Milhões de Festa


O Milhões nem sempre teve piscina

Por Bruno Correia

A apenas alguns dias da edição de 2013 do Milhões de Festa, é altura de parar um bocadinho, de virar os olhos para o passado e de recordar algumas coisas que mudaram desde 2007. É tudo muito bonito, mas há seis anos — quando o MdF não era mais do meia dúzia de homens suados numa casa ocupada — nenhum de vocês queria saber deste festival. Snobes.



Nenhuma casa ocupada está completa sem um carrinho de compras roubado, até porque isso dá aquela vibe hobo/ crackhouse. Actualmente, a maior parte da malta acima pode ser encontrada nas zonas VIP ou de imprensa dos festivais, a queixar-se da falta de condições, falta de sombra, escassez de bebidas ou de salgados, Mas, por alturas do MdF 2007, estes gajos sentavam-se em qualquer lado e bebiam cerveja de um barril (já la vamos chegar).

Para os que se queixam das casas de banho em festivais, pensem nisto: em 2007 havia uma e a porta não trancava, por mais que a foto seguinte possa indicar o contrário e, se bem me lembro, o WC era comum a ambos os sexos. Este ano há uma petição a favor do topless na piscina, mas em Braga ninguem achou piada à casa de banho unissexo. Tsc tsc. Para marcar um ponto um bocado mais sério, sou completamente a favor da dita petição. Aliás, até acho que a deviam enviar para a Câmara de Barcelos! Desde 2007 a lutar pela igualdade entre os sexos.


O lenço era para armazenar o cheiro para mais tarde. Seis anos depois ainda cheira a 2007.



Mas não é so desvantagens! O que faltava em condições sanitárias era compensado em anti-conformismo. Esta foto tornar-se-ia, posteriormente, na imagem de marca de um icónico movimento que viria a abalar as fundações musicais do país (para não dizer do mundo).



Resumindo, não se queixem quando entrarem numa destas (ver em cima). Além de terem a opção de escolher qual querem utilizar, se (por alguma razão) escolherem a mais suja (?) esse WC estará, garanto-vos eu, muito mais limpo do que a alternativa em 2007. No máximo, podem queixar-se de não ter um CD dentro da sanita, mas nada vos impede de levarem um de alguma banda que não curtam, mijar nele e tirar uma foto imortal. Já agora, dica útil: não deixem cair a câmara na sanita porque quero fazer uma exposição do vosso trabalho árduo nos WCs do Milhões.

Por falar em queixas, toda a gente concorda que é chato estar meia-hora à espera de uma bebida nas horas de ponta do festival. Lembram-se de eu falar de um barril?


Isto era o bar em 2007.


Ok, não era o ÚNICO bar, havia outro no andar de baixo, mas se bem me recordo, havia um frigorífico pequeno e a meio da tarde as únicas bebidas disponíveis estavam quentes. E tambem não era literalmente este barril, mas era em tudo semelhante e cheio de gelo e cerveja. Sim, não é o melhor sistema do mundo: foi o que se arranjou na altura e, dentro dos limites, funcionou. No entanto, e por mais que toda a gente tenha sido extremamente feliz com este barril, concordou-se que talvez não fosse a forma mais adequada de servir bebidas num festival. Por isso, a partir daí, optou-se por este sistema:



Dentro destas cabaninhas metálicas, podem encontrar pessoas que, em troca de uma senha previamente comprada, fornecem as mais variadas bebidas. Não é o método mais refinado do mundo, mas vence o barril. Este sistema tem várias vantagens, tais como maior número de bebidas disponíveis, melhor refrigeração, ausência da experiência desagradável que é enfiar uma mão num barril cheio de gelo e água, entre várias outras.

E já agora, aquilo ali ao fundo na foto de cima é um palco, o VICE (sim, como o site onde estão a ler isto agora). A esse, ainda se juntam, hoje em dia, mais três palcos: o Milhões, o Taina e o Piscina.



