camisola cor-de-rosa que estou a usar no vídeo foi, de facto, comprada num flea market, em Londres, há uns tempos.



O que é que te atrai na moda? Também apanhaste a moda das ghetto nails? Alguma vez tentaste usá-las?
Sou grande fã de formas e de cores. Gosto quando existe magia e eu reparo nela. Pode ser qualquer coisa: um reflexo subtil, um padrão simples que vejo num prédio, no sol depois da chuva e afins. Encaro a moda da mesma maneira. E a cena é: não procuro por isso, prefiro quando ela me encontra. Sobre as ghetto nails, nunca experimentei, mas deves estar a adivinhar os meus pensamentos! É que estou prestes a tomar esse rumo. Ainda não sei é se, com elas, vou conseguir passar discos, ou tocar teclados. Tenho de experimentar. A Anna (que é a minha colega de banda) e eu já temos uma coreografia preparada, que se chama “Get My Nails Done”.

“Cash, diamond rings, swimming pools”. Rapariga, numa só canção, enumeraste três coisas que TODA A GENTE procura na vida.
Exactamente!

Primeiro, lançaste uma canção chamada “Games”. Depois, veio a “Boyfriend”. Estás a tentar dizer-nos algo?
Na verdade, primeiro editei a “Boyfriend” e só depois a “Games”. Mas sim, estou a tentar dizer algo… Pump up the jam!

Descobri uma mixtape muito fixe no teu site, só de hip-hop e de r’n’b. Também fazes DJing?
Sim, de vez em quando. Curto passar os meus temas favoritos, apesar de não ser um génio da mistura. Mas é divertido.

Há várias rappers femininas (e cantoras, compositoras e grupos) que estão a crescer e a captar atenções. Estás a seguir a carreira de alguém em especial?
Icona Pop. LCMDF.

E quando é que vens a Portugal?
Marca-me um concerto e vou já para aí.



Qual é que foi o ponto mais alto da tua breve carreira?
Fazer a abertura para um concerto de Das Racist, há uns meses. Conhecer tanta gente inspiradora e tocar em países desconhecidos. Aparecer na televisão búlgara. Compor em parceria com outros músicos que admiro.

Deixa-nos um conselho:
Sejam honestos e ouçam o vosso coração.

Obrigado! Muitos anéis de diamantes para ti, DENA!


Fotografia por Emma Vensson

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