O Lance Armstrong afinal andava a cavalo

Por Ricardo Alves



Numa confissão que surpreendeu absolutamente ninguém, o deus das duas rodas Lance Armstrong admitiu, perante a inquisidora-mor Oprah Winfrey, que sim, que usou substâncias dopantes durante a sua carreira desportiva. Todo um planeta susteve a respiração durante uma fracção de segundo enquanto tentava perceber o que havia de chocante neste factóide. Retiram-se daqui duas coisas: a) a Oprah é um superpoder no corpo de uma funcionária administrativa de Francelos e b) com apenas um colhão, o Lance tem mais tomates do que qualquer um de vocês, gentis leitores.


O UCI já tinha feito de tudo para que Armstrong admitisse o crime de mandar umas cenas. Até chegaram a negar todos os títulos que conquistou no Tour, declarando (sem qualquer noção do ridículo) que não houve nenhum vencedor entre 1999 e 2005. Diz-se que o organismo regente do ciclismo já teria subcontratado uma cave repleta de artistas digitais coreanos para remover Lance Armstrong de todas as filmagens e fotografias desses sete anos de Tour. Não vamos chegar a ver estas imagens horripilantes de uma bicicleta a pedalar sozinha mato francês acima porque o atleta, apesar de ter mantido a poker face em todas as barras de tribunal a que foi arrastado, decidiu vir a limpo no equivalente americano do Portugal no Coração. É certo que o Malato deles é mais influente do que o nosso, mas ainda assim há que ter respeito por tal demonstração de desprezo pela santidade da lei.

O motivo nem é tão misterioso: com as multas que terá de vir a pagar e com o saque aos prémios que recebeu, Armstrong precisa de dar o cu figurativo para tirar o cu literal da bancarrota. Ainda assim, é um selling out com mais estilo do que o do Michael Phelps, que após ser denunciado como um charrado da pior espécie veio a público pedir desculpa com um ar de puto que foi apanhado pela mãe a masturbar-se. A sério que ainda hoje me custa lembrar: alguém que estava a ser canonizado na altura como o maior atleta do planeta não aproveitou a oportunidade para dar fé que “ei, pessoal, fumar esse é divertido e não faz mal nenhum, fodam-se”.

No meio de tudo isto, o verdadeiro choque é o de como uma questiúncula assim parece recolher tanto interesse. Naturalíssimo, supõe-se, para quem nos vende destaque a tretas destas quando há soldados a morrer em nome dos interesses de exploração de minério franceses no Mali, ou a descida de um smog letal sobre Pequim que as autoridades garantem se tratar apenas de nevoeiro particularmente espesso. E, afinal, o atraso brasileiro na adopção do Acordo Ortográfico gera mais raiva do que o limbo burocrático a que cidadãos portugueses estão sujeitos naquele país. Carry on, amigos.

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