Novamente de volta ao passado: isto era o palco em 2007. O que se perdeu em motas ganhou-se em… bem, em tudo. Aquela poça de um líquido duvidoso era o mais aproximado que havia de uma piscina. A electrocussão foi um (mas não o único) dos perigos em 2007. Felizmente, toda a gente sobreviveu com danos menores, grande parte deles não físicos.



No entanto, a ausência de piscina não foi, de maneira alguma, razão para o público não andar de calções. Curiosamente, a mesma pessoa aqui retratada viria a correr completamente nu pelo actual recinto do festival uns anos mais tarde, mas isso é uma historia para outra altura. Ou para nunca.



Agora saltando para a parte técnica. Havia concertos e, como tal, isso exigia toda uma logística. A mesa de som era muito mais pequena (e um bocado foleira), mas chegou. Por outro lado, o técnico de som continua a ter aproximadamente o mesmo tamanho e a ser fantástico. Se o virem dêem-lhe um abraço: é extremamente gratificante para ele e para vocês é, provavelmente, o mais perto que estarão de abraçar um urso sem correr grandes riscos. Tipo, os que estou a correr ao escrever isto, mas vamos seguir.

Para quem não esteve lá em 2007, fiquem a saber que não era tudo tão mau como parece. No meio disto tudo havia um espaço para um backstage, que tinha este aspecto:



Nesse backstage, também havia catering de luxo:



Pizza, pizza para toda a gente. Sempre. Não gostas de pizza? Azar. Em 2007, foi o que toda a gente comeu ao longo de dois dias, o que, por sua vez, tambem não terá contribuído positivamente para o estado da casa de banho: 40 gajos, 40 pizzas, uma casa de banho. Façam as contas.

Felizmente, hoje em dia se não gostarem das possibilidades no que toca à alimentação, podem sempre dar um salto a um dos locais sugeridos neste roteiro.



Se calhar já repararam nas paredes e no tecto completamente forrados a folhas de papel A4. Toda a gente sabe que não há nada mais seguro do que forrar um quarto de um edificio já por si com condições de segurança duvidosas (saídas de seguranças são para maricas) com folhas A4.

Quando este ano estiverem a ver DJ Quesadilla ou Riding Pânico, fiquem contentes por eles não terem morrido carbonizados no que, por algum milagre e contra todas as probabilidades, não se tornou em um inferno ardente. Por outro lado, ao longo dos anos algumas coisas pioraram. O exemplo mais dramático será, possivelmente, o cartaz.



Esta foi a melhor foto que encontrei (não me esforcei muito), mas ilustra bastante bem o tamanho do cartaz: era pequeno e simples. Dois dias, poucos concertos, tudo no mesmo espaço. Que fácil. Conhecia quase todas as bandas, conseguia ver tudo e não tinha de me deslocar muito (nada) entre cada concerto.



Agora olhem para esta merda. A sério? Tem tantas bandas que a fonte tem de ir sendo reduzida para caber tudo. Pior é eu não conhecer mais de metade. Pior ainda? São em vários palcos! E quatro dias? Sem contar com esta pré-festa. E com um bocadinho de jeito também há algo na terça. Como raio esperam que alguém se mantenha relativamente atento a isto?



No entanto, há coisas que não mudaram desde 2007. O espaço é maior, as condições também evoluíram um bocadinho. Mas tal como o nome do festival não mudou, o espírito continua o mesmo.


Fotografia por Miguel Refresco

Sim, o Milhões continua igual. A diferença é que tem mais gente, mais ar livre, mais bandas, mais bebidas (mais frescas) e mais casas de banho. Mas a ideia é a mesma. Se algum de vocês ainda tiver o bilhete de 2007, tragam-no e eu ofereço-vos um fino.

Mas não prometo nada (passatempo não oficial, limitado à quantidade disponível e à minha boa disposição).

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