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      Música: okamotonoriaki

      January 18, 2013

      Por Miguel Arsénio

      Jornalista


      A Little Planet
      Mü-nest
      8/10


      Os japoneses estão em paz com a sua rotina ou, pelo menos, muito mais do que uma série de povos ocidentais. Fazendo uma revisão das canções inspiradas pelos dias de trabalho, deste lado do mundo, encontramos toda uma variedade de letras que descrevem a segunda-feira como um dia maníaco ou a restante semana como um caos absoluto. Até “Friday I’m in Love”, dos Cure, tem a cortesia de reservar um dia para a paixão, mas todo aquele ritmo apressado da canção dá a ideia de que a semana passa sempre a correr.

      É bem provável que a correria seja a mesma (ou até pior) para os japoneses. Contudo, eles conseguem aproveitar o estilo de vida sistemático para focar os detalhes e depois — mediante a inspiração de cada um — traduzir isso em arte. Não é por acaso que um dos mais célebres exploradores da repetição e do hábito, no cinema, era japonês dos pés à cabeça (falo, é claro, do mestre Yasujiro Ozu).

      Igualmente afeiçoada a essas partes que formam o grande quadro da vida, uma geração de músicos japoneses encontrou na electro-acústica a sua forma de enaltecer os pequenos símbolos e revelações da rotina. Portanto, onde nós, ocidentais, vemos apenas um bule de chá a soltar vapor, os japoneses encontram um monumento capaz de levar a um grande recital de piano nostálgico. Isto dito assim deixa no ar a ameaça de uma boa dose de música chata, mas, okamotonoriaki, músico e artista visual, dá a volta a isso neste seu segundo álbum, A Little Planet, que, mesmo partindo da electro-acústica, acaba em paragens tão imprevisíveis como empolgantes (batidas quase Kanye West e um cheirinho de samba até). 

      Se Four Tet tivesse seguido até ao fim algumas das vias de Everything Ecstatic, não ficaria longe de certos temas de A Little Planet. Escutadas atentamente, “Call Me” relembra que Pluramon fez alguma da melhor dream pop da década passada, enquanto “Newspaper Songs” mostra o que pode ser uma canção de miragens algures entre This Mortal Coil e o Panda Bear dos últimos dez minutos de Person Pitch. A partir do momento em que okamotonoriaki obriga a convocar todos estes nomes, já estamos em terreno altamente positivo. Se a missão era criar uma atmosfera musical para ficar em casa abraçado em conchinha, então A Little Planet é muito capaz de medir forças com o último dos Sigur Rós ou outro disco caseirinho dessa envergadura.

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      Temas: A Little Planet, Miguel Arsénio, palcoprincipal, Mü-nest, okamotonoriaki

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