Carnaval de Topete

By Letz Spindola, Fotos por Johann Stollmeier

Há mais de dez anos, amigos de longa data se encontram em Curitiba e celebram a Festa da Carne ao som de psychobilly. Tem gente de Belém, de Minas, da Holanda, da Alemanha e todos eles se chamam de família. E é praticamente só em festivais como o Psycho Carnival que essa família global se encontra.

No Brasil, a cada ano, o festival fica maior, mais bem organizado e estruturado. O rolê mudou, os topetes estão mais discretos e os creepers mais baixos. O público está mais velho e menos bagunceiro, e não é mais formado só por psychobillies, punks e rockabillies – muitos curiosos e aleatórios também colam, segundo os frequentadores. Eles também se declaram apolíticos e hedonistas, ainda que não com essas palavras. Pra ilustrar, aqui vai uma tradução livre da letra de “Chainsaw Boogie” da banda inglesa The Meteors: “foda-se a política, foda-se a religião, dance com uma motosserra!”.

A “pista de dança” (aka roda de pogo, aka wrecking pit) continua agressiva, mas as polêmicas também estão sumindo. Ao menos no Brasil não tem mais neonazi no rolê, segundo os entrevistados. A lenda de que eles eram bem-vindos acabou e o discurso atual é de que eles nunca foram tolerados.

Meu primeiro Carnival foi em 2003, e desde então acompanho de perto o crescimento do festival, da cena e todas as polêmicas em torno. De volta a Curitiba, revi amigos antigos, conheci muita gente nova e conversei com vários deles sobre como anda o psychobilly no Brasil e no mundo. Tudo isso regado ao chopp da cervejaria do organizador do festival, com o sugestivo nome de Diabólica e teor alcoólico de 6,66%.
 

Rogério Andrade (Pixixo)
34 Anos
Eletrotécnico
Belo Horizonte – MG

VICE: Há quanto tempo você frequenta o rolê?
Rogério: Especificamente em Curitiba, eu venho regularmente desde 2003.

Mas antes você já ouvia psychobilly em Belo Horizonte?
Desde 2000 eu já frequentava os shows dos Baratas Tontas.

Como você conheceu?
Conheci através de filmes do Petter Baiestorf [cineasta brasileiro de filmes de terror underground]. As trilhas sonoras tinham psychobilly e depois eu descobri que uma das bandas das trilhas era de Belo Horizonte, os Baratas Tontas.

Como você define o psychobilly?
É uma coisa muito apolítica, com muita diversão e amizade. Independente de qualquer coisa, é diversão!

Você acha o visual importante?
Eu acho importante pra identificar o estilo. Eu não tenho visual, mas eu gosto.

Você acha que o rolê hoje está muito diferente de antigamente?
Acho. O público está mais diversificado, e não um público preocupado com o visual e nem com o rolê específico. A galera vem pelo esquema de ter uma opção ao Carnaval que está acostumado, sem ter axé, samba ou esse tipo de coisa.

Quem frequenta hoje?
Tem todo mundo, um pouco de punk, de hardcore, de metal e, acima de tudo, de psychobilly mesmo. Mas abrange os outros estilos.

Já presenciou alguma treta?
Já presenciei há alguns anos atrás. Entre 2003 e 2006 tinha esse tipo de atrito. Aqui em Curitiba tinha uma turma de carecas que frequentavam o Psycho Carnival. A princípio não iam pra arrumar briga, mas no desenrolar dos shows tinha os wreckings (espécie de mosh pit dos psychobillys) e era inevitável. Eles entravam no meio do wrecking e acabava em confusão. E tinha a questão de que o Gus Tomb, que tocava n'Os Catalépticos, a principal banda da época, andava com os carecas, então tinha essa divisão. Eu cheguei a ver esse tipo de desavença, eram casos isolados mas tinha.

E você já se meteu em alguma confusão?
Não cheguei a me meter diretamente, mas eu tocava com os Scary Scums em 2006 e o nosso show foi interrompido porque estava rolando uma briga do lado de fora do Jokers [casa de shows que recebeu várias edições do Psycho Carnival], dos carecas contra os psychobillys, e o Vlad [organizador do festival] pediu pra parar o show. Aí a gente parou o show sem saber o que estava acontecendo, depois é que ficamos sabendo que tinha uns carecas batendo num pessoal. Isso acontecia regularmente, mas de 2006 pra cá não aconteceu mais.

