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      É horrível ser polícia no Brasil

      January 17, 2013

      Por Eduardo Roberto e Gabriel Vitur

      Em 2012 houve um, vamos colocar as coisas desta forma, desentendimento entre a polícia e o PCC que resultou em mais de uma centena de polícias assassinados (e em criminosos e trabalhadores a serem corridos à lei da arma). Depois disto, encontrámos um polícia disposto a dar o seu testemunho sobre o problema sob anonimato. Respira e aproveita este relato que faz o The Wire parecer um conto de fadas.

      Sou soldado da Polícia Militar e, se me identificar, sou expulso. Trabalho na área central da cidade, no coração de São Paulo. É aí que se situa um dos redutos do PCC. Conto já com oito anos de profissão: trabalhei na zona Sul, na favela de Heliópolis e passei a maior parte do tempo na Força Táctica. Actualmente, estamos a atravessar o pior momento da carreira. É ainda pior do que em 2006, quando aconteceram os atentados. Naquela época, atacavam-nos durante o serviço, sabíamos quem era o inimigo e íamos atrás deles. Havia rádio, comunicação e bastava pedir apoios, que apareciam o Águia, a Rota, o mundo inteiro. Hoje, não. Hoje estás no teu horário de folga, ao lado da tua família e a tua maior preocupação é protegê-los.

      O estado fechou os olhos. A primeira comunicação extra-oficial que recebemos foi depois das eleições, quando mais de 40 polícias já tinham morrido. Foi em Setembro que tudo rebentou. Antes, acontecia uma vez por semana ou a cada quinze dias, depois começou a ser diário. Todas as noites morria um polícia. Pouco tempo antes, em Agosto, já sentíamos que algo se estava a passar. O governador disse que não era nada, o secretário de segurança também e os oficiais negavam a existência dos atentados.

      Depois da segunda ronda das eleições, um oficial veio e disse-nos: "Isso está mesmo a acontecer, há escutas telefónicas que provam os ataques." A 5 de Agosto, prenderam o Piauí, um dos chefes do PCC. A Polícia Civil sabia que havia sido dada a ordem para executar polícias, mas nós não fomos informados disso. A Civil informou o estado e esse dado foi parar ao alto comando: o secretário sabia, o governador sabia. Nós sabíamos que algo estava a acontecer, mas não percebíamos o quê, exactamente.

      Foi tudo muito diferente de 2006. Morreu gente da administração, da corregedoria. Não era trabalho de um batalhão específico. Foi ocasional. O ataque era geral, visava atingir todas as esferas da polícia. O Alckmin vai trocar o secretário, o comando, mas não vai resolver a situação. A tropa está com medo, porque ninguém sabe quem é o inimigo. Um gajo chega e mata-te, sem intenção de roubar nada. É só para executar, sem mais nem menos, sem perguntas.

      Os polícias estão com medo, tiveram de mudar de rotinas. Antes, toda a gente ia trabalhar fardada para não pagar autocarro. Não recebemos vales de transporte, só podemos viajar à borla com farda. Logo, só aí aumentaram os gastos dos polícias. E o que é que o estado faz? Existia uma gratificação, mas foi cortada. Tivemos quebras salariais de 20 por cento. Ou seja, 70 mil polícias, quase 100 por cento dos que estão no activo, perderam entre dez a 20 por cento do salário. Nesta fase mais difícil, diminui o salário e aumenta a jornada de trabalho.

      O número de efectivos aumentou para dar uma sensação de segurança? Não, aumentou o horário de trabalho. O número de trabalhadores é o mesmo. A tropa está descontente e a passar necessidades. Não temos viaturas suficientes e as bases comunitárias estão lotadas. Os paulistas ficam stressados porque passam quatro horas por dia dentro de um carro. Mas, esses carros têm ar-condicionado, direcção assistida, vidros eléctricos, rádios… Já os polícias passam 12 horas por dia dentro de um carro que não tem nada. Tirando a Rota e a Força Táctica, o resto tem carros básicos para trabalhar, tipo um Corsa Classic.

