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      Estes robôs são mais fixes do que os teus brinquedos

      June 18, 2012

      Por Luís Lago

      Jornalista



      No Small Soldiers, aquele filme que saiu pouco depois do Toy Story, mas que era muito mais à frente, com action figures construídas com tecnologia militar que as tornavam destrutivas, há uma cena em que os monstros bonzinhos pegam num rádio para construir o amigo danificado. E mais para a frente os mauzões constroem um exército de Barbies para pedir resgate pela Kristen Dunst.

      Os robôs do Marco Fernandes fazem-me lembrar isso. São todos feitos com peças de electrónica inutilizada, como se essas peças tivessem ganhado forma e vida. O detalhe de cada um deles é tal, a estrutura tão complexa e articulável que, quem vê pela primeira vez, pensa que eles se mexem sozinhos. Não é o caso: estes robôs são só action figures de autor, não te vão ajudar a arrumar a casa ou escrever a tese para acabares o mestrado integrado. Mas não deixam de ser as melhores action figures de sempre! Fui a casa do Marco ver o seu exército de robôs e saber como ele apareceu.

      VICE: Olá Marco, explica aí como começaste a construir estes robôs.
      Marco Fernandes: A ideia original foi para um projecto de stop-motion. Os bonecos para fazer stop-motion têm um modelo mais ou menos estabelecido: aquele esqueleto, que por norma é revestido por silicone ou outro material. E então, em vez de comprar esses esqueletos, que ainda são caros, pensei em criar o meu próprio esqueleto e, a partir daí, surgiu a personagem do robô. Porque assim eliminava a necessidade do revestimento. Inicialmente seria um robô sem pernas, que se arrastava só com os braços, o que facilitaria a animação, mas depois experimentei fazer umas pernas e resultou bem. Depois surgiu a ideia da reciclagem de componentes electrónicos: leitores de DVD,  televisores, computadores, rádios, vídeos, isqueiros, outros brinquedos… Tenho montes de pessoas que se oferecem para me dar material, até já estou a recusar, porque tenho aí ainda bastante por usar. Gosto de pensar que surgiram sozinhos, de imaginar que eventualmente se formaram dos materiais próprios de que são feitos.





      Isto parece dar muito trabalho. Como fazes cada um deles?
      Todos eles são feitos do nada, não há esboço, nada. Recorro o mínimo ao uso de cola, as peças estão todas encaixadas umas nas outras. E então o conceito é também um bocado esse: as peças certas para cada um deles. É tipo Legos. E alguns têm influências de outras personagens. Vou buscar muito a filmes que me inspiram: Wall-e, Star Wars, o mechasuit do Aliens

      Já deves ter ouvido esta pergunta muitas vezes, mas porque é que eles não se mexem? Eu pensava que eram robôs a sério.
      Para isso eram precisos servomotores, e os que existem no mercado hoje em dia prestam-se todos a comportamentos muito específicos e não dão azo a muita diversidade. Jamais conseguiria fazer braços e pernas como os dos meus robôs com esses servos. O uso de servomotores, no meu entender, seria uma coisa mais forçada, imposta, e penso que entraria em conflito com todo o conceito, principalmente o de reciclagem. Iria acabar por descaracterizar os meus robôs. Se vires, por exemplo, algumas tentativas de Transformers com servomotores vais ver que todo o conceito do Transformer como brinquedo se perde assim como todos os pormenores característicos.



      Estás a pensar em ganhar dinheiro com isto?
      Ainda não estou focado muito em vendê-los. Vão servir para mostrar o meu tipo de trabalho. Nesse sentido pretendo realizar algumas exposições dos robôs antes de me focar nas vendas, mas sim, eles estão à venda (já vendi quatro) e os preços basicamente variam entre os 400 e os 700 euros. Agora quero deixar claro que apesar dos preços parecerem elevados, a minha ideia não é lucrar absurdamente com isto, nem pretendo "ganhar a vida" só com os robôs. O que eu quero dizer é que este foi um projecto muito pessoal, dediquei bastantes horas a cada um, são todos feitos à mão, as peças encaixam umas nas outras quase como Legos sendo por isso facilmente reparáveis caso se danifiquem, e são totalmente articuláveis servindo também para fazer animações tipo stop-motion. Para além disso, considero-os, acima de tudo, objectos de arte únicos.

      Fixe.
      Estou a pensar lançar um estudo criativo com a Lara [a namorada], com uma linha de t-shirts pintadas à mão, e ilustração. Peças únicas e exclusivas, de design de autor, digamos, e sempre com a ideia de reciclagem e reaproveitamento de objectos usados – por exemplo, transformar e criar, a partir de outras peças, candeeiros, alguma mobília, refazer skates antigos, pins com ilustrações à mão, etc., para além da parte de ilustração e estampagem de t-shirts e outras peças de roupa. Neste campo teremos peças pintadas à mão, na continuação da ideia do único e exclusivo, mas também iremos recorrer à serigrafia, sempre com edições muito limitadas.


      Fotografia por Fábio Poço

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      Temas: robôs, Marco, action figures, electrónica

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