E a polícia?
Sempre foi tranquila, nunca tivemos problema.

Como é ser psycho no Brasil?
De alguns anos pra cá, aconteceu uma reviravolta. Tem uns festivais grandes como Goiânia Noise, BH Rumble, Riobilly, então eu acho que cresceu bastante. O psychobilly expandiu e além do Psycho Carnival aqui em Curitiba, sempre tem shows em SP e no Rio, principalmente. A cena cresceu bastante.

Qual o melhor show até hoje?
Aqui em Curitiba foi o Batmobile, em 2006.

Alguma história engraçada, bizarra em todos esses anos?
Achei engraçado o show do Mad Sin em 2008 porque eu estava muito louco antes do show.  Porque a gente bebe cerveja durante o dia todo e eu fiquei batendo naquela tecla: “Vai ter o show do Mad Sin e eu muito louco”. Quando chegou a hora do show do Mad Sin todo mundo ficou tranquilo, mas ficou muito quente porque estava muito cheio. O teto do lugar pingava suor nas pessoas, e o mais incrível é que a gente não aguentava ver o show de tanto calor. Mas o Mad Sin continuou pulando, tocando e fazendo um puta show, foi isso que me fez ficar até o fim.


Carolina Sant’ana Salmazo (Carol Baby Rebel)
23 anos

Professora de Inglês
Curitiba – PR

Há quanto tempo você frequenta o rolê?
O rolê psychobilly desde 2005, mas eu tô no rolê underground desde que eu tenho 12 anos, em 2000.

Começou onde?
Comecei no punk, eu tinha banda.

Como você conheceu o psychobilly?
Em 2005 eu tocava no Rising Scum com o Bufunfa [figura clássica do rolê psychobilly no Brasil], e eu já sabia o que era psychobilly, mas nunca me interessei tanto, estava em outras piras na época. Com o Rising Scum eu comecei a entender melhor o que era o psychobilly e a diversão que ele proporciona.

O que é o psychobilly pra você?
Primeiramente a música, porque é muito importante pra mim o impacto que o psychobilly tem musicalmente.  Eu aprendi muito na guitarra com o estilo. Mas também tem o lado da diversão. Não é a política que divide as pessoas, só amizade e curtição.

Você acha o visual muito importante?
Não acho. Conheço gente que é muito mais psychobilly do que muitas outras pessoas que têm topete. Eu mesma não tenho visual completamente psychobilly. Curto muitas coisas, mas amo psychobilly acima de tudo e ao mesmo tempo não preciso usar isso pra dizer que gosto. Eu sou psychobilly, mas não preciso usar topete pra demonstrar isso. Psychobilly precisa de música e gente que toque o som.

Você acha que a cena mudou desde quando você começou até agora?
Muito, eu não tô no rolê há tanto tempo, mas já dá pra perceber. Antes eu vinha no Psycho Carnival e conhecia todo mundo. Hoje, não que isso seja ruim, mas eu não conheço muita gente.

Mas na verdade é bom, não?
É bom, eu não me sinto tão à vontade quanto antes, mas é uma galera nova. Vamos ser realistas, a cena precisa de grana e isso traz movimento e audiência, então é ótimo.

E quem frequenta?
Todo mundo, a não ser nazis. Nazi não entra faz muito tempo, quem se opõe ao psychobilly e arruma muita treta está fora. De resto, todo mundo é muito bem vindo, principalmente pela questão do psychobilly ser apolítico. Todo mundo é bem vindo a não ser que não queira se divertir.

E brigas? Já presenciou?
Já, mas nada muito grave. As brigas sempre acontecem longe de mim, mas às vezes acontece de ter um babaca ali no meio, gente que não entende. No wrecking as pessoas se “batem”, mas é por causa da música e da diversão.