      Se sou tratado como lixo, vou tratar como lixo. Vou transmitir o ensinamento que me foi dado. No meu quartel, existem as casas-de-banho dos oficiais e civis e depois a dos praças. Se sair da polícia, vou usar o mesmo WC que o oficial. Mas, actualmente, uso um WC lá no subsolo. Ou seja, a polícia está abaixo do civil. Dentro da minha corporação, sou inferiorizado, quando comparado com quem está na rua. O oficial não sai à rua, ele supervisiona. Dos 96 que morreram em atentados, todos eles eram praças. Se morresse um oficial, haveria repercussão. Morreu um praça? É só mais um, é um número, toda a gente sente isso. O oficial começa a sua carreira a receber cerca de cinco mil reais. Eu, no fim de carreira, não ganho isso. Vou aposentar –me para ganhar cerca de 4800 reais.

      Atendemos 15, 20 ocorrências por noite. A maioria não é de polícia. São perturbações da ordem, coisas que dizem respeito à Prefeitura, da Lei do Psiu, do 156. O que é administrativo não é da polícia, isso só nos sobrecarrega. Às vezes, nem consigo jantar. E, quando entro numa padaria e peço uma coxinha, chega sempre alguém a apontar o dedo. Durante 12 horas, não conseguimos parar sequer uma hora para jantar, isso não existe. Não existem direitos humanos para os polícias. É difícil um polícia conseguir estudar, porque não tem horários compatíveis. Actividade física? Podem reparar, os polícias na rua estão todos gordos. Os oficiais, todos magrinhos, porque têm tempo para ir ao ginásio. Mesmo quem está na rua, se é tenente, tem uma hora de actividade física dentro do tempo de serviço.

      Se levas a farda na mochila, não pode chegar amassada. Se prendes um ladrão, ele é condenado e pode responder em liberdade. Eu, por uma bota suja, posso ficar dois dias preso. Usamos um cinto que prejudica a nossa coluna. Na Polícia Federal ou na polícia de outros estados, toda a gente usa um coldre na perna, de nylon, e pólos. Nos EUA ou no Japão é tudo muito bonito: as pessoas respeitam a polícia, é tudo corrido a tolerância zero. Se parecia que aquele gajo ia disparar contra ti ou se pegou numa faca, podes atirar. Aqui no Brasil, ando de calças e camisa, só me falta a gravata. A nossa farda não é operacional, não é feita para corrermos atrás dos bandidos. A farda da Rota, do Choque, é melhor — e eles atendem menos ocorrências do que nós. Aqui temos duas pistolas. O nosso armamento não é igual ao do bandido, é inferior. Estamos em desvantagem na roupa e no armamento. Tudo isso afecta a actividade na rua.

      Por que é que a população gosta da Rota? Cada equipa fica oito horas na rua. São três horas de actividades físicas e depois as oito de patrulhamento, numa Hilux, com quatro pessoas dentro — cada um com uma função específica —, com um .30, que é um fuzil leve, uma arma de calibre 12, um escudo, um capacete balístico, equipamento completo… Ou seja, é claro que eles vão atender-te bem, vão enfrentar melhor os criminosos. Como a nossa tropa está stressada, exausta, não dá para fazer uma boa ocorrência. Existem polícias a mudar de casa, a fugirem para não serem alvos.

