ETTs, lixeiras a céu aberto

Por Rui Marçal


 

A primeira vez que fui à ManPower, junto à Praça José Fontana, em Lisboa, encontrei na vitrina uns 20 anúncios. Confesso a minha perplexidade: num país com taxas de desemprego brutais, haver 20 anúncios de emprego em cada agência de ETT parece contraditório, ainda que não se tratassem de empregos de sonho — era quanto baste. A remuneração era o de sempre e as funções também. Decidi entrar para responder a alguns anúncios.


Todos os empregados estavam numa única divisão, de frente para a porta. A minha experiência foi inacreditável. Quando entrei, todos desviaram o olhar e como não havia recepcionista acabei por roubar alguns minutos a alguém que não me queria atender mas que teve de se levantar para que a situação não se arrastasse. Depois de uma apresentação pessoal (que não mereciam), disse que queria concorrer aos anúncios da vitrina. A rapariga que me atendeu nem me deixou acabar. “Os anúncios expostos não estão em aberto.” Ainda perguntei: “Mas quais é que não estão abertos?”. Ao que ela me diz: “Todos." Nenhum dos 20 anúncios para empregos da ManPower, expostos para que todos os lessem, estavam “em aberto”. “Nenhum deles?”, "Não". Antes de ir embora, até questioneii: “Mas se não estão em aberto, o que estão ali a fazer os anúncios?”. A empregada em questão, sem qualquer vergonha, responde: “À espera que os tirem."

Procurei outras ETTs, na esperança de encontrar melhor. Estava enganado. Quando me desloquei ao Grupo Nett, o sistema era exactamente o mesmo. Uns quantos anúncios à entrada, alguns até apetecíveis para o actual contexto. Quando quis concorrer não pude, porque, segundo quem me atendeu, os anúncios não estavam “activos”. Não desisti e perguntei se realmente existiam e o que a empregada me disse foi: "Existem, mas não estão activos." Para estas empresas, os desempregados não existem. Existem pessoas inactivas que lhes roubam tempo quando vão lá pedinchar emprego. Decidi ler código de conduta que o Grupo Nett disponibiliza no site. Se atendermos à secção que fala dos valores (confiança, credibilidade, eficiência, profissionalismo e qualidade), vemos que o trabalhador não aparece referido uma única vez e que os clientes aparecem em todos. Quem visitar o Facebook do Grupo Nett encontrará “oportunidades de carreira”, dizem eles. Nem pensar. As carreiras desapareceram. Ainda visitei mais ETTs (Multipessoal, Randstad, etc) e é quase tudo igual.

Quis compreender qual era a lógica destas empresas com os trabalhadores. Falei com o Miguel, 28 anos, engenheiro que trabalha para a Nokia através da Upgrade (uma espécie de filial da Multipessoal), que faz um trabalho altamente especializado na área das telecomunicações. No anúncio a que respondeu exigia-se o 12.º ano, mas estudos superiores de engenharia seriam “uma mais-valia”. O Miguel garante que nenhum dos seus colegas se fica pelo 12.º ano, são todos, “no mínimo, licenciados”. Foi contratado há menos de um ano. Ele e outras centenas de colegas ganham à volta de 700 euros. Este valor é justificado com o falso requisito mínimo. Além de tudo isto, garante que ali os engenheiros são espremidos ao máximo. Fazem horas extra não-remuneradas (nos últimos três meses foram entre uma e duas horas por dia), não têm qualquer garantia de progressão e sabem de antemão que nunca ficarão no quadro da empresa, por isso, “tanto dá ser o melhor”. Trabalham da mesma forma que os estagiários da Nokia, que são melhor remunerados e a ETT ainda lhes fica com 25, 30 por cento do salário.

