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      A Pompeia do Caribe

      December 3, 2012

      A micro nação de Montserrat é uma ilha que fica num canto empoeirado do Caribe, da qual a Rainha da Inglaterra nunca largou mão. Um protetorado britânico nos dias de hoje, a capital Plymouth foi construída pra atender a decadente e mimada aristocracia da era georgiana. As terras ao redor de Plymouth já estiveram cheias de escravos trabalhando até o osso pra encher os cofres do império.

      Mas os colonos do século XVII ignoraram um pequeno fato quando se instalaram na ilha: eles estavam construindo seu paraíso à beira de um vulcão perturbadoramente grande que sofria de um caso grave de gastrite. O vulcão de Montserrat permaneceu adormecido por séculos, mas finalmente explodiu em 1995, dizimando a ilha. Erupções subsequentes deixaram dois terços da ilha inabitáveis. As áreas afetadas se tornaram uma zona de exclusão controlada pelo governo local, com a população restante tendo que deixar o país ou ser reassentada na ponta não afetada mais ao norte da ilha. Mas com as erupções recentes em 2010 e 70% de chance de outra erupção no ano que vem, parece que Montserrat está determinada a ser coberta lentamente por efluências de magma derretido.

      Pra ver os escombros fantasmagóricos de Montserrat com meus próprios olhos, aluguei um helicóptero em Antígua, a movimentada ilha turística próxima que também é um conveniente paraíso fiscal e centro de reabilitação badalado pra celebridades. Chegando pelo leste, a outrora agitada costa de Montserrat agora parece uma planície lunar, com grandes canais sinuosos e crateras em sua superfície. O piloto me informou que, logo abaixo da fina camada de solo, Montserrat continua queimando, matando meu sonho de passear pelos campos de cinza naquela tarde.

      As nuvens de fumaça saindo da boca do vulcão tomaram uma forma carregada quando chegamos mais perto. No último minuto, antes de sermos completamente engolidos pela névoa e pelas cinzas, o piloto deu um rasante sobre alguns barracos abandonados e cheios de mato na encosta, onde vimos a floresta tropical que hoje parece um monte de fósforos queimados.

      Estas fotos mostram a paisagem à la Pompeia do que sobrou de Plymouth. É possível ver a torre submersa de uma catedral, um complexo de entretenimento, a antiga casa do governador e o prédio principal do maior banco da ilha, o Barclays.

      Quando voamos mais perto do que costumava ser a escola de Plymouth, vi uma fileira de carteiras escolares azuis ainda alinhadas dentro de uma das classes. O piloto disse que os estudantes haviam retornado à escola alguns dias depois da erupção inicial, achando que os estragos seriam varridos rapidamente e as coisas voltariam ao normal. No dia seguinte, o vulcão entrou em erupção novamente. 

      Após o desastre de 2010, a maioria da população recebeu cidadania britânica e fugiu pra começar uma nova vida no Reino Unido. Os poucos milhares de residentes que permaneceram na ilha estão confinados na ponta mais norte, com boa parte da economia local baseada na extração de minerais raros da cinza vulcânica. Eles visitam os restos de suas antigas casas pra recolher pertences abandonados ou prestar homenagem àqueles que perderam suas vidas. 

      Enquanto voávamos pelas ruínas da cidade de Harris, o piloto me contou como as coisas eram ali oito anos atrás, apontando o aeroporto internacional de Montserrat e seus complexos industriais, agora derrotados entre as planícies de lava endurecida.

      Mas mesmo no auge, Montserrat ainda era um azarão caribenho, e a população parece ter se adaptado surpreendentemente bem à redução substancial da ilha. A vida na ilha esmeralda segue em frente, com os jornais locais ainda informando as últimas notícias e escândalos juntamente com vagas de emprego, bolsas de estudo e oportunidades imobiliárias, como em qualquer outra pequena comunidade de qualquer lugar do mundo. Depois da minha rápida excursão pela zona de exclusão, voamos por cima do mar caribenho, de volta à imagem perfeitamente monótona e segura de Antígua. 

       

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      Tópicos: caribe, Montserrat, Pompeia, Alex Hoban

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