OSY: Juventude Suburbana do Porto

Por Alice Barata



Há uns tempos, um amigo meu começou a ter rajadas de pensamentos repletos de lógica, o que, inicialmente, preocupou quem lhe era mais próximo. Teria sido raptado por algum tipo de vida extraterrestre adepta do dumping na actividade neuronal? Estariam os estrogénios vegetais da soja a vergar-lhe a testosterona? Não, afinal só tinha deixado de fumar ganza.

Das primeiras frases sábias que proferiu e que deixou quem o rodeava atónito foi: "É com fanzines que este país vai para a frente." Chegou, inclusive, a escrever um artigo para o P3, em que abordava esta questão, mas foi rejeitado a sangue frio — provavelmente, porque não estava com um ar suficientemente tono na foto que enviou.

Numa altura em que o apoio a actividades fúteis culturais e aos inúteis artistas é, racionalmente, ponderado pelo governo, que tem optado por medidas pensadas no bem-estar dos cidadãos a longo prazo, muitos começam a ressuscitar o espírito punk e a procurar o consolo que o DIY pode, ainda, providenciar à arte lusitana. Foi neste espírito que surgiu o OSY (Oporto Suburban Youth), uma zine do norte, que emana a aura do desenrascanço e tem implícito aquilo que causa asco a muito pessoal de direita: o facto de haver gente pensante a trotear pelos subúrbios. Consegui falar com um membro incógnito da zine e acabei por passar um tempo agradável imersa entre o movimento punk, o Google e papagaios.



VICE: Boas. A OSY é uma zine maioritariamente fotográfica. Por que motivo é que decidiram usar este média quase exclusivamente?
Membro Incógnito: Nesta edição, foi criada uma narrativa fotográfica, mas as próximas vão depender de quem se cruzar pelo caminho da zine. O que interessa é o conceito.

O tema da vossa primeira edição é "Sounds from the Suburbs". Que som é esse?
O som  é uma das formas de analisar culturalmente um espaço, de o sentir. Mesmo quem é surdo tem de lidar com os sentimentos suscitados pela ausência de som, que acabam por se converter numa espécie de melodia por si próprios. Penso que, nas culturas suburbanas, o som tem um papel mais relevante na exploração da criatividade e do entorpecimento. Geralmente, existe um maior número de bandas de metal, hardcore e afins nas áreas periféricas das metrópoles. Funciona como uma extensão da voz dos marginalizados, que usam o subwoffer para dizer: “Tratam-nos como uns renegados do diabo, mas nós estamos aqui.”



Qual pensas ser o futuro deste país? Fanzines ou políticos monocórdicos?
Neste momento, tudo o que seja DIY é o escudo romano dos artistas, as zines são exemplo disso, mas também existem muitos outros formatos que podem ser explorados. Para mim, o futuro é o da não-conformação.

A não conformação é uma atitude que passa pela política: área que a grande maioria das pessoas começa a ganhar algum asco. Masturbas-te a pensar no ressuscitar da democracia helenística?
Essa possibilidade é tão porreira como algum do material gratuito existente nos vários motores de busca porno… Mas, quanto ao asco à política, há muito que as pessoas ganharam isso mesmo, que é, precisamente, o que a classe dirigente quer. É fácil tomar decisões quando não existe uma força intelectual que as conteste. Neste momento, anda tudo mais atento porque algo de concreto foi atacado: o estilo de vida. Mas, as áreas basilares da democracia, como a cultura e arte, continuam a ser um bode expiatório e a construção de um pensamento crítico continua a ser negado à grande maioria das pessoas.



Achas que o movimento punk, resultante da revolta que a marginalização suscita, volta a ter um papel socialmente relevante?
O punk, como outros movimentos sociais, tem aspectos interessantes. Primeiro, pela vertente de desconstrução implícita: tudo é contestado. É um exercício útil, muitas vezes evitado pelo desconforto que causa. No entanto, também surge o conformismo pela outra via: a acomodação ao lugar de renegado, o fuck the system sem perceber, em primeiro lugar, como é que o sistema funciona. Quem foi convencido de que fazia parte de uma sociedade, mas que se apercebe de que, efectivamente, não está a obter vantagens razoáveis disso precisa de fazer exactamente o que não é expectável das pessoas com menos de 30 anos: que se interesse pela política. Ver o Zeitgeist e amuar com o sistema não chega, é tão produtivo como passar o fim-de-semana a converter oxigénio em dióxido de carbono dentro de um shopping.



Qual é o papel cultural que esperas que advenha da Oporto Suburban Youth? 
O único papel que podemos ter é o da sugestão. O que se mostra são imagens cujo objectivo é, simplesmente, fazer pensar e sentir — coisa que falta a muitos “eruditos”. Por exemplo, intrigam-me os revivalismos salazaristas que vou vendo, o pessoal já não se põe a decorar as linhas de comboio, mas entretém-se a exibir erudição aos amigos. Nos tempos que correm, existe o Google e se eu me quiser informar sobre a banda X ou filme Y, tenho a informação toda catalogada na net. Já não precisamos de papagaios, nem de malta a querer mostrar serviço, mas sim de gente com honestidade intelectual. Acho eu…



Para terminar, de quanto em quanto tempo é que estão a pensar editar a OSY?
Isso vai depender dos colaboradores que forem surgindo e dos fundos. Esta primeira edição não tem muitos exemplares. O objectivo não é tornar isto num sucesso de vendas, mas possibilitar que chegue às pessoas certas, que são todas aquelas que tiverem um interesse genuíno pelo projecto.

Obrigada, Membro Incógnito da OSY.

Som dos subúrbios: Decibéis que, mais tarde ou mais cedo, não vão deixar nenhum canal auditivo por vibrar.

A zine está à venda na STET, em Lisboa, e na Inc. Livros e Edições de Autor, no Porto. Também é possível fazer a encomenda através do e-mail: osy.zine@gmail.com.


Imagens cedidas pelo Oporto Suburban Youth.

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