Aos 23 anos a Ana foi para um call-center. Já trabalhou para muitas empresas, sempre como call-center especializada. Hoje trabalha para um conhecido banco. Faria sentido que o contrato de trabalho a ligasse ao banco, certo? Errado. O contrato da Ana está numa empresa que se chama Emprecedeque é a ETT da Teleperformance, empresa que por sua vez vende o serviço ao banco. Esta brincadeira garante que a margem que as ETTs ganham ao colocar trabalhadores nas empresas fica no mesmíssimo sítio. A Teleperformance recebe o negócio, mas “como são duas empresas juntas, até fisicamente, não sabes como viaja o dinheiro”. Teve de assinar uma declaração de confidencialidade porque é “um cargo de grande responsabilidade”. O trabalho que a Ana faz é qualificado, idêntico ao que é feito ao balcão de um banco, mas em vez de receber um ordenado similar aos das colegas, recebe 2,80 euros à hora. Apesar disso, tem de dizer sempre aos clientes que está na sede, que ela nem sabe onde fica. É um trabalho “super-instável” porque há dias em que a chamam para trabalhar oito horas e outros em que só trabalha três, consoante as necessidades. O contrato que assinou é “uma cena engraçada”, porque “não diz horas, mas diz que aceito ser movida para outra campanha e ser adaptada às necessidades da empresa”. Já participou em várias “campanhas”, isto é, assegurou o apoio ao telefone e backoffice de diferentes marcas (bancos, seguros e outras empresas). Como se isto não bastasse, depois de dois anos de trabalho, caso não passem a efectivos, “mandam-te seis meses para casa e depois voltam a contratar-te no mesmo registo, com as mesmas condições”. Este vai-e-vem pode acontece três vezes e não mais porque é o máximo que a lei estipula. Mas como passar a contrato efectivo? Cunhas, influências, conhecimentos lá dentro. Pode estar relacionado com o mérito pessoal de cada um, mas o factor C é importante. A Ana garante que há pessoas que se adaptaram a esta vida, ou porque “estamos a crise” ou porque “não estamos feitos para ganhar mais dinheiro”. Mas as festas de Natal da empresa são à grande e é lá que o director da Teleperformance se congratula porque o negócio tem feito “milhões por ano”.

Continuei curioso por compreender como trabalham os recrutadores das batidas ETTs e dos clientes. A Carmen é uma das recrutadoras da PT Contact e gere cerca de 20 “recursos”. Trabalha directamente com a Multipessoal, TempoTeam e Talenter. A margem de lucro destas empresas depende muito do serviço, mas com os call-centers é mínima. Dentro da PT-Contact “todos são precários”, incluindo ela. O contrato de recrutadora é muito semelhante aos dos profissionais que contrata, mas acaba por não ser muito mau porque é um pouco acima do salário mínimo, já com os subsídios de férias em duodécimos e, portanto, sem direito a férias. Ultimamente, tem encontrado um pouco de tudo, desde “pessoas que ficam aliviadas quando são contratadas”, a pessoas com mais de 30 anos que “nunca fizeram outra coisa na vida senão trabalho temporário”. Para ela, nos tempos que correm a escolha é vasta e prefere pessoas com experiência em call-center. Já nem pergunta se a pessoa está confortável com a função.

Para a Liliana a realidade é outra. Ela trabalhou como consultora numa ETT de excepção que contratava para grandes empresas nacionais e internacionais. Já viu casos de sucesso, em que as pessoas acabam por ser indispensáveis para as empresas. Para ela, o trabalho temporário é um “vínculo que permite ao trabalhador um total empenho”. Mas também conhece os exemplos opostos e as maroscas que são feitas no circuito. Sabe que há empresas que alteram a fundamentação da contratação de dois em dois anos (confirmando assim o depoimento da Ana) para manter a pessoa a fazer o mesmo trabalho precário até ao limite. Nessas empresas que recrutam em massa, muitas vezes um consultor chega a gerir 700 colaboradores. Na verdade, não há uma margem definida para os lucros de uma ETT. Depende muito dos serviços, dos colaboradores e dos “clientes”. Cada ETT aplica um factor a cada situação e dependendo deste chegaremos à margem de lucro. Na verdade, alguns serviços ficam a preço de custo. De que serve, então, a uma ETT ter tanto trabalho e vender “recursos” a preço de custo? Liquidez. Por exemplo, trabalhar com a PT é altamente vantajoso, sobretudo se tivermos em conta possíveis empréstimos bancários.

Tanto o Nuno como a Ana não têm dúvidas, isto é um aproveitamento dos recursos que temos porque o país oferece “a mão-de-obra mais barata com os maiores skills”. É a realidade destas empresas. Quando falamos de ETTs falamos de empresas que, como qualquer outra, procuram o lucro. Como todos os outros, tanto o Nuno como a  Ana são “recursos”. Na Randstad dizia-me uma funcionária que, para cada 30 propostas, recebem 250 pedidos, por isso o que não falta são Nunos e Anas. Há muitas coisas a mudar aqui, mas desenganemo-nos: ganhar três euros à hora, sem salário fixo, sem horas extra, sem seguro de saúde e sem estabilidade, já para não falar de que não se trabalha para o que se estudou, não é precariedade — é pobreza.


Todos os nomes utilizados são fictícios.

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