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      Tentei ter o pior Natal de sempre

      December 31, 2012

      Por Patrick Henderson



      Hoje em dia, o Natal é algo demasiado formatado. Peguemos na questão da comida, por exemplo. Não acho que exista algo de errado no acto de se comer em demasia. O que não percebo é: o que raio é que tem o Natal, que faz as pessoas terem uma forte aversão aos comentários nocivos que lhes fazemos sobre a sua própria ganância? Será que o teu jantar de Natal foi assim tão diferente do meu, ou do de qualquer outra pessoa? Será que é necessário fazer disso um desfile social em frente ao mundo inteiro? Todos nós comemos demasiado, todos nós comemos as mesmas coisas e todos nós temos sentimentos idênticos de culpa. Não é necessário mostrá-los ao mundo inteiro, especialmente quando existem cerca de outros 500 milhões de utilizadores no Twitter, todos a tentarem (e a falharem) dizer algo demasiado profundo ou divertido sobre o Natal.

      Deprimido, em consequência do festival da tal uniformidade aborrecida e fútil do ano passado, tentei, desta vez, surpreender a internet, percorrendo os corredores solitários das coisas que poderiam ajudar a tornar o meu 25 de Dezembro no Natal mais triste de sempre.



      Claro que as comemorações iniciam-se sempre muito antes do fatídico 25. Lembro-me de, quando era criança, acordar cedo durante todas as manhãs do último mês do ano e de, muito feliz, abrir a janela do meu calendário de chocolate: porque nada significa “Natal” tão bem quanto uma boca cheia de chocolate às sete da manhã. Mas, agora, ninguém me compra um calendário e estou demasiado velho e irritado com o mundo para comprar um para mim mesmo. Então, podem imaginar a minha alegria quando dei de caras com um calendário de gin.

      Esquecendo o facto de que este nome não faz qualquer sentido, haverá  alguma maneira melhor de inspirar a alegria do Natal, a cada manhã? No fim de contas, é literalmente impossível estar deprimido quando se bebe gin. É essa a razão por que o Hemingway viveu uma longa e feliz vida. Contudo, este optimismo relativo sofreu um revés quando descobri que o calendário custava cerca de 100 euros. O que me leva, igualmente, a pensar que os fabricantes ainda não compreenderam bem o estado económico do seu público-alvo: homens de meia-idade, solitários, que preferem gastar os seus trocos numa garrafa de gin, em vez de os desembolsarem num bilhete de comboio para ir visitar as famílias. Por isso, em vez de comprar o tal calendário, decidi adquirir a garrafa de gin mais barata que encontrei.

      Estava errado ao menosprezar os poderes do calendário de gin. A garrafa não durou 25 dias: mal chegou aos 25 minutos.



      Andava a conversar com uma miúda pela net há meses e ela tinha concordado em vir passar o Natal comigo, se eu lhe pagasse o bilhete de avião. Enviei-lhe algum do meu dinheiro e gastei o resto numa luva altamente fofa: uma smitten, com a finalidade de darmos as mãos neste confortável banquete amoroso.

      No fim de contas, ela teve de ajudar a mãe a fazer uma tarte, ou coisa do género. Ela não veio, portanto. A gaja ainda tem os 700 euros que poupei quando estive a limpar as casas de banho dos festivais, durante todo o Verão. Ainda assim, tenho a certeza de que as nossas mãos estarão juntinhas debaixo desta smitten em breve.



      Felizmente, os cientistas da NASA conseguiram utilizar algumas das mais avançadas técnicas no mundo do estofamento para criar esta réplica (bastante realista) do braço humano. Por isso, consegui fingir sentir algum tipo de interacção humana, ao mesmo tempo em que fazia um esforço para não chorar enquanto via o especial de Natal do Top Gear.

      Apesar de não ter havido um especial de Natal do Top Gear este ano, a cena superou as expectativas.



      Esta pequena prenda é uma boa maneira de juntar todos os amiguinhos que tens online e de torná-los num mosaico, para que possas mostrar o quão popular és, na eventualidade de teres novas visitas (mas, sejamos honestos: só tive uma visita no último mês e era o fiscal dos impostos).



      A comida é, obviamente, outro grande ponto das festividades. Mas, por algum motivo, a indústria alimentar parece descurar nas suas acções de marketing os solitários. Agradeço às estrelas da sorte por ter descoberto esta deliciosa refeição de Natal numa lata. Até se aquece sozinha, nem é preciso gastar dinheiro no gás, para a aquecer.

      Parece que os deprimidos gostam de planear a vida em antecipação, porque todas as latas estavam esgotadas quando me decidi a mandar vir uma para mim. Bem, contentei-me com uma refeição pré-feita para uma pessoa, como habitual. Ao fim de contas, há sempre algo bastante reconfortante com a rotina.


      Fotografia por Jake Lewis

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      Temas: Patrick Henderson, Natal, pior natal, gin, depressivo, passar o Natal sozinho, depressão, Pai Natal, alcóol, bebedeira, Jake Lewis

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