E o que é o wrecking pit?
É uma roda onde todo mundo se empurrra e se bate, mas ninguém se machuca. É como se fosse o pogo ou mosh pit do psychobilly.  Todo mundo fica se batendo, mas se você cai, a galera te levanta e tudo. Tudo isso por causa da energia da música. Tem gente que não entende isso e acha que é ali que vai extravasar toda raiva que ele tem do mundo,  e acaba batendo e arranjando briga por nada. Até hoje tem gente que pensa que no psychobilly vai entrar galera nazi, porque não nos importamos com política, mas isso é uma mentira tremenda e essas coisas não dá pra tolerar.

Sua banda, As Diabatz, já tem quantos anos?
Sete anos.

E vocês já rodaram muito pelo Brasil?
Muito, a gente foi pro Pará, Tocantins, Minas...

E como foi tocar nesses lugares que não são como Curitiba e não têm essa cena?
Foi surpreendente porque a gente viu gente que é tão psychobilly quanto a gente, que ouve os mesmos sons que a gente. E eu não imaginava que ia encontrar isso, porque alguns anos atrás não tinha isso, era só São Paulo, Curitiba, Londrina, Belo Horizonte e olhe lá. E agora nós fomos pro Pará e ficamos surpresas, um monte de meninas curtindo o som, com visual, cantando as músicas da banda. Acho que as Diabatz fizeram muita diferença nesse sentido, de levar o som pra fora.

Vocês já foram várias vezes pra gringa também, como é por lá?
Na primeira vez que a gente foi, ficamos maravilhadas com tudo – público, visual, organização, estrutura, tudo muito acessível. Mas agora aqui está ficando bem parecido com o que rola lá.

Você acha que estilos como psychobilly, metal e hardcore têm mais abertura na gringa do que outros estilos?
Tem sim, se não fosse o psychobilly eu não teria viajado tanto na minha vida. Rola um intercâmbio fodido na cena e foi muito fácil conseguir reconhecimento e contatos porque a cena não é tão grande. Isso facilita pras bandas, principalmente as que cantam em inglês.

Em quantas edições do Psycho Carnival você já veio?
Desde 2004, todos os anos.

Qual foi o melhor show?
Batmobile.

Quais outros festivais de Psychobilly você já foi?
Psycho Fest, aqui em Curitiba mesmo, Psychobilly Meeting, na Espanha, e o Psychobilly Earthquake, na Alemanha. E fomos também pro Rat Rock na Bélgica, um festival enorme que não é só psychobilly, tem muito punk rock também.

E você acha que os festivais brasileiros já estão quase no nível dos gringos?
Falta pouquíssimo. Falta só o hábito mesmo, porque a organização já tem.
 

Reverend Beat-Man
Fundador e Presidente da Voodoo Rhythm Records, One Man Band e vocalista da banda The Monsters
50 anos
Suíça

Como anda o Voodoo Rhythm, seu selo?
Está ótimo, é o melhor selo do mundo na minha opinião.

Ele existe há quantos anos?
Sempre esqueço isso, mas acho que faz 20 anos.

E quantas bandas estão no catálogo da Voodoo?
Também sempre esqueço, mas são mais de 30. Bandas do mundo todo – Brasil, América, Suíça....

Qual banda brasileira está no catálogo?
Thee Butchers Orchestra.

Esta é a segunda vez que vocês vêm ao Brasil, notaram alguma diferença?
Notamos que vocês têm mais dinheiro. São Paulo é muito cara, mais cara que a Suíça. Notamos mais fãs de rock 'n' roll e muito mais drogas, drogas baratas, crack... Não foi muito bom ver isso. E lindas garotas, claro.

E o Psycho Carnival, o que estão achando?
Está ótimo! Muito bem organizado, com a Zombie Walk e as outras atividades, dá pra ver que eles tentam englobar várias coisas e não é só outro festival chato. Tem rockabilly, psychobilly, surf music, garage... Está muito bom.

As coisas podem ficar bem selvagens nos seus shows, você pode me contar alguma história das bizarrices que já aconteceram?
Sempre esqueço delas, acho que ele sabe.

Di Putto (baterista): Uma vez o Beat-Man estava assoando o nariz e o catarro caiu na sua camisa e ele pegou e passou no cabelo.