      Existe um grupo de extermínio, claro. Não tenho provas, nem conheço polícias que o tenham feito, mas esse monte de gente que morre na periferia, nos locais de drogas, podem ter mesmo uma relação com os polícias. A partir do momento, em que te revoltas e que o estado te vira as costas, é a tua família que está em jogo. E tu vais querer cobrar. Uma pesquisa mostrou que 41 por cento das pessoas apoia que os polícias matem e que os ajudaria a provar a sua inocência, se o caso fosse a tribunal. Os homicídios contra policiais caíram, mas não foi porque o estado fez alguma coisa e sim porque eles vestiram a camisa e estão a cair em cima de quem podem. Isso é correcto? Não. A polícia tem de prender e não de matar. Ou seja, a polícia perdeu a linha. O comando e o governo não têm controlo sobre a polícia. Os polícias deixaram de se controlar. Hoje, existe uma aflição dentro das viaturas, porque ninguém sabe o que é que o teu companheiro vai fazer.

      Tive um parceiro que foi executado. Trabalhava no extremo Sul. Invadiram-lhe a casa, mas ele conseguiu fugir e pediu transferência para outro batalhão. Em seguida, saiu do trabalho e foi morto. Ou seja, não resolveu o problema. O nome dele é o mesmo, o RG, o advogado. É fácil descobrir onde ele está. Existem informações à venda e há gente do PCC dentro da polícia. Não há gente da polícia dentro do PCC, mas qualquer pessoa sem cadastro pode ir a concurso, entrar e vender informação. A polícia não consegue investigar isso, faz vista grossa. Quem sofre com isso são os bons polícias.

      E quem é o “bom polícia”, quem não concorda com isso de sair a matar, acaba por ser discriminado. Se esse gajo não mantiver a versão dos factos dos outros, sobra para ele também. Se tomar uma atitude, morre. Se deixar de tomar, é considerado conivente e fica preso. O polícia não tem mais para onde se virar. Quem deveria proteger nem sequer se consegue auto-proteger. A população está a cobrar, mas isto não é um jogo: eu não tenho várias vidas.

      Um promotor deu uma entrevista afirmando que o PCC está dentro da Fundação Casa e disse que há rebeliões comandadas de fora. Existe o PCC mirim, na base… Mas ninguém fica preso. O PCC já alicia os menores. No Rio de Janeiro, é por território. Em São Paulo não, é espalhado. Eles estão por todo o lado. Um tipo que foi preso por lavagem de dinheiro com o PCC e por assaltar um banco foi eleito vereador pelo PSDB.

      O PCC não quer polícias atrás de si, a chateá-lo. Se houver homicídios, vai haver mais polícias na zona. Se, actualmente, a coisa está mais organizada, é porque o PCC colocou ordem, não o estado. Não há ocorrências dentro das favelas, ninguém chama a polícia. A sentença é ali, na hora. O negócio cresceu e invadiu o espaço da polícia. Se o estado quisesse prender os bandidos achas que a viatura iria ser branca, vermelha e preta, com uma árvore de Natal em cima? É tudo para espantar.

      Os polícias que começaram a ir lá prender os criminosos foram perseguidos: ficaram sem carro e com maus horários. Se não houver registo de assalto, não há estatísticas. Se ninguém trabalhou o mês inteiro, aquele capitão foi perfeito. Se começas a trabalhar, irritas os restantes. A instituição é corrupta. Entre as sub-prefeituras de São Paulo, por exemplo, só uma não tinha comando militar. Aí o gajo foi demitido, porque lhe puxaram o tapete. É uma máfia.

      Pensa numa borbulha: se és pressionado dos dois lados, vais explodir e espirrar pus e sangue por todo lado. É o que está a acontecer agora. A polícia cobrou de um lado, o PCC de outro, os polícias explodiram. O Comando está a cobrar: quem trabalha vai ser morto. No estatuto do PCC, está escrito que se a polícia mata um bandido, morrem dois polícias. Para tornarmo-nos gerentes no crime, precisamos de matar um. Assim é a promoção e o estado é conivente com isso.


      Ilustrações por Juliana Lucato

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      Temas: policia, corrupção, PCC, Gabriel Vituri, Eduardo Roberto, Juliana Lucato, PSDB, Lula, Brasil, favelas, Sao Paulo, Rio de Janeiro

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