Música

Quem quer falar com o B Fachada?

Por Miguel Arsénio

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Numa altura em que tudo aponta para que B Fachada chegue aos oito discos lançados em apenas quatro anos (2009-2012), estão reunidas as condições necessárias para que o gajo tenha o seu próprio jogo temático. Um B Fachada Rock Band ou um Singstar Fachada Edition tinha tudo para funcionar nas mãos de uma companhia de software arrojada e inteligente.

A quantidade de temas cantaroláveis é generosa (“Joana Transmontana”, “Está na Hora da Passa”, tantos outros), assim como são diversos os visuais emblemáticos do B Fachada, ao longo desta temporada. Isso faria com que o boneco 3D pudesse aparecer com umas calças de bombazine, nas canções do Pónei Dourado, e com uma camisa tropical para cantar o clássico “Há Festa na Moradia”. O B Fachada Rock Band podia até ter um modo de versus para dois jogadores, em que o objectivo do segundo jogador era fazer ruído para estragar a pontuação do primeiro.

Fui buscar esta artimanha do videojogo para safar a introdução porque, depois de dois meses passados desde o lançamento de Criôlo, já quase tudo foi dito sobre o disco: está carregadinho de grandes malhas, alimenta-se da vadiagem pela memória da música pop e não se acanha sequer de ir buscar ritmos a paragens onde Portugal chegou a ir buscar especiarias e outras merdas exóticas.

Além de tudo, Criôlo é estupidamente eficaz como conjunto de canções capaz de meter a dançar quem nunca leu ou ouviu dizer nada sobre o B Fachada. Metam-no a tocar enquanto as vossas mães estiverem a cozinhar caril ou bobó de camarão. Mas antes disso, leiam a conversa com o B Fachada a poucos dias do homem ir passear as canções de Criôlo ao Lux.



VICE: Tenho tocado o Criôlo na companhia de algumas pessoas que nada sabem sobre ti e a resposta é geralmente bastante positiva, principalmente durante “Afro-xula”, “Como calha” e “É normal”. Com este álbum, que tipo de adesão sentiste das pessoas que pouco ou nada sabem sobre o B Fachada?
B Fachada: Não costumo ser o tipo de gajo que quer saber o que toda a gente acha do meu trabalho. A família gosta sempre e os amigos ficam sempre entusiasmados com um disco novo, talvez até por empatia. Acho que só vou conseguir perceber a importância deste disco no meu percurso daqui a mais algum tempo: depois de ver a cara das pessoas nos concertos. Com o Criôlo, entrei numa fase em que já vejo o percurso como um todo e o ciclo a fechar. Tento não interferir com o público — gosta quem quer, mas nunca pode deixar de ser fácil não gostar.

Tanto quanto sei, o Criôlo progrediu também a partir da variedade de sintetizadores que tinhas ao teu dispor. Consegues associar um ou outro tema às possibilidades oferecidas por determinado sintetizador? Sentes que podia até ser um disco mais longo se a colecção de sintetizadores disponíveis fosse maior?
A ideia de fazer um disco “electrónico” sempre assombrou todas as gravações no pónei [Golden Pony Studio], em parte vinda do fetiche de montar os synths todos ao lado uns dos outros… Apesar disso, o único que nunca tinha usado era o DX7, que foi uma aquisição recente e rapidamente se transformou na mascote do disco e foi usado como teclado principal (ritmo) em todas as canções excepto a “BalaDona” (Prophet VS) e o dub (pianet T). O resto é um deboche de synths analógicos e digitais de vários tipos e várias décadas, acho que corremos toda a colecção de teclados do pónei. Houve ainda uma série de cruzamentos de synths a controlar outros, eu e o Dudu [Eduardo Vinhas] a operar a mesma máquina, cada um na sua, etc. Já que era para o fetiche, levámos a coisa mesmo até ao fim — mais era demais.

“Quem quer fumar com B Fachada” tem aquele andamento mais arrastado do dub e lembro-me de te ver por aí com uma t-shirt da Trojan. Acreditas que o dub pode apenas surgir de origem numa das tuas canções ou imaginas-te, por exemplo, a fazer “dub versions” para temas do Há Festa na Moradia, ou do disco homónimo do ano passado?
As minhas incursões caribenhas mais descaradas são sempre (pelo menos, julgo que sim) justificadas… A canção acaba por falar sempre da sua costela dub [“Kit de Prestidigitação” e “Quem Quer Fumar com o B Fachada”] ou calipso [“Deus, Pátria & Família”]). Vou sempre deixar que a minha música se desloque geograficamente quando a canção precisar disso, mas nunca com efeitos retroactivos (acho). No caso concreto do “Quem Quer Fumar com o B Fachada”, houve no “I’m the Upsetter” do Scratch Perry um ritmo tuga que me chamou a atenção... Achei que tinha que fazer um trad-reggae; lembrei-me que tinha este título guardado para a próxima viagem jamaicana e a canção fez-se sozinha: saiu um dub com um refrão à Deolinda… Não se pode ter tudo!

