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      Música: Cat Power

      November 13, 2012

      Por Miguel Arsénio

      Jornalista


      Sun
      Matador / Popstock
      8/10

      Não foi a sorte que atirou a frase “You Are Cat Power Free” para o alto da capa de You Are Free. Ainda que o esquema bicolor possa insinuar que aquela era apenas uma forma estilizada de apresentar o título do álbum e da sua autora, a frase é demasiado reveladora para passar despercebida: “You Are Cat Power Free”. Ou seja, estávamos livres do fardo que Chan Marshall partilhava aos poucos através das canções tristes pertencentes a discos como Dear Sir ou Moon Pix. Estávamos também a salvo das situações embaraçosas em que Chan Marshall encalhava quando, em concerto, revisitava o tal reportório amargurado. Mas o aviso está lá: escancarado no título e na figura que surge de costas voltadas para o seu público e pronta para perder-se no meio daquelas árvores. You Are Free é um longo fade out da primeira Cat Power  uma songwriter assombrada e incapaz de conviver consigo própria. Não a culpo.

      Quando a encontramos no filme minimalista Speaking for Trees, já surge por vezes desfocada e dissimulada nas cores daquele mosaico florestal. A “nossa” Cat Power tinha desaparecido e com ela levara as canções dolorosamente pessoais (que ninguém gostaria de recuperar noite após noite). A figura que voltou de luvas douradas ao pescoço, com The Greatest (2006), assumia o mesmo nome, mas é quase incomparável à tal que se perdeu algures em You Are Free (disco cheio de névoa, por acaso).

      Também Joni Mitchell e Laura Nyro, grandes senhoras da canção e guias incontornáveis de Cat Power, decidiram a certa altura (e ainda perto do auge) tomar direcções que podiam alienar o seu público, assim como atrair a má-língua da crítica. Cat Power entendeu de igual modo que não seria saudável ficar para sempre aprisionada nos sapatos do ícone indie que encobre o seu ânimo (e o das pessoas) como duas nuvens cinzentas encobrem o sol. Talvez seja um pouco por isso que o novo disco se chama simplesmente Sun, e também porque existem poucos símbolos que representem tão bem a renovação como o Sol. É verdade que temos dois capítulos entre You Are Free e Sun, mas The Greatest sofre demasiado com a sua falta de inspiração e Jukebox, além de fraquinho, não é muito mais do que um interlúdio preenchido por uma Cat Power em modo de diva a experimentar diferentes fatos-canção.

      Sun, por sua vez, volta a ser um disco substancial de Cat Power, com tudo o que isso tem de entusiasmante e capaz de estimular leituras (reparem nos hieróglifos dourados estampados na contracapa). O que interessa não é tanto encontrar marcas do desgosto amoroso nas canções de Sun, ou explorar esse lado mais cor-de-rosa da vida de Chan Marshall, mas sim identificar por aqui um gosto genuíno por fazer canções, que era cada vez menor neste percurso. Sun distingue-se precisamente pela maneira descomplexada como aproveita fórmulas pop muito mais feitas para divertir do que para deprimir.

      Não é que isso seja novidade (as esporádicas “I’ve Been Thinking”, dos Handsome Boy Modeling School, e “American Flag”, de Moon Pix, já colocavam a voz de Marshall sobre loops viciantes), mas Sun é o primeiro álbum de Cat Power realmente comprometido em fazer dançar com recurso a sintetizadores, refrões tão sensuais como duas pernas cruzadas e beats que podiam partir de um Timbaland indie. Nesse aspecto, é um disco que arruma com qualquer Florence & The Machine surgida nestes últimos anos. Da mesma maneira que era porreiro amarrar a burra e cultivar a neura ao som de “Say”, “Colors and the Kids” ou “Fool”, agora é tempo de aceitar o clima mais optimista e curtir “Ruin”, “3,6,9” e “Silent Machine”, sem fazer beicinho. Seja como for, Sun é o melhor álbum de Cat Power desde You Are Free e eu estou bastante feliz por ela.

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      Temas: Cat Power, palcoprincipal, Miguel Arsénio, Sun, Matador

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