Fui tomar chá com o assassino do Khadafi

Por Aris Roussinos


O autor (no canto direito), ao lado do assassino de Khadafi (o gajo careca).


O dia em que conheci o assassino do Khadafi começou de uma maneira louca. Enganei-me no caminho e fui de carro até nenhures, mesmo no meio de uma rixa entre duas milícias tribais que durava há dias. Sentia os tiros a voar por cima do carro enquanto desacelerava, pensei mesmo que ia morrer. Fiquei surpreendido por isso não ter acontecido.

De volta ao hotel, fui logo ao frigorífico para beber uma daquelas cervejas líbias sem álcool (são horríveis). “Ei”, gritou-me um rebelde careca espalhado no sofá, "lembras-te de mim? Conheço-te de Sirte.” Pedi desculpa e disse-lhe que nunca tinha estado em Sirte. Ele ficou doido e insistiu. “Conheço-te de Sirte, éramos amigos. Tu conheces-me, fui eu quem matou o Khadafi.” Olhei para ele e depois para a arma na mesa e disse: “Ah sim, claro! Qual é mesmo o teu nome?” Ahmed Ali Muhammad al-Swayib tem 35 anos e é um filho de Bengasi. Os seus pais são de Misrata — a cidade mais afectada pela guerra, para onde Ahmed foi para lutar, como muitos, mas, ao contrário da maioria, não voltou a correr para a paz relativa de Bengasi.



Percebi que realmente já tinha visto este gajo antes. Careca, cara de lunático, um olho meio torto. O Ahmed era a personagem principal de um vídeo elaborado minutos depois do assassinato do Khadafi. Nesse vídeo, um grupo de rebeldes cercava Ahmed enquanto lhe beijava a cabeça. Coisas que se ouviam: “estava lá quando ele o matou” ou “há bocado, vi este tipo matar o Khadafi com as suas próprias mãos”. O Ahmed sorria timidamente e depois erguia as suas armas — os verdadeiros instrumentos que sintetizam a justiça líbia. Olhei para a arma na mesa e para a outra, à cinta do Ahmed — as mesmas do vídeo. Mesmo num país cheio de armas, estas são muito raras. Fabricadas pela FN Herstal, da Bélgica, só 360 é que foram enviadas para a Líbia, todas destinadas a uma brigada de elite comandada por um dos filhos de Khadafi e aos seguranças pessoais do ditador. Conclusão: só se encontrava este tipo de armas perto do próprio Khadafi. Ou seja, tudo parecia bater certo e decidi sentar-me com o gajo para conversarmos um pouco.

Mas havia um problema: o Ahmed não me queria dar uma entrevista. A sua situação era complicada. Ele estava num hotel de três estrelas que não conseguia pagar, em Trípoli — era outra pessoa que lhe pagava as contas —, e ambos sabíamos que aparecer publicamente como "o assassino de Khadafi" seria um bilhete só de ida para Haia. "Claro", disse eu, "nada de entrevista". Foi aí que liguei o gravador do meu Blackberry, pousando-o em cima da mesa, perto dele, enquanto falava com um amigo.

Muhammad Juma al-Shoshni, 25 anos, é de al-Khoms e afirma ter morto um dos filhos do Khadafi, o Mutassim. Nas suas palavras: “Éramos quatro pessoas a observar o quintal de uma casa, depois do combate. O pessoal do Khadafi chegou e começou a disparar contra nós. Matámos dois deles e o terceiro disse que nos contava um segredo se o deixássemos viver." O segredo era a localização do Mutassim.

"O Mutassim começou a disparar quando vasculhámos o quintal. Acertámos-lhe — só de raspão — na garganta. Foi aí que o gajo se rendeu. Levámo-lo até um pequeno quartel e perguntámos-lhe por que estava a matar o povo líbio. Ele começou a discutir connosco e deixou-me furioso. Disse-lhe: 'O povo líbio nunca te vai perdoar, mas talvez Deus tenha piedade de ti.'. Ele sorriu e começou a mexer no lenço que tinha ao pescoço. Coloquei as minhas mãos sobre a sua cabeça e expliquei-lhe: 'Este é o Alcorão, a última e a primeira coisas.' Ele continuou a sorrir e a mexer naquela coisa ao pescoço. Foi aí que o matámos. Depois pegámos naquele lenço e queimámo-lo.” O relato é do Muhammad.


