Passei uma tarde com o José Cid: a casa

Por Ana Rodrigues



Contar como é que se passa uma tarde com José Cid requeria muitas palavras que o vocabulário não tem. À saída do restaurante, durante a viagem de carro a caminho do palacete onde Cid mora, o Zé vai-me mostrando o seu disco de tributo a Llorca e o trabalho de José Perdigão. Ficamos em silêncio a apreciar tudo, de tal forma que a viagem pareceu de um segundo.

Finalmente, já estamos em casa. Uma moradia antiga, com um grande relvado, uma piscina coberta e resquícios de história em todo o lado. O Zé convida-nos a entrar. Logo à entrada, um piano de cauda. Na pequena salinha, pedaços de uma vida cheia: um retrato de Dom Manuel II, fotografias de família, uma carta da Mocidade Portuguesa e um pequeno leitor de discos portátil. É nessa altura que Zé coloca a tocar “Menino Prodígio” e ausenta-se da sala, para falar ao telefone (o que aconteceu várias vezes). Quando regressa, as perguntas impõem-se.

É difícil não nos sentirmos intimidados quando ouvimos Cid a cantar para nós tão naturalmente como perante uma multidão. Ou a simplicidade como se senta ao piano, a criticar, sempre mordaz, o Michael Bublé e a acatar um desejo nosso de cantarmos com ele. Foi uma tarde incrível, esta.

VICE: Esta faixa é incrível.
José Cid: É do meu novo álbum, que sai no próximo ano.

Quem é o menino prodígio?
Os amigos dos meus pais diziam que era eu. Mas o menino prodígio morreu e sou o epitácio [referência à letra da canção].

Mas já tocava em pequeno?
Tocava piano, tocava.

Autodidacta?
Tirava as melodias todas, com o meu avô. Ele ensinou-me a tocar. [Continuamos a passear pela casa de Cid, que nos faz uma visita guiada] Aquele telefone ligava esta casa àquela [a casa vizinha], que era do meu bisavô, um maçon republicano. A minha avó, filha dele, é que casou com o vizinho. Nasceu ali, acabou a vida dela aqui.

E tem aqui um retrato de Dom Manuel II…
Mas não sou fã de Dom Manuel.

Sim, ele também não ficou bem para a história.
Esse gajo é um imbecil.

Mas isto é seu, ou é dos seus avós?
Não, é meu. Até foi o Dom Duarte que me deu. Mas o Dom Manuel é que foi esperto: apaixonou-se por uma mulher lindíssima, bailarina, francesa, super célebre em Paris, com 27 anos.



E quem é que são estas duas meninas, nesta foto?
São as minhas irmãs, comigo ao colo. E a que está comigo ao colo ainda é viva [interrompe, para o fotógrafo:]… Não me tires muitas fotografias, que eu fico sempre mal!

Nuno Miranda: Não se preocupe, se estiver mal, não uso.
José Cid: Entretanto, tenho de ir assinar aqui uma coisa para Moçambique. Tive uma contratação para Moçambique como nunca tinha tido. Estive no antigo regime em Angola e depois na ditadura já não me apeteceu [regressar]. O Rui Veloso no outro dia veio-me dizer: “Porque eu estive em Angola!” Tocou em regimes ditatoriais, a ganhar rios de dinheiro. Pois, mas eu não me sinto lá bem, não é o meu esquema. O que não ele não percebe é que eu estive oito anos proibido de entrar em Angola e ele não. [Nesse momento, José Cid pergunta-nos se queremos ver a sua colecção de discos e é óbvio que subimos as escadas, até ao quarto de Cid.]

Está quentinho aqui.
Aviso já que o meu quarto está uma miséria [risos]! Este é o primeiro álbum do Quarteto 1111, que é fantástico.

O que foi censurado.
Sim. E e esta é a edição americana do 10.000 Anos, o tal álbum que os americanos editaram em 94.

O artwork lembra-me muito a psicadélica dos Black Sabbath.
Isto é que é psicadélica! Os Black Sabbath não têm um álbum nenhum com este grafismo, desculpa lá. [José Cid continua a mostrar-nos os tesouros que tem enterrados em gavetas: desde o disco dedicado a Llorca, até trabalhos com o Orfeão e um álbum da sua primeira banda, um grupo de versões, os Baby.]

É curioso, não consigo imaginá-lo a interpretar versões, a fazer covers.
Mas eu comecei assim!

Pois, eu sei. O que é que interpretava na altura?
Pá, Chuck Berry, muito Bebel Gilberto e cenas assim. Só cantava uma cena minha em português. Posso fazer-te uma cópia disso.

Tem saudades dos tempos do Quarteto 1111?
Não, nadinha.

Fica chateado quando lhe dizem que é a mãe do rock português?
Eu não! O Rui é que fica chateado, acha-se único e não é. Ele tem um ego de merda. Canto muito mais do que ele ao vivo. Ninguém o reconhecia se não fosse o Carlos Tê. Uma vez, fui a Lisboa mostrar-lhe um disco do José Perdigão, disse-lhe que tinha uma grande voz. Ele virou-se de costas e disse: “Uma coisa é ter uma grande voz, outra coisa é saber cantar!” Fui atrás dele e respondi-lhe: “Vou dizer-te uma coisa, Rui Veloso. Este gajo tem uma grande voz e sabe cantar. E não te fica bem estares a dizer uma coisa destas, à frente de um miúdo que está a começar, só porque não foste tu que produziste o disco. Vou-te dizer outra coisa. Eu, José Cid, canto, toco, danço, faço chachachá, rock progressivo, jazz, fado, música étnica, em qualquer palco do mundo, melhor do que tu. E tu tens a mania que sabes tudo, mas só sabes metade. Não há ui, nem meio ui. Vê se controlas a merda do teu ego.”

A sério?
Sim. Ele está com a voz toda lixada, bebe quatro garrafas de álcool antes de entrar para o palco, está ali a sacar 30 mil euros com ar de frete, com um ar de chateado do género “quando é que esta merda acaba para eu ir para casa para os copos”, e não é amigo de ninguém.

Isso não é um problema transversal aos músicos?
Não. A Mariza vai a salas da Europa cantar e diz: “Aqui eu canto, mas com uma condição, que é a Ana Moura e a Carminho não passarem aqui.” A Carminho canta muito bem.

E a Cristina Branco também.
E a Ana Moura? A Ana Moura era a miúda que eu ia buscar a uma aldeia ao lado de Coruche, quando ela tinha 15 ou 16 anos. Pedia aos pais para ir buscar a única miúda que, graças a Deus, não canta Amália Rodrigues. É a única miúda que não canta Amália porque estas gajas cantam todas assim. A Cristina Branco inclusive. É por isso que eu não gosto delas.

José Perdigão, Ana Moura… É um homem de protegées?
A Ana Moura não levou nada meu. Já a Mariza pediu-me uma canção para o repertório: “Vê lá se me arranjas uma balada daquelas que tu fazes boas, para eu gravar.” E eu respondo: “Por acaso até tenho uma.” Diz-me ela assim: “Mas é sem confirmação, isto é, eu vou ter de ouvir a balada e depois logo vejo se a gravo ou não.” E eu respondo: “Ó Mariza, tudo bem. Eu também posso ouvir a forma como tu cantas a balada e depois dar-ta, ou não.” Quem é a Mariza, que não tem criatividade nenhuma, para me vir dizer isto? Era o que faltava. Ela acha-se muito, mas é um eucalipto, seca tudo à volta. Mas agora lixou-se, que apareceram duas miúdas talentosas, que são Ana Moura e a Carminho.

E a Carminho é giríssima, também.
Tu és bem mais gira do que ela! A Carminho canta que se farta. Gira é a Sara Tavares e tem uma atitude muito boa, musicalmente.



E diga-me: por que é que não usa mais o minimoog?
Porque hoje, em estúdio, uso um som muito mais acústico e tenho outras opções. Tenho um super guitarrista a tocar comigo, um bom baterista a tocar em estúdio comigo, e eu opto por fazer o processo de gravação em fases diferentes. E o minimoog está outra vez na moda e está toda a gente a usá-lo. E é mais uma razão para eu não o usar. O que tens de fazer é não fazer aquilo que os outros estão a fazer: é gravar em analógico, é gravar com músicos. E isso é que é importante fazer hoje.


A primeira parte, do almoço, está aqui. Leiam também.


Fotografia por Nuno Miranda.

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