O Relvas não apanhou porrada por pouco

Por Rui Marçal



A TVI aliou-se ao ISCTE-IUL para celebrar o seu 20.º aniversário com um ciclo de conferências sobre o futuro do Jornalismo. Um pouco antes de o ministro chegar, algum pessoal da organização começou a mandar sentar quem estava em pé. Enquanto esperava as propostas do ministro Relvas, contentei-me a assistir a um interessante debate que, entretanto, acabou por ser interrompido.

Do nada, ouvi uns gritos lá atrás e vi malta em pé com faixas e cartazes: tinha chegado o Miguel Relvas. Não posso dizer que não estava à espera disto: pôr o ministro que conduziu a sempre-não-finalizada privatização da RTP a falar sobre “o futuro do Jornalismo” numa universidade é um tiro no pé demasiado óbvio. Para que a festa da TVI não ficasse estragada, e apesar dos esforços, primeiro do pivô Pedro Pinto e depois de José Alberto Carvalho, Miguel Relvas acabou por não conseguir discursar como tinha planeado. Teve mesmo de se ir embora, como se estivesse a mais naquela "festa". Depois, ainda foi perseguido pelos estudantes até à saída do instituto.

Mas Relvas não escapou dos protestos com facilidade: o maior momento de aperto foi quando os seguranças se perderam pelos corredores e se enfiaram num beco sem saída. Os estudantes foram pelo outro lado e apanharam a comitiva mesmo de frente. Foi aí que se deram os empurrões, críticas e ofensas quanto baste. Eu estava lá e até fiz um vídeo com o meu telemóvel:




No final, os estudantes foram esperar o ministro à saída do ISCTE, mas o objectivo já tinha sido cumprido. E como conhecia alguns dos protestantes desde a pseudo-ocupação às cantinas do ISCTE (os mesmos que pediram a demissão a Pedro Passos Coelho), decidi conversar com o João e com a Laura, ambos estudantes do ISCTE e afectos ao movimento “Que se lixe a Troika”.


A Laura e o João, dois dos estudantes que se manifestaram hoje.

VICE: Como prepararam esta manifestação?
João:
Nós não tínhamos uma ideia bem definida. Quando soubemos que o ministro Relvas vinha falar ao ISCTE, decidimos arrancar. Tivemos um ou dois dias a preparar tudo isto: [precisávamos de saber], por exemplo, se seria preciso inscrevermo-nos na conferência, se teríamos alguma ideia, se conseguiríamos ter massa crítica para fazer algo deste tipo. [Nestas circunstâncias], percebemos que, com meia-dúzia de pessoas, podíamos era tentar falar com ele.

Fiquei com a ideia de que vocês eram uns 30, mas que participaram mais pessoas… Concordam?
Laura:
Sim, sim…
João: Havia dois grupos dentro da sala. No total, talvez fossemos uns 30.

E aquela perseguição?
Sim, à medida que ele ia abandonando [o edifício], a subir as escadas do auditório, havia mais pessoas a gritar e a pedir a sua demissão. Acho que isto nunca aconteceu numa universidade.

Mas aqueles pequenos confrontos a que assistimos no final não estavam planeados, certo?
Não foram bem confrontos. A segurança privada dele não tinha noção dos caminhos e perderam-se nas portas. Nós só fomos atrás dele. Ninguém o agrediu e nenhum dos seguranças nos agrediu a nós. Nem faria sentido. A nossa ideia foi a de o interpelar directamente.

E por que é que o seguiste até ao carro? Aí sabias que não ias conseguir falar com ele.
Mas nós não o impedimos de sair. Se tivéssemos de impedir algo seria a sua entrada.

Disseste-me que reuniste as pessoas numa hora. Sentes que as pessoas estão mais disponíveis para participar nestes protestos?
Sem dúvida. Fizemos alguns contactos sem nada muito preparado. Aliás, a ideia de irmos atrás dele surgiu naquele momento, mas muitas das pessoas já ocuparam a cantina do ISCTE e têm um historial de contestação. O que lhe dissemos era que ele não era bem-vindo.

Vamos ter mais cenas destas no futuro?
Laura: Sim, se qualquer outro ministro vier à faculdade, nós estaremos lá para lhe dizer para ele se ir embora.

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