Muhammad Juma al-Shoshni (vestido de ganga), o homem que afirma ter morto Mutassim, um dos filhos de Khadafi.

Tudo isto estava a ser altamente, mas o que eu queria mesmo era o Ahmed. Queria filmá-lo. O meu motorista estava a conversar com ele em árabe. Dizia-lhe “Deus é grande” em alguns momentos propícios e traduzia-me pedaços da conversa. “Sabes quais foram as últimas palavras do Khadafi? Ele disse: 'Isso é proibido, sou teu pai'. E o gajo disparou!” Riu-se, satisfeito. Mas, sempre que lhe perguntava se o Ahmed se deixaria ser filmado, ele abanava a cabeça, chateado. O Muhammad piscou-me o olho e sussurrou que conseguiria arranjar isso. “O Ahmed é um gajo fixe, mas um pouco louco. Não te preocupes, vou tratar disso. Diz-me só uma coisa: quanto custa um iPad no teu país?”

No dia seguinte, o Muhammad chamou-me a um canto do lobby do hotel. “Vais conseguir a tua reportagem.” Ele foi para o quarto para convencer o Ahmed, enquanto o cameraman arrumava o tripé a um canto da sala. Alguns minutos depois, as portas do elevador abriram-se e o Ahmed saiu, com a sua Kalashnikov em punho, como um Scarface vesgo e líbio. Veio na minha direcção e espetou-me a arma no peito. Os recepcionistas do hotel baixaram-se atrás do balcão. Muhammad saiu do elevador atrás dele, branco, a olhar para o chão. Os segundos que se seguiram passaram muito devagar. “Não matei aquele nojento por dinheiro”, afirmou, calmamente, Ahmed. “Matei-o por Deus e pela Líbia, entendes?” Eu tinha percebido. A voz dele estava embargada. “Vou matar o primeiro otário que me tentar pagar por isso. Vou matar esse gajo com isto". Desculpei-me pelo aparente mal-entendido. “Foi um engano”, disse suavemente. “Pergunta ao Muhammad.” O Muhammad continuou a olhar, constrangido, para o chão. 
Ahmed baixou a arma e o pessoal do hotel levantou-se de atrás do balcão. E todos nós acabámos sentados a tomar chá, a beber sumo e a fumar cigarros. Uma hora depois, quando eles se foram embora, regressei ao meu quarto e vomitei.


Ahmed Ali Muhammad al-Swayib, o líbio que afirma ter morto o Khadafi.

Durante o chá, o Ahmed começou a chorar e desculpou-se por me ter ameaçado. “Por vezes, fico muito emotivo. Está tudo a ser muito difícil. Nem sempre me consigo controlar.” Garanti-lhe que entendia como ele se sentia e que não precisava de se desculpar. Eu estava em Londres quando o Khadafi foi morto e, sempre que os comentadores se horrorizavam com a brutalidade do assassínio, eu só encolhia os ombros. Quem quer que tivesse feito isso, imaginava eu, era, provavelmente, um puto qualquer de Misrata que sofria de stress pós-traumático depois de ter ido para a guerra sem qualquer tipo de treino. Alguém que viu a sua cidade a ser destruída, alguém que viu a sua família a pôr-se a monte, alguém que viu os seus melhores amigos serem mortos à sua frente. Era um final líbio para uma história líbia, com uma justiça final brutal e, muito certamente, merecida.

Mas a verdade, se é que a história do Ahmed pode ser assim considerada, era ligeiramente diferente. O Ahmed tinha o dobro da idade da maioria dos combatentes de Misrata, era um indeciso antes da guerra e tinha fama, mesmo entre os seus camaradas, de sofrer mudanças de humor perigosas. Talvez tenha morto o Khadafi, talvez não. As pessoas acreditavam que sim. Julgavam que ele estava no lugar certo à hora certa, com aquelas armas raras dos guarda-costas do ditador para o provar. Eu tinha sofrido (na primeira pessoa) a raiva repentina e o choro, igualmente inesperado, deste herói improvável. Mas, se tivesse de apostar em alguém que conseguiria disparar contra um prisioneiro desarmado, apostaria no Ahmed.

No dia em que saiu do hotel, ele chamou-me à parte e disse, baixinho, ao meu ouvido: “Não confies no Muhammad. Ele é um mentiroso. Ele não matou o Mutassim, só quer dinheiro. Só eu é que sou o assassino.” Parecia dizer-me isto mais com tristeza do que com orgulho.

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