O Saara não é só camelos

Por Paulo Cecílio



Não sei porque carga de água alguém pensou um dia que um festival no meio do deserto seria boa cena (see what I did there?), mas, reparem, o Alchemy At Zahar será uma muito boa cena. Entre 17 e 22 de Abril todos aqueles que: 1) gostarem de metal mais “experimental” e 2) quiserem ser um tuaregue durante mais tempo do que aquele que a canção da Gal e a cover de Jibóia proporcionam podem ir até Marrocos, mais concretamente para o deserto do Saara, onde poderão assistir a malta como os Secret Chiefs 3, Master Musicians of Bukkake, Brothers Unconnected, Lee Ranaldo, Sir Richard Bishop e — surpresa das surpresas — os mui nacionais e titânicos Black Bombaim.

Já vos consigo ouvir a perguntar como raio fazem para lá chegar, o que na realidade é bastante simples, e ter-me-iam poupado trabalho e letrinhas neste artigo se tivessem ido à merda do Google, mas, como hoje me sinto simpático, eis o que devem fazer: em primeiro lugar, claro, comprar o bilhete diário ou o passe geral — 60 euros um, 225 euros o outro, uma pechincha comparado com o aquilo a que os mesmos dão direito. No caso do geral, que é aquele que mais interessa (porque, lol, quem caralho iria até ao meio do deserto para ver um único concerto?), os festivaleiros podem contar com cinco pequenos-almoços, três litros de água diários, dormida numa tenda tuaregue (“saiba como vivem os Tinariwen, hoje!” seria uma bela campanha publicitária em 2007), viagem de camelo e transporte entre M'Hamid e a Duna do Saara, onde ocorrerá o festival.



Em segundo lugar, planear bem a viagem, porque só irão ter, naturalmente, aviões até Marraquexe (se não forem doidos o suficiente para ir de carro, apanhando o ferry em Gibraltar, e por doidos quero realmente dizer aventureiros) e desta cidade até M'Hamid El Ghizlane são sete horas de táxi ou de autocarro, coisinhas que podem custar entre 15 euros e 20 euros. Em terceiro lugar: levar um saco-cama. Não, meus queridos, não há hotel. Há todo um estilo de vida nómada à vossa espera.

É isto. Uma vaga ideia daquilo a esperar em Marrocos não partirá das minhas palavras, mas da eterna poesia de um verdadeiro mestre:



Ainda corria o vento quente vindo do deserto

No terreiro a que chamam Jemaa el-Fnaa,
o acender dos lumes iniciou a montagem de dezenas de restaurantes ambulantes,
com o cheiro adocicado das especiarias a invadir toda a praça

Vindos das sombras da Medina,
encantadores de serpentes,
contadores de histórias,
comentadores do Corão,
malabaristas, trapezistas, músicos,
e toda a sorte de batoteiros
atraíram uma multidão ociosa, que se arrastava indolente

Em minutos, Jemaa el-Fnaa
deixou de ser uma inóspita praça escaldante e empoeirada
para passar a fervilhar de actividade,
entre o fumo das cozinhas improvisadas,
as luzes das lanternas acabadas de acender,
o vozear da turba delirante,
o batuque dos tambores
ou a melopeia encantatória das flautas

Era o momento de pôr à prova a destreza de mãos e surripiar umas carteiras!

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