Beat-Man: Mas as pessoas ficam peladas no palco o tempo todo. Tinha também o nosso show de luta. As pessoas subiam e brigavam com a gente, todo mundo pelado e quebrando tudo. Da última vez que estivemos aqui no Brasil, as garotas sentaram na minha cara enquanto eu tocava. Mas normalmente sou uma pessoa tímida.

 

Renato Cunha (Renato Purkhiser)
33 anos
Marinheiro
Belém – PA

Há quanto tempo você frequenta o rolê?
Na minha cidade desde 2000, o rolê punk rock. Em 2008 comecei a frequentar o Psycho Carnival.

Conheceu como?
Já conhecia algumas bandas como Reverend Horton Heat, The Cramps, The Meteors, mas não sabia muito sobre a cena em si. Aí eu vi o Musikaos [extinto programa da TV Cultura] com Os Catalépticos e descobri que tinha uma cena no sul do Brasil, em Curitiba, e comecei a me interessar mais pelo assunto.

E lá em Belém, tem muita gente que curte?
Sim, depois que eu comecei a fazer esse rolê, vi que minha cidade não tinha nada, então decidi montar um coletivo, chamado This is Radio Trash, junto com meus amigos que tinham um gosto parecido com o meu, e começamos a levar bandas de Londrina, São Paulo, Curitiba e outros lugares, e tivemos uma resposta legal do público. O legal é que o norte do Brasil despertou curiosidade nas bandas, sempre rola o papo de que o norte é um Brasil diferente. As bandas ficam muito interessadas em tocar em Belém.

E o público depois dessas festas?
O público começou a aparecer, gente que se formou ali no início das festas e gente que estava escondida por aí e foi aparecendo.

Já levaram banda gringa pra lá?
Fizemos o festival Mongloid no ano passado e levamos o Dead Elvis (Holanda) e o Great Munzini (India).

Você acha que o rolê mudou muito desde que você começou?
A cada dia a internet tem um poder maior, principamlente pra essa geração mais nova. Acho que tem cada vez mais gente nova, o problema é que esse público é muito maleável. O pessoal está curtindo o som um ano e no outro já descobriu outra coisa.

Quem frequenta?
Tem de tudo, ska, psychobilly, metaleiro...

E brigas? Já viu muitas?
Não muitas. A maioria por causa do wrecking pit, alguém que estava muito bêbado, não entende o propósito e arranja confusão. Mas nada grave.

Tem alguma história absurda?
Na segunda vez que eu vim pro Psycho Carnival, pedi pra uma amiga minha fechar uma porta no meu dedo, pra que eu conseguisse um atestado médico e ser liberado do trampo. Deu certo.


Mary Piercer e Anderson Véio
Body Piercer e Tatuador
24 e 27 anos
Curitiba
 – PR

Há quanto tempo vocês frequentam o rolê?

Véio: Uns 10 anos.
Mary: Aqui em Curitiba há uns seis anos, mas sou do interior de SP e frequentava lá antes.

Como vocês conheceram o estilo?
Véio:
Conheci através de um show no Musikaos, com Os Catalépticos e os Kães Vadius.
Mary: Através de amigos que me mostraram uns vídeos do Demented Are Go.

O visual é muito importante?
Véio:
Pra mim, é meu estilo de vida.
Mary: Nós somos assim o dia todo, até dentro de casa.

Vocês são casados há quanto tempo?
Ambos: Casamos mês passado!

Já se meteram em confusões?
Véio: Já, duas vezes. Mas sempre por causa do wrecking, por causa de pessoas que não entendem o que é.

Como é ser psychobilly no Brasil?
Véio:
Hoje em dia é mais fácil, antes era difícil. Por causa da internet as pessoas já conhecem. Hoje até mendigo na rua sabe o que é, a gente anda na rua e o cara grita “Ô, psychobilly!”.

Em quantas edições do Carnival vocês já vieram?
Véio: 
É minha décima segunda edição.
Mary: Sexta.

Qual foi o melhor show até hoje?
Véio:
The Monsters, o de 2003 e o de agora.
Mary: Klingonz.

A cena mudou muito de quando vocês começaram?
Mary:
Sim, aumentou o público.
Véio: E o valor, né? Antes você pagava quinzão entrava e tomava cerveja. Agora você paga 180 reais.

