Rescaldo: a Pepa quer uma mala

Por Sérgio Neves



Estávamos a 23 de Janeiro de 1999. A Britney Spears acabara de lançar o seu primeiro álbum, para deleite de milhões de adolescentes e adultos frustrados, o Michael Jordan anunciara a sua segunda reforma do mundo do basquetebol (em três), e a série Family Guy preparava o lançamento do seu primeiro episódio para o último dia do mês, na Fox. Em Lisboa, a noite era fria e o Maior ganhava ao Rio Ave por dois golos a um, na Catedral. A poucos minutos do fim sai o saudoso Nuno Gomes para dar lugar a Pedro Miguel Marques, um miúdo de 18 anos que andava a dar nas vistas nos juniores e que fazia a sua estreia oficial para matar tempo de jogo. Mas a noite tinha magia. O saudoso João Pinto passa-lhe a bola e o miúdo leva-a até ao fundo das redes adversárias em segundos. Faz-se a festa, o jogador agarra-se à cabeça, deslumbrado. Os jornais dos dias seguintes não tardam em entrevistar até o primo em terceiro grau, aquele da Suíça que só se vê em casamentos e funerais. Está encontrado o próximo Eusébio, até deixar de o ser. Toda a gente passa a conhecer e a celebrar a alcunha do puto maravilha: Pepa.

Volvidos catorze anos e é de novo em Janeiro que o nome de Pepa explode por todo o lado. Aos 32 anos, o Pepa original não tem muito mais que agarrar do que as memórias do dia de glória e das más escolhas que fez. Não é ele quem ressuscita das cinzas a alcunha, mas antes Filipa Xavier, blogger de moda de 25 anos e a grande estrela da campanha mais rápida de que há memória. 

Aqui está a aventura resumida, para quem andou a viver debaixo de uma pedra na última semana. Uma conhecida empresa de novas tecnologias decide iniciar uma campanha em que entrevista bloggers de moda e pergunta-lhes como correu o seu ano de 2012, e o que desejam para o ano de 2013. A resposta de Pepa Xavier (e não só) foi dada num discurso previsivelmente desfragmentado e em torno da futilidade, num tom anasalado e genericamente de “tia”, com vários “tsipo” e “super” à mistura. A grande pérola acontece quando Pepa anuncia o seu maior desejo: comprar uma mala da Chánél (sei lá, deve ser isso), e cito: “Uma daquelas malas clássicas, aquelas carteiras clássicas, aquela Chánél preta, é clássica, acho que fica bem com tudo.”

Numa questão de horas todos os trolls da internet saíram dos seus buracos e petiscaram na presa fácil. À portuguesa, não tardaram a ser criadas páginas de Facebook (“A Pepa quer uma mala”, riso javardo), hashtags, críticas em blogues e na página oficial da marca, que não tardou a retirar a campanha, embora os vídeos ainda estejam disponíveis no YouTube. No caso da Pepa, é este:



Nem os defensores dos entrevistados ou da marca, por mais que culpabilizem as montagens das entrevistas ou a malícia das pessoas, podem negar a precisão de como todos se puseram a jeito. Esta era uma questão de estigmas, e esta campanha acertou em todos quantos havia. Os bloggers de moda (e encaremos a verdade, as pessoas do mundo da moda no geral) têm a fama de serem pessoas desligadas da realidade, afectas a tudo o que é supérfluo e fútil. E foi precisamente um item supérfluo e fútil que a rapariga desejou para 2013. E foram escolher, precisamente, uma mulher afecta ao centro de Cascais, entre o “beta” e o “princesa”. Faz lembrar a cena do Jurassic Park em que atam uma cabra a um poste para alimentar os dinossauros. Pensavam que não iam morder?

Não nos podemos esquecer de que os bloggers como a Pepa são só pessoas com acesso à internet e com uma necessidade inerente de partilhar algo, independentemente do número de ovelhas que os considera interessantes. E eu sei, já tive um blogue. Em 1970. E para mais fui nascer a Cascais, e estou habituado ao estigma de que somos todos “tios” e snobes com o cu virado para a baía. Não que seja totalmente mentira, ou característico apenas da zona, mas obrigado por ajudarem a promulgar essa impressão, e continuem a visitar-nos pelas praias e pelas “betinhas” boas a passearem-se de biquíni.



A questão da mala remete-me para o maior sucesso da música portuguesa depois da geração da Romana e da Ana Malhoa, a/os Miúda. Se ela quer uma mala, deixai-a. Seja ela preta, branca, asiática, grande, pequena, o dinheiro é dos pais dela e ela faz com ele o que lhe apetecer. É apenas um toque de futilidade deselegante, que, infelizmente, acabou por impingir toda uma campanha. Afinal, a mala da “Chánél” não fica bem em todo o lado.

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