Guimarães Rocka Ó-Ió-Ai 2012


O último dia do resto do ano

Por Sara Cunha

Apetecia-me iniciar este texto com um chavão: o que é bom acaba depressa. Mas vou optar por não o fazer A bem dizer, parece que foi ontem que o centro histórico de Guimarães se encheu de projecções e de efeitos luminosos a lembrar qualquer filme de ficção científica dos anos 90, mas bem contados os dias, serão qualquer coisa como 356 dias.

Dizer que 2012 foi um ano bom para Guimarães seria, mais do que pouco, uma descrição completamente incapaz sobre o ambiente que a cidade pode ver crescer e que deu muita GRÓIA. Talvez por isso, a programação de encerramento vai estender-se por 48 horas, as mesmas que levariam os mais corajosos a ler todos os detalhes da programação que transformou o berço em mais do que “aquela terra onde há pancada nos jogos de futebol”. Que o digam os dezenas de vimaranenses que fizeram das suas casas prateleirasas centenas que poderão este fim-de-semana ser artistas, os muitos que se experimentaram nos ainda mais workshops, oficinas, aulas abertas e castings, os que emprestaram o sofá para plateia, os que viram teatro, os que descobriram o cinema, os que ouviram as músicas de que gostam, as que não conheciam e aquelas que, muito certamente, não voltarão a tocar.

Se é certo que a cultura em Guimarães já a transformava, há muito, numa cidade fora da norma no campeonato das cidades que não são nem grandes, nem têm poder de decisão, a verdade é que esta CEC 2012, ainda que com muitos defeitos e outras tantas derrapagens orçamentais, para além de ter sido capaz de envolver toda a comunidade, trazer mais-valias económicas e todos esses blá-blá-whiskas saquetas chatos foi, a meu ver, notável em três pontos:

1. Fazer da palavra “instalação” um vocábulo de uso comum em vimaraneneses dos vários quadrantes;
2. Trazer mais jovens ao norte do país do que o evento da cidade vizinha cujo nome eu não posso pronunciar, sob pena de ser excomungada;
3. Encher o Toural e a Praça da Oliveira de “homedo” da mais elevada qualidade, numa clara capitalização da afamada hospitalidade da mulher minhota. 

E se o ambiente é de festa (e alguma bajulação), a VICE não podia deixar de picar o ponto e de trazer uma dimensão “botaabaixista” (de minis) ao fim-de-semana de directas que se avizinha. O local escolhido para o ajuntamento é o refinado Armazém 128 na Caldeirôa e, ao que parece, será o arranque para uma série de edições anuais do GRÓIA, um festival urbano que vai andar por aí a semear criatividade. Para esta primeira edição, as despesas de intervenção do espaço vão estar entregues aos LIKEarchictects. Pelo palco, vale a pena ver PAUS, que, de acordo com palavras dos mesmos, vão trazer a sua “bateria siamesa, um baixo maior do que a tua mãe e teclados que te vão fazer sentir coisas” (só esperemos que isto não seja paleio de gajo).



Directamente de Odivelas, chega Allen Halloween, um dos nomes do aqui e do agora do hip-hop nacional. Carregadinho de atitude e com um repertório bastante interessante ao nível do palavrão, acho que é boa aposta para aqueles que andam a chorar a morte do rap nacional, pós-ascensão de Boss AC. 



O cartaz de concertos completa-se com Yonatan Gat, guitarrista dos Monotonix, Throes + The Shine e a sua mistura improvável de rock e kuduro, e Mr. Miyagi. Para estender a noite até ao dia seguinte, o painel de DJs é composto por Quesadilla, Alvim (o único tipo que eu conheço que tem o nome em cartazes para copywrite de ideias), Tiago Miranda, Granada & Naper e Moullinex + Xinobi.

Quem também vai andar por lá é a malta que escreve estes textos, estando a organização do evento a ponderar a imposição de um dress code específico, para facilitar o reconhecimento junto dos inúmeros fãs.



Para o ano, far-se-ão as contas à herança pesada que esta Gróia deixa, aos elefantes brancos cujos custos fixos nem o euromilhões do Manuel Machado podem pagar e, aí, este texto choné, dará lugar a crítica mordaz sobre a visão megalómana de quem a criou. Mas isso é só para o ano, que, agora, a altura é de festa.

Comentários