Mas são mais bandas, não?
Véio
: Sim, antigamente era uma banda de fora pra todo festival, agora tem pelo menos uma em cada noite.
 

Billy Tombstone
44 anos
Assistente Administrativo
Alemanha

Há quanto tempo frequenta o rolê?
Desde 1984.

Como conheceu?
Eu escutava muito heavy metal e bandas góticas como Sisters of Mercy, The Cure e muito punk. Foi quando o Stray Cats surgiu e eu arranjei um disco do Meteors. Eu fiquei fascinado com a música e comecei a procurar mais bandas de psychobilly como o Krewmen. Quando eu tinha uns 17 anos, consegui ir a um show do Krewmen e foi ali que vi que estava completamente arruinado pra qualquer outro estilo musical.

Você acha que o visual é importante?
Se você é psychobilly, não, não é importante como você se apresenta. Tenho amigos que parecem comuns e que são muito mais psychobillys do que qualquer modinha. Ser psychobilly não é nada que você pode comprar, você apenas é. Ouço essa merda há 30 anos, já está ficando chato isso de que você tem que parecer psychobilly pra ser um. Se não me acham com cara de psychobilly, eu não ligo, me chame do que quiser.

Como eram as confusões com a polícia nas antigas?
A polícia não sabia lidar com a gente e tentava parar os psychobillys e... Bom, às vezes merdas acontecem.

É sua primeira vez no Brasil? Está gostando?
Sim, só vim pro Psycho Carnival. É estranho, quando eu disse que viria pro Brasil, todos ficaram dizendo: “Ah, você vai ouvir samba, vai sambar e vai pra praia!”. E não tem nada disso aqui em Curitiba, mas é adorável.

Sei que você frequenta muitos festivais, pode me dizer a diferença dos festivais lá de fora em relação ao Psycho Carnival?
As bandas brasileiras são mais duronas, mais agressivas, gritam mais do que as europeias. As pessoas são ótimas. Tenho que admitir que, quando vou pra Espanha pro Psychobilly Meeting, por exemplo, tem pessoas do mundo todo e, pra mim, todo mundo é família. Nós compartilhamos os mesmos interesses. Aqui é um pouco difícil por causa da barreira da língua, é difícil achar pessoas que falam inglês, mas de resto é quase a mesma coisa, como ir pra qualquer outro lugar. Vários brasileiros que estão aqui vão direto pros festivais lá fora e já são família também.

Quais suas bandas brasileiras favoritas?
Sick Sick Sinners, Ovos Presley e, tenho que admitir depois do show de ontem, o Crazy Horses e, sem dúvidas, As Diabatz. Eu viajei com elas em turnê, ficamos amigos e é claro que elas não podem faltar.

De todas as bandas que você viu até hoje no Psycho Carnival, qual foi o melhor show?
Crazy Horses, não os conhecia antes do show e eles são foda pra caralho. Sick Sick Sinners são sempre bons. As outras bandas brasileiras são OK pra mim, mas não impressionaram tanto. The Monsters fez um show ótimo, não gosto deles musicalmente, mas respeito os caras como músicos e fizeram um ótimo trabalho.

Já que você rodou muitos festivais todos esses anos, você pode me contar qual foi a coisa mais absurda que já aconteceu por aí?
Foi com certeza meu primeiro festival na Bélgica, em 1988, porque tudo aquilo que conversamos sobre polícia, brigas e tudo mais aconteceu lá. Até hoje tenho imagens na minha cabeça que nunca vou esquecer.

Muitas coisas estranhas acontecendo, por exemplo, chegamos uma noite antes do show nessa pequena cidade e a polícia ficava rondando a noite toda e, toda vez que viam um psycho, pegavam o cara, colocavam no carro, levavam pra fora da cidade e os jogavam lá, na estrada. Eles passavam a noite toda fazendo aquilo. Simplesmente não sabiam o que fazer com a gente. Eles pensavam que a gente estava invadindo a cidade deles e tentavam se livrar da gente. A polícia fez barricadas nas portas pra gente não entrar. Isso é só uma parte das coisas estranhas que acontecem.
Isso é o que eu quero dizer, era diferente antigamente. Como éramos poucos, as pessoas ficavam nervosas porque não sabiam o que esperar de nós. Eu acho que eles esperavam um motim ou coisa do tipo e a gente só estava lá por causa da música, pra beber algumas cervejas e curtir. No fim das contas foi difícil e doeu, mas se não dói não vale a pena.


