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      Não faças estas coisas depois de adulto

      January 2, 2013

      Por John McDonnell



      Tenho um amigo que me costuma perguntar, com uma frequência preocupante, se vi o último episódio do South Park. "Foi tãaao fixe!" Ao que eu respondo sempre: “Entrei na fase adulta da minha vida há já algum tempo, estás à vontade para te juntares a mim.” Tentem perceber: há certas coisas que deixam de ser aceitáveis a partir do momento em que ultrapassas os 18 anos, a altura da vida em que as outras pessoas te passam a considerar um adulto. Aqui fica uma lista dessas coisas.

      COMER SOBREMESA EM CASA
      A sobremesa é algo que os adultos usam para subornar as crianças. Para as obrigar a comer vegetais, por exemplo. Por isso, o que raio é que estás a fazer em casa a uma terça à tarde, a botar abaixo um iogurte aromatizado, enquanto estás colado à televisão? As sobremesas só são aceitáveis na vida adulta se estiveres num encontro com a tua novíssima namorada. Isso, ou se sofreres de diabetes tipo um.

      PÔR AÇÚCAR NO CHÁ
      Falando em coisas doces: és assim tão criança que nem consegues consumir algo a menos que esse algo esteja a boiar em açúcar? Também precisas que a tua mãe esconda os medicamentos numa bananinha esmagada com canela?



      TER UMA TELEVISÃO NO QUARTO
      Há outro sítio em que podes ter uma televisão no mesmo espaço em que tens a cama. Esse local chama-se "hospício". Ver televisão na cama é para pessoas que estão a passar o tempo como se a sua vida se estivesse, lentamente, a esvair. Ou para adolescentes que curtem bater uma, enquanto vêem a Iva Pamela a apresentar programas inócuos. Se não és nenhuma destas pessoas, não deverias ter um destes aparelhos no sítio em que dormes. Faz-te parecer um caramelo preguiçoso, aquele tipo de gajo que apara as unhas dos pés com a boca se o corta-unhas não estiver à mão. Ou o pessoal que vai ao supermercado de pijama. Aposto a minha vida que o James Corden tem uma televisão no quarto. E, provavelmente, vários ecrãs em cada parede. Mais ecrãs que o café do bairro, onde toda a gente vê os jogos de futebol. A minha dica para quando tiveres dilemas difíceis é: “O que faria o James Corden?” Depois, faço o oposto.

      FUMAR
      Um cigarro é, essencialmente, a versão adulta de uma fralda. Ao fumares, estás a contar ao mundo que és completamente incapaz de controlar as tuas necessidades básicas. É um pedido de ajuda. Arrastas-te para fora do escritório, para o frio, uma vez por cada hora, diariamente, a descolorar os dentes e a putrificar os pulmões. E porquê? Só porque uma pessoa qualquer, por quem tiveste um fraquinho aos 14 anos (e que, agora, é uma criatura obesa com três filhos) te ofereceu uma passa atrás do ginásio do liceu. Desde então, tens sido demasiado fraco para suprimir essa urgência quimicamente induzida. Fumar erva é um pouco mais aceitável (desde que seja praticado com dois ou mais amigos e sem o Bob Marley à mistura) porque é, simplesmente, divertido.



      USAR DISFARCES
      Não frequentei a escola pública, por isso não compreendo isto. Mas usar, em pleno dia e no meio da rua, fantasias de animais que cobrem o corpo inteiro deveria ser ilegal para maiores de nove anos.



      VENERAR GENTE FAMOSA
      Lembro-me da primeira vez que o Unas me mandou props no Curto Circuito. A minha vida atingiu o seu pico. Finalmente, alguém famoso tinha-me reconhecido. Em minha defesa, tinha 12 anos. Agora que cresci, percebo que é rídiculo venerar gente famosa. Na verdade, até evito conhecer pessoas famosas. A minha resposta fabricada, para quando me apresentam um famoso convencido numa festa qualquer é: “Ei, foste tu que desempenhaste o papel da Paula Neves, no Anjo Selvagem, não foste?” Isto funciona bastante bem, especialmente se a pessoa em questão for uma mulher.

      SENTARES-TE ATRÁS DO TEU AMIGO NO AUTOCARRO
      Vejo isto imensas vezes: três ou quatro miúdos entram num autocarro vazio e cada um deles senta-se em lugares separados, em filas diferentes. No início, eles estão a rir-se e a mandar piadas, sem terem noção do que está prestes a acontecer. O autocarro vai-se enchendo e eles ficam rodeados por estranhos. Em vez de terem um amigo do lado, têm um pedreiro flatulento, que cheira como se tomasse banho em sumo de kebab todas as manhãs e todas as noites (três vezes aos domingos). Por que alma caridosa é que não te sentas ao lado do teu amigo no autocarro? Estás preocupado que alguém pense que são gays? Só se tiveres 14 anos.



      GOSTAR DE GRAFFITI
      No outro dia, um amigo meu que tem 20 e poucos anos disse-me: “Há uma cena marada naquela ponte ali.” O gajo estava a referir-se a uma frase grafitada, que, provavelmente, dizia algo parvo como “HEMORRÓIDAS”. Comecei a olhar no horizonte, a sentir um vazio, como se fosse um reformado à beira da demência, quando tudo o que já me foi familiar deixa, inexplicavelmente, de fazer sentido. Tenho a certeza de que quando era um puto errático, com um lápis na mão, isto parecer-me-ia um quadro do Gustave Caillebotte. Mas, a minha mente amadureceu. Ninguém que se considera um adulto pode conseguir apreciar graffiti.

      MENÇÕES HONROSAS

      • Acordar ao meio-dia, ou mais tarde ainda;
      • Chateares-te por não receberes de volta aquela quantia igual ou inferior a cinco euros que emprestaste a um amigo;
      • Escrever "à", em vez de "há";
      • Perguntar se "gostas-te", em vez de "gostaste";
      • Ter um fraquinho pela tua prima;
      • Fazer listas de coisas de que não gostas;
      • Ouvir hip-hop britânico;
      • Coser emblemas na roupa;
      • Beijar o teu pai nos lábios;
      • Ver telenovelas;
      • Não dividir a conta em partes iguais, quando vais jantar fora em grupo;
      • Usar um chapéu (a menos que estejas a ficar careca);
      • Mentir sobre teres (ou não) sexo.

         

      Ilustrações por Cei Willis

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      Temas: Cei Willis, crescer, fumar, South Park, ser imaturo, graffiti, venerar pessoas, andar de autocarro, pessoas malcheirosas, televisão no quarto, adulto imaturo, John McDonnell

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