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      Este gajo fez uma burca à prova de drones

      February 15, 2013

      Por Kelly Bourdet

      O Adam Harvey criou uma burca à prova de drones. Este artista nova-iorquino desenhou, em colaboração com a designer Johanna Bloomfield, uma linha chamada Stealth Wearque oferece ao público vestimentas de tecido com níquel, desenvolvidas para impedir a detecção por infravermelhos de câmaras térmicas, o que inclui a vigilância de drones.



      O Harvey tem formação em engenharia mecânica e em arte digital e os seus trabalhos anteriores também se dedicavam à sobreposição entre privacidade e arte. O seu projecto CV Dazzle utilizava padrões de maquilhagem e penteados com o intuito de enganar os softwares de reconhecimento facial. A Camoflash, a sua mala  anti-paparazzi, contém uma luz LED capaz de obscurecer o rosto de uma pessoa, em caso de atenção indesejada por parte de fotógrafos.



      As roupas da actual colecção, além da burca, são um cachecol moldado como os lenços de cabeça usados tradicionalmente como hijab, um gorro e uma camisola com um material que inibe os raios-X na zona do coração. Nenhuma das vestimentas protegeria totalmente o usuário de detecção — a burca é de comprimento médio e sem mangas —, já que a criação uma peça de roupa capaz de matar a assinatura infravermelha de uma pessoa necessita de aprovação da ITAR (International Traffic in Arms Regulations). Ou seja: roupa totalmente à prova de drones ainda é demasiado militar para os civis.


      O artista a usar o seu casaco à prova de drones.

      O Harvey afirma que o objectivo de sua colecção é explorar novas possibilidades. “É uma questão de nos adaptarmos a um novo ambiente”, diz ele. “A colecção é sobre estar ciente destes novos desenvolvimentos. Isso faz com que as pessoas pensem sobre as novas formas de vigilância, por um lado, e explora novos materiais, por outro.” Harvey e Boomfield consideram que a Stealth Wear é um exemplo de tecnologia militar que vazou para a tecnologia de consumo. As forças militares norte-americanas utilizam, certamente, algum tipo de tecido à prova de drones, mas esses tecidos agora estão comercialmente disponíveis, sendo, contudo, bastante caros.



      Duas das peças da colecção são coberturas tradicionais das mulheres muçulmanas: o hijab e a burca. Os controversos ataques aéreos feitos por drones americanos, mais perceptíveis no Paquistão, já mataram muitos civis inadvertidamente, incluindo mulheres e crianças — o BIJ, Bureau of Investigative Journalism, estima que teram morrido entre 475 e 861 civis durante os 362 ataques de drones americanos no Paquistão desde 2004. Muitas dessas vítimas, tendo em conta a lógica dos ataques “de assinatura” da administração Obama, que considera como alvo qualquer homem adulto na vizinhança de militantes conhecidos, eram, na verdade, homens. Mas, quando consideramos a táctica de double-tap adoptada pela administração actual, uma estratégia típica dos terroristas que consiste em atacar imediatamente depois do ataque inicial (para matar os primeiros a chegar ao local, geralmente, familiares), não é ilógico pensar que há muitas mulheres na mira destes aviões não-tripulados.

      Quis saber qual era a intenção do Harvey ao elaborar estas roupas femininas tradicionais. "Essas duas peças foram originalmente criadas para serem usadas pelas mulheres do Paquistão e do Afeganistão. Debati este projecto com muitas pessoas e recebi ideias e respostas divergentes. Não queria ocidentalizar uma determinada vestimenta, neste caso a burca. Ainda assim, senti que era errado acrescentar uma funcionalidade prática à burca, que é uma vestimenta essencialmente muito repressiva. Melhorar a burca seria apoiar o conceito. A burca anti-drone é uma peça cheia de contradições, mas é dessa maneira que encaro um ideal de burca: capacitadora. O lenço hijab é o oposto. É algo muito neutro. Qualquer pessoa pode usar isso como lhe apetecer.”



      Tomada como declaração política, a colecção coloca os seus criadores no grupo de pessoas que são contra os ataques de drones e respectivas mortes de civis. Apesar disso, o seu uso também é atraente para os ocidentais, cada vez mais sensibilizados para a problemática da vigilância governamental. O Adam e a Johanna convidaram-me, recentemente, para a sessão de fotos da Stealth Wear. Quando nos encontrámos, eles mostraram-me um e-mail que tinham recebido naquela mesma manhã. Um senhor do Arizona estava interessado em fazer uma crítica objectiva da colecção de roupa, no seu blogue. Os outros artigos mencionados pelo blogue eram armas automáticas e semi-automáticas, além de diversos tipos de munição.

      Com a Stealth Wear, a vertente artística em explorar novos materiais e em criar vestimentas que possam proteger-nos do olhar alheio, simbolicamente ou não, mistura-se com os efeitos práticos, e políticos, que uma burca anti-drone pode ter como opção viável em certos lugares e em determinados futuros. Agora é ver se elas se vendem bem.

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      Temas: Adam Harvey, drones, anti-drones, burca, moda, ataques, muçulmanos, Kelly Bourdet, infravermelho, militares, Hijab, vigilância, Stealth Wear, Johanna Bloomfield

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