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      A Verdadeira Fada dos Dentes

      April 13, 2011

      Por Stigsson Stern

      Sim, é feito de dentes humanos de verdade. Dentes de leite, sisos, caninos e molares. Polly van der Glas também usa outros materiais nas suas criações, tipo unhas e cabelos, que, caso você não saiba, são feitos do mesmo material que os dentes: queratina. A Polly vive em Melbourne, e além de adorar ir à praia também gosta de deixar crescer pêlos em “lugares onde não deveria, caso queira continuar sendo considerada atraente pela população em geral”.

      Um dos anéis da Polly, feito à mão; colar com dente siso chumbado; brincos feitos com cabelo

      Vice: Olá Polly. Como você começou a fazer acessórios com dentes, cabelo e unhas?
      Polly van der Glas:
      Comecei estudando Design de Moda, mas odiei, por isso mudei para Políticas de Identidade. Curtia particularmente as disciplinas Arte, Pornografia, Blasfêmia e Propaganda, mas sentia que precisava criar algo com as minhas mãos. A joalheria é um método perfeito, porque é uma arte que se concebe em relação direta com o corpo. Os dentes estão associados a sentimentos, e o seu uso é sustentável. Pessoalmente, não sinto nenhuma ligação emocional com as pedras preciosas, mas uma mexa de cabelo de alguém que amamos ou um dente que perdemos tem uma história de experiência e de individualidade humana.

      Não tem nojo de mexer nos “restos” de outras pessoas?
      Nenhum. Sempre colecionei objetos deste estilo, e os achava extremamente especiais e valiosos. Além disso, cresci num ambiente em que estes objetos eram considerados interessantes. Meu avô, Cedric Mims, escreveu alguns livros, e um deles chama Fouling the Nest: human filth and pollution (Sujar o Ninho: lixo humano e poluição), e tinha a ver com as coisas que jogamos fora, tipo resíduos e objetos feitos pelo homem, e como estes prejudicam o planeta. Os primeiros capítulos falam sobre resíduos humanos—caspa, restos de pele, unhas, cabelo, saliva, lágrimas e fezes. E a minha mãe tinha esculturas em casa feitas com ossos, bicos de pássaros, partes de polvos e cascas de ovos de tubarão que encontrava pela praia.

      Que legal.
      Não faz muito tempo, minha irmã descobriu um golfinho morto na praia e voltou imediatamente pra casa pra buscar serras, facas e sacos na esperança de conseguir cortar partes do cadáver e ficar com os ossos lindíssimos do animal.

      Alguma vez usou seus próprios dentes, cabelo ou unhas?
      Claro! Também usei dentes, unhas e cabelos dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus ex-namorados, dos filhos dos meus amigos, dos meus avós e dos meus colegas de trabalho. Geralmente as pessoas ficam todas contentes quando partes íntimas delas são recicladas e reapropriadas. Nunca compro nada desses restos, o meu trabalho é feito à base de doações.

      Tem algum tipo de dente com o qual prefira trabalhar?
      Os dentes do siso e os molares são perfeitos. São mais largos e maiores, e têm relevos surpreendentes. Infelizmente, o meu dentista não me deixou ficar com os meus dentes do siso quando tirou. Saber que os meus dentes foram incinerados é um desperdício—para mim, os dentes são tão preciosos quanto diamantes. Também gosto quando me dão dentinhos de leite. São fofos.

      Hmm… Diamantes. Isso me faz pensar em anéis de noivado.
      Sim, até já fiz anéis para casais, com dentes um do outro.

      Consegue usar dentes descoloridos?
      Sim, geralmente consigo limpar essas áreas. Apesar de que me sinto como uma dentista quando estou no meu ateliê limpando placas dentárias.

      O teu trabalho tem alguma vertente filosófica?
      Definitivamente. Interesso-me particularmente por estudar o fato de como estes materiais, quando presos ao corpo, fazem parte de rituais de manutenção íntimos e elaborados, e são fundamentais aos valores sociais da beleza. No entanto, quando são removidos do corpo, o seu significado muda drasticamente. Ao descontextualizar estas partes do corpo que geralmente são admiradas e decoradas e ao dar-lhes um novo propósito, colocam-se questões sobre a propriedade, as fronteiras e a natureza da beleza. Quando os usamos, será que pensamos que estes objetos já pertenceram a outra pessoa? Quando vou jantar fora e uso o meu anel de dentes, penso sempre: “Qual foi a última refeição que este dente comeu?” Ou, quando me visto de manhã e coloco os brincos feitos com cabelo, penso: “Que tipo de penteado usava a pessoa de onde vieram estes cabelos?” Criam-se novas relações íntimas e a ideia de sermos proprietários do corpo deteriora-se.

      A primeira coisa que me veio à cabeça quando vi o anel de cabelo foi o quão difícil deve ser comer sem que o cabelo caia na comida. Bom, qual será o seu próximo passo?
      Neste momento, estou fazendo esculturas para uma exposição coletiva chamada The Seductive and Subversive, que vai ser apresentada no Festival de Moda de Melbourne, e também estou colaborando com outros artistas de joelharia num grupo chamado Melbourne Metal Collective, que irá expor brevemente.

      Para ver mais criações da Polly com partes humanas recicladas, clique aqui.

      ENTREVISTA POR STIGSSON STERN VICE ST
      FOTOS: CORTESIA

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      Tópicos: Stigsson Stern, Jóias, Design, Entrevista, Polly van der Glas

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