Bjorn e Katharina
39 e 40 anos
Músico e Web Designer
Alemanha

Há quanto tempo vocês frequentam o rolê?
Bjorn: Comecei em 1987. Comprei minha primeira fita e desde então estou infectado.
Katharina: Eu comecei em 1989, mas dei um tempo de cinco anos de lá até agora.

Como vocês conheceram o estilo?
Bjorn:
Alguém me deu uma fita do Krewmen e do Meteors e eu vendi todos meus discos de metal.
Katharina: Eu era punk e conheci alguns caras psychobilly e fui infectada.

O visual importa?
Bjorn:
Não. Está dentro da sua cabeça. Não ligo se você não quer parecer, mas eu adoro raspar minha cabeça e usar meu topete.
Katharina: Eu não pareço uma psychobilly!

Vocês já se meteram em muitas brigas?
Bjorn: 
Nos anos 1980 e 1990 tinha muita briga acontecendo.
Katharina: As brigas rolavam entre os psychobillies, entre o wrecking crew (Fãs do Meteors) e os punkabillys. A gente sempre tinha que ficar tomando cuidado pra não atravessar o caminho uns dos outros.

E vocês eram punkabillys?
Bjorn:
Sim, mas é tudo psychobilly no fim das contas.

Vocês vêm pro Brasil com frequência, certo? Em quantas edições do festival vocês já vieram?
Bjorn:
A primeira vez que viemos foi em 2003, quando eu toquei com o Chibuku. Depois disso, voltamos umas 7 vezes pra cá. Com o Chibuku viemos três vezes e, ano passado, com o Wreck Kings. Meu irmão se apaixonou por uma menina brasileira e mudou pro Brasil, é um carioca agora.
Katharina: Agora temos família pra visitar aqui no Brasil.

Vocês acham que o festival mudou desde a primeira vez que vieram em 2003?
Bjorn: 
Sim, muito. Está ficando maior.

E melhor?
Bjorn: 
Boa pergunta. Bom, eu gosto mais das cervejas em lata do que as que tem aqui agora, mas a coisa está mais profissional e organizada. Tem mais bandas de fora vindo pro Brasil.
Katharina: Agora está mais psychobilly. Há 10 anos tinha mais punks, cabeludos e pessoas diferentes, aleatórias. Agora tem mais público psychobilly mesmo.
Bjorn: Mas ainda tem muitos “freaks” por aqui. Metaleiros, punks e outros. Mas está tudo bem, é tudo rock 'n' roll!

Vocês gostam de muitas bandas brasileiras? Quais?
Bjorn: Quase todas! D'Os Catalépticos, somos amigos desde 1997. As Diabatz, Big Trep, Brown Vampire Catz, Billy Bastardos, The Krents, Ovos Presley.
Katharina: Pra mim são As Diabatz, Sick Sick Sinners e Ovos Presley.

Vocês acham que aqui no Brasil temos mais dificuldades pra ser uma banda, produzir um festival?
Bjorn: Não, não mais. Agora é quase a mesma coisa, porque sempre é difícil pro underground em qualquer lugar. Pra nós na Europa só é mais fácil porque os países são mais próximos.
Katharina: O Brasil é muito grande, do tamanho da Europa inteira, acho que é sim um pouco mais difícil.
Bjorn: É por isso que o Psycho Carnival é tão importante, porque todo mundo vem, do Brasil todo. Antes eram só três dias, agora o festival tem quase uma semana, está ficando cada vez mais louco.

Como as bandas brasileiras são recebidas lá fora?
Bjorn:
Quando as músicas são em português, é muito difícil. Mas bandas como Sick Sick Sinners e As Diabatz, com inglês impecável, se dão muito bem. Mas imagine o Ovos Presley indo pra Europa, todos iriam adorar a música, mas não entenderiam nenhuma palavra. Esse é o único problema, a língua.
Katharina: A Europa não é mente aberta o suficiente pro português.
Bjorