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      A Revolução Continua no Egito - Em Pequenos Flashs

      January 15, 2013

      Por Jared Malsin

      Semana passada, a Praça Tahrir, no Cairo, estava ocupada. Embora a onda de agitação que varreu o Egito depois que o vacilante presidente Mohamed Morsi consolidou seu poder em novembro de 2012 tenha diminuído, as barracas estavam lá, assim como os cartazes pendurados nos postes denunciando a Irmandade Muçulmana. Jovens magricelos, alguns brandindo pedaços de pau, patrulhavam as entradas da praça pra evitar que os encrenqueiros pró-governo entrassem. 

      No centro da praça, um “Museu da Revolução” honrava os últimos dois anos de protestos, primeiro contra o ditador Hosni Mubarak, depois contra o governo militar interino, e agora contra Morsi, que na visão da oposição traiu as esperanças democráticas dos egípcios centralizando o poder e pressionando pela aprovação de uma constituição redigida pelos conservadores da Irmandade Muçulmana e outros de seus aliados. O museu é improvisado: as paredes são feitas de pedaços de plástico presos a estacas de madeira, e colados nas paredes estão centenas de cartazes escritos à mão e fotos dos confrontos violentos entre manifestantes e a polícia. Oitocentos e quarenta manifestantes morreram em 18 dias no levante inicial em janeiro e fevereiro de 2011, com dezenas de outros mortos em protestos desde então. 

      Entre as pessoas que estavam trabalhando nessa montagem quando apareci por lá num domingo, estava Ahmed Hassan, um assistente de farmacêutico da cidade de Almançora, no Delta do Nilo. Usando sandálias de borracha, bermuda de futebol e uma camiseta suja, Ahmed, que tem 25 anos, estava dormindo numa barraca na Tahrir há um mês. “Não vamos sair”, ele me disse. Ahmed e seus colegas manifestantes dizem querer que Morsi anule a nova constituição e planejam ficar ali até que isso aconteça. 

      Antes que Morsi agarrasse definitivamente o poder, era comum que os revolucionários não-islâmicos como Hassan considerassem os membros da Irmandade Muçulmana como amigos e camaradas numa luta em comum contra o que havia restado da ditadura do presidente Hosni Mubarak. Mas depois de um mês de luta, essas alianças caíram por terra. Em dezembro de 2012, partidários do presidente atacaram membros da oposição acampados do lado de fora do palácio presidencial e desencadearam enfrentamentos de rua que mataram sete pessoas, o que só piorou as coisas. “[Os partidários de Morsi] se chamam de Irmandade Muçulmana”, conta Ahmed. Como a maioria dos manifestantes, ele se considera um devoto muçulmano. “Bom, então nós somos a Irmandade dos Descrentes?”

      Por enquanto, os combates têm diminuído. Tanto os partidários de Morsi quanto seus oponentes pró-democracia estão se reagrupando depois que a constituição dos aliados do presidente foi aprovada num referendo nacional no começo de dezembro do ano passado, no qual apenas um terço dos eleitores foi às urnas. O que continua é uma sensação de crise permanente e o medo de que outra confrontação entre o governo e a oposição seja inevitável. A oposição planeja outro grande protesto em 25 de janeiro, data de aniversário do levante contra Mubarak. Desta vez, eles estarão protestando contra Morsi e a nova constituição. Mas com a violência que vem acontecendo entre a polícia e pequenos protestos frequentes da oposição, ninguém sabe o que pode acontecer no próximo embate. 

      “As expectativas e os riscos são altos”, diz Elijah Zarwan, analista político que vive no Cairo. “Existe o risco de que uma atmosfera política tóxica e a crise econômica se combinem pra produzir distúrbios graves, caso ações rápidas não sejam tomadas.”

      Que tipo de “ações” são essas, é preciso esperar pra ver. Alguns islâmicos acreditam que a reconciliação entre os dois lados ainda é possível, mas só se a oposição puder embarcar no processo político colocado em movimento por Morsi, um processo dominado agora pelos aliados do presidente. Em dezembro, alegando seus novos poderes constitucionais, Morsi nomeou um terço dos novos representantes da câmara do Parlamento. A Irmandade Muçulmana, com sua poderosa máquina política, provavelmente vai prevalecer nas próximas eleições (a data ainda não foi marcada) pra substituir a câmara baixa dissolvida. Os partidos de oposição são eleitoralmente mais fracos ou estão boicotando as eleições diretas. Ibrahim Omar, membro do Partido Liberdade e Justiça da Irmandade, contrastou de maneira improvável a polarização política do Egito com as recentes eleições norte-americanas. “Depois das eleições, vimos o senhor Romney parabenizar o senhor Obama de maneira muito civilizada”, disse ele. “É assim que tem que ser no Egito.”

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      Mas meu passeio pelas vizinhanças da Praça Tahrir me deu a impressão de que Ibrahim está sendo otimista demais, se não totalmente delirante.

