Tentei ser lésbica durante uma semana

Por Eve Willis



Há uns meses, a minha melhor amiga de sempre, a pessoa que mais venero no mundo inteiro — uma miúda cujo vómito já limpei, cujas lágrimas já sequei e a quem já dei banho — fez 18 anos. O bebé cresceu.

É evidente que os seus pais contrataram um stripper para a festa de aniversário. Sim, haverá alguma maneira melhor de iniciar a vossa filha no mundo dos crescidos? Mundo esse em que vai ser, constantemente, assediada em todas as discotecas em que ponha o pé? Contratar um homem que abana o seu pénis flácido na cara de uma jovem adulta é, realmente, uma decisão sensata. E não a encontrarão em nenhum livro importante de aconselhamento parental.



À procura de uma pausa do triste ballet de testículos que se pavoneava dentro de casa, enfiei-me na zona dos fumadores, para logo me encontrar frente a frente com um pedaço do inferno: o meu ex-namorado, com quem saí durante pouquíssimo tempo porque sou uma anormal. Ele lá estava, com a boca colada à de alguém. Preferia ter uma conversa de chacha com esse alguém do que falar com a sombra do meu passado. Parecia um momento saído daquele filme, A Escolha de Sofia, mas ainda mais aflitivo. As minhas opções resumiam-se entre ver a minha melhor amiga a ficar, para sempre, traumatizada por um gajo que ganha dinheiro para mostrar a pila e respirar o mesmo ar que um gajo estranho, uma pessoa que passou duas semanas a rondar a minha casa, diariamente, depois de termos acabado.

Porém, em vez de ter uma crise de nervos incapacitante (o que ia meeesmo acontecer), tive uma epifania — os homens são horríveis. O meu pai sempre teve razão (o que é algo muito aterrador de se dizer, tendo em conta a nojice do seu género). Quer dizer, posso estar emocionalmente incontinente e enjoada só de pensar em algo que tenha o cromossoma XY, mas não sou assexuada. Nem nunca conseguirei ser. Assim sendo, decidi desviar a minha atenção amorosa para o sexo mais justo, durante uma semana. Sim, para as mulheres: queria perceber como eram os lábios com sabor a cerveja, as costas sem pêlos e sentir o odor corporal feminino.



Esta sou eu, a ligar ao meu pai, para lhe contar os meus novos planos, porque — tendo em conta que ele está mais vezes com o seu advogado do que com a sua prole — sabia que o meu progenitor não me poderia julgar em matérias afectivas. Só que, ao explicar-lhe a minha decisão, ele lembrou-me daquela vez em que decidi tornar-me vegetariana. Durou três dias. É óbvio que isto me deixou a borbulhar de raiva.



Depois de lhe dar a resposta ponderada e matura que seria de esperar por parte de uma rapariga de 17 anos cujo pai acabou de a humilhar, decidi passar à acção. Para me lembrar, diariamente, do quão menos nojentas as mulheres são (quando comparadas com os seus equivalentes masculinos), fiz uma colagem de fotografias de gajas boas e pendurei-a ao lado da minha cama.



Não consegui obter os paroxismos de luxúria que desejava. Mas, pensando bem, as únicas pessoas que se excitam com posters são os leitores da FHM e os designers totós. Resumindo: não fiquei muito afectada. Não obstante, a minha obra-prima do corta-e-cola deve ter feito alguma magia, porque, ao terceiro dia, já tinha uma namorada (sim, uma namorada a sério).

Claro que lhe pedi umas dicas porque ela era a única adolescente lésbica que eu conhecia e, depois de três gins, certamente que não me iria dar uma estalada de volta ao mundo heterossexual. Ainda assim, esta é uma relação completamente legal, certo?



Errado. Por muito que esta imagem possa ter o aspecto de felicidade pós-coital, é, na verdade, o final amargo de uma noite frustrada de marmelanço.



Depois da minha noite de paixão tépida com a Frank, percebi que era tempo de tentar ler sobre o lesbianismo. Da mesma maneira que ler O Pêndulo de Foulcault em público te confere, instantaneamente, um cred de pessoa 100 por cento mais fixe e inteligente. Dica preciosa: funciona da mesma maneira quando te tornas homossexual, só tens é de ler Virginia Woolf.

Porém, dado que a) não sou assim tão esperta, b) não sou assim tão sensível e c) li o livro na diagonal, qualquer mensagem lésbica que o Mrs. Dalloway possa ter passou-me ao lado. Desculpem lá, meninas dos vestidos vintage.



Infelizmente, o meu recém-descoberto apreço por poetisas lésbicas não muda o facto de eu morar numa cidade pequena, onde — a menos que estejamos a contar com todos os casos reprimidos no armário (abraços para a minha vizinha Julie!) — não existe uma cena gay propriamente dita. E praticar as minhas linhas de engate com um poster também não me estava a levar a lado nenhum. Há tanta coisa que podes ganhar ao dizer à Evan Rachel Wood que ela tem “umas belas mamas”.

Logo, podem imaginar a minha felicidade quando, entre várias paróquias, encontrei o único bar gay da zona. Chamava-se “ZEST”. A acção só arrancava, daquilo que percebi do flyer, à noite. Foi aí que compreendi que havia dress code. E o dress code era… usar fantasias. Percebem o que isto significa, certo? Gatas. Gatinhas muuuuito sensuais.



Outra cena que percebi muito rapidamente sobre gatinhas sensuais foi que as calças a condizer com a fatiota me deixavam mal-disposta. E, claro,  eu parecia ser tão atraente aos membros do meu próprio sexo como uma beata dentro de um cinzeiro ensopado pela chuva é agradável. Ou seja, a sensualidade não era uma opção viável.

Ainda assim, é suposto que o poder funcione como um afrodisíaco. Sabem aquelas histórias das senhoras poderosas que conseguem fazer parte das listas, há décadas, das mulheres mais atraentes de sempre? Por exemplo, a Margaret Thatcher. Consequentemente, decidi ir vestida como ela. Ei, lésbicas: quem é a vossa matriarca?



Onde é que foram todas as lésbicas vestidas de gatinhas sensuais? Será que as afugentei?



Aparentemente, sim. É estranho, mas as lésbicas não curtem quando aspirantes adolescentes a lambe-tapetes se apropriam da sua sexualidade para tirarem fotos, de forma a actualizarem o seu Tumblr. Supostamente, é uma “violação do seu espaço privado”, ou outra merda do género.



Na verdade, a única pessoa que se deixou ser fotografada foi este gajo, que andava a passear como se fosse um lamechas sedutor, pronto para se despir à frente da primeira gaja que passasse. Senti que era um espírito semelhante: alguém, também menor de idade, que estava ali somente para roubar o parceiro de alguém. Apaixonei-me na hora. Depois percebi que isso ia contra todos os objectivos daquilo que queria atingir.



A cena deste tipo era lamber as mãos das gajas. Ele lambeu a minha palma, o que foi estranho. Fez-me sentir desconfortável. Felizmente, conforme a noite foi passando (e conforme fui ingerindo mais shots), a comunidade gay local convidou-me para ingressar no seu grupo: longe dos esquisitóides deste mundo e dentro do espaço onde os homens deixavam notas nos fios dentais das mulheres.



Todos estes movimentos libertinos de dança tinham, claro, um efeito nas mulheres. Isto porque, de repente, dei comigo a dançar com a minha nova parceira. Se calhar, isto tinha mais que ver com o facto de que toda a gente conseguia ver o meu sutiã, em vez de estarem a reparar na minha inteligência. Mas o que é que isso interessa? O que importava é que tinha uma lésbica no meu colo e ela era adorável. Até partilhámos um beijo clandestino no fim da noite. Infelizmente, não tenho nenhuma prova (ou seja, fotografia). Desculpem desiludir.



A minha noite gay foi extremamente divertida, a melhor maneira de terminar a semana. Contudo, fez-me perceber que eu era uma lésbica merdosa. Não porque estivesse sempre a pensar em gajos, mas sim porque não tenho as qualidades para engatar gajas. Sabem do que estou a falar: carisma, charme, aptidões sociais básicas e afins.

Estes pormenores não ajudaram à minha causa. Mas não desesperem, meninas: dêem-me 25 anos, vários casamentos desastrosos, alguns abortos, um sério problema genital e voltarei a tentar sabotar a vossa sexualidade.

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