O último disco de Mark Kozelek como Sun Kil Moon tem um tema brilhante, chamado “Track Number 8”, em que ele fala da solidão e das dores envolvidas no ofício dos escritores de canções. Em relação a outros discos teus, o Criôlo parece-te especialmente divertido de tocar ou nem por isso?
Apesar disso estar a mudar um pouco agora com o concerto electrónico, sempre tive uma relação bastante primitiva com as canções. Gosto de tocar o que toquei menos vezes se só puder fazer isso, mas se me deixarem estar (em casa) começo numa ponta e a certa altura dou por mim a apetecer-me mesmo tocar uma canção que já toquei centenas de vezes mas que já não toco há algum tempo. Sai mal, claro, mas o meu gozo a tocar as canções é meio abstracto, prefiro tocar uma canção que já me esqueci e parar dez vezes do que tocar uma que está na ponta dos dedos, mas que eu sei que não me vai cair bem naquele momento.

Quando cantas “tu vais ser minha mulher durante agosto”, na canção “Agosto”, do B Fachada é pra meninos, esse verso aponta um pouco para o que viria a ser o disco homónimo de 2011. Parece quase uma ponte entre os dois. Isso leva-me muitas vezes a pensar se o Deus, Pátria e Família não veio intrometer-se entre os dois álbuns. O “Deus, Pátria e Família” é, em termos de percurso narrativo, vá lá, um disco “intrometido”?
Depois do disco p’ra meninos [B Fachada é Pra Meninos], estava com muitos discos de canções de seguida. A certa altura, apetecia-me experimentar quebrar o formato e tentar um fôlego diferente, em vez de ir outra vez arranjar uma dúzia de personagens para povoar mais um disco de histórias.

Estou a perceber.
Além disso tenho a tendência de fazer um disco sempre a pensar como seria o oposto: do B Fachada conservador para o Moradia [Há Festa na Moradia] desbragado e destruído para o Pra Meninos [B Fachada é Pra Meninos], contido, limpo e seco. Era altura de fazer música “para adultos”, começar a misturar as texturas que tínhamos descoberto nos discos anteriores e conseguir um fôlego contínuo. Fiz os 20 minutos ao piano, explorei o contraste entre o colectivo e o individual que me pareceu ser o mais “adulto” que eu podia explorar na altura. Fui quatro dias para o pónei [estúdio] fazer o disco com o Dudu. É das gravações mais memoráveis de sempre. Depois, deixei que o pêndulo voltasse para o lado da contenção e, para não voltar a fazer mais um disco de histórias, fiz um disco de canções sobre fazer canções. Para mim, os discos respondem sempre uns aos outros e eu sei que estou a fazer o disco certo quando ele contraria o anterior em quase todos os planos.

Sei que vais tocar no Centro Cultural Olga Cadaval, inserido no Misty Fest. Um auditório com o público sentado. Planeias adaptar um pouco o alinhamento a essa realidade nessa noite em especial?
Tenho vindo a perceber que mesmo que chamasse ao concerto “bailinho”, o pessoal preferia ver sentado. Eu percebo, também preferia tocar sentado, descansa-se mais.

Pareces-me cada vez mais à vontade nos concertos e bem menos stressado do que há três anos, quando falámos pela última vez. Ainda há qualquer coisa que te tire mesmo do sério, enquanto estás a tocar?
Gosto de acreditar que estou cada vez mais bonzinho… Apesar de não ser capaz de fingir uma simpatia constante, nem achar isso desejável, mesmo que esteja no pior dia sou incapaz de não sentir alguma gratidão por poder desenvolver o meu ofício. No entanto, continuo a achar que faz parte do meu papel ter um concerto muito concreto, sem deixar margem para o alheamento que costuma alimentar a indústria do entretenimento e colocar-me longe da ideia de que um concerto deve ser maquinal ao ponto de toda a gente se esquecer que não passa de meia dúzia de gajos a arranhar umas cordas e a bater nuns tambores.

Interrogo-me se não terás já ouvido algumas histórias sobre o bar “O Trevo”, estabelecimento mítico da localidade onde moras agora. Quais são as possibilidades de reactivar o espaço para um serão “B Fachada é pra meninas”?
Talvez precisasse de fazer um disco apropriado primeiro…

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