      Nos últimos meses de distúrbios, as forças de segurança egípcias ergueram um labirinto de muros de concreto bloqueando algumas das ruas que levam até a praça. A rua Qasr Al-Aini, que em tempos mais calmos é uma das vias mais movimentadas da cidade, está fechada não só por muros de concreto, mas também por bloqueios de arame farpado ocupados pelos membros de uniforme preto das Forças Centrais de Segurança, com seus escudos pra controlar tumultos apoiados contra as barricadas. Carcaças de carros incendiados estão estacionadas na via. 

      Os prédios de frente pra Tahrir foram cobertos com novos grafites. Muitas das pichações do primeiro ano de revolução que diziam “Abaixo o regime militar” foram substituídas por “Abaixo o Guia”, uma referência a Mohammed Badie, o “Guia Supremo” da Irmandade Muçulmana. Em um dos muros há uma série de retratos enormes dos “mártires” da revolução, incluindo estudantes e outros jovens mortos nos conflitos recentes. 

      A celebração dos “mártires” é uma característica central no repertório dos protestos revolucionários. Por exemplo, um dos “mártires” retratado em um dos novos murais é Jaber Salah, conhecido pelo apelido de “Gika”, um ativista de 16 anos que foi baleado e morto pelas forças de segurança em novembro. O Museu da Revolução também mostra uma grande impressão colorida de uma foto agora famosa dele. Na imagem, Gika está usando uma camiseta vermelha do Super Homem, montado nos ombros de um camarada durante um protesto, seus braços abertos e a boca aberta no meio de um dos gritos de ordem. “Não vamos te esquecer, Gika”, lê-se no cartaz do museu, completado com a frase “O sangue do mártir vai nos levar à liberdade”.

      Gika teria completado 17 anos no sábado anterior à minha visita. Naquela noite, membros do grupo de oposição “Movimento da Juventude de 6 de Abril” encenou um “aniversário do mártir” num protesto no centro da cidade, com centenas de ativistas batendo em tambores, cantando e balançando uma enorme bandeira com o rosto de Gika.

      Depois de conferir o protesto, voltei andando pelas vizinhanças da Praça Tahrir. De repente, quando eu me aproximava da praça, escutei gritos e depois uma explosão do lado de fora de um grande complexo de prédios que abriga o Ministério do Interior. De um lado do cruzamento, pedras começaram a voar, mirando as tropas da Segurança Central que guardavam o perímetro. Jovens apareceram pela esquina, arrastando cadeiras e detritos variados pra rua. Nas calçadas, havia vidro das janelas quebradas de um quiosque da polícia que ficava na esquina. Do outro lado da via, policiais da tropa de choque se alinharam. Eles começaram a bater ritmicamente seus cassetetes nos escudos. Uma van blindada entrou no cruzamento enquanto oficiais à paisana com rádios fechavam o tráfego na rua.

      E então... Não aconteceu nada. Depois de 15 minutos, o impasse morreu. Os jovens que estavam jogando pedras fugiram noite adentro. A rua foi reaberta ao tráfego em uma das direções, mas as tropas de choque permaneceram nas fileiras bloqueando as ruas que levavam aos portões negros do Ministério do Interior.

      O que testemunhei não foi um dos grandes e telegênicos protestos da revolução egípcia. Foi um dos milhares de atos menores de rebelião contra a autoridade que acontecem no país todos os dias. Um grupo de direitos humanos registrou 3.817 ações de protestos separadas no Egito em 2012, entre paralisações, greves de fome, ocupações, bloqueios de rodovias, invasões de prédios governamentais e até tentativas públicas de suicídio. 

      Muitos desses protestos se centram na piora das condições econômicas. Distúrbios políticos, por sua vez, afastam turistas e investidores estrangeiros. A ansiedade econômica se intensificou quando, numa tentativa de manter as negociações de empréstimo com o FMI, o governo introduziu um novo sistema monetário pra vender de suas reservas de dólares norte-americanos, causando uma queda acentuada no valor da libra egípcia. Na véspera de Ano Novo, as casas de câmbio no distrito de elite de Zamalek estavam lotadas com membros preocupados da classe alta, muitos tentando comprar dólares. 

      O problema é que, enquanto os empréstimos do FMI parecem a maneira mais fácil de estabilizar a economia, a desvalorização da moeda, cortes nos subsídios e outras medidas exigidas pelo FMI podem causar ainda mais problemas pra maioria dos egípcios — veja a Grécia, por exemplo. A pressão sobre os egípcios médios vai apenas desestabilizar a situação aqui ainda mais. 

      O Egito entra em 2013 encarando duas crises interligadas: a política e a econômica. Como o analista Elijah Zarwan me disse: “Morsi enfrenta o mesmo Ardil 22 que Mubarak, só que mais complicado: a economia está doente, mas a cura é mais dolorosa que a doença. Mubarak achava que tinha tempo pra resolver isso. Morsi não tem nem o luxo dessa ilusão”.

       

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      Tópicos: revolução, Egito, Primavera Árabe, Mohammed Morsi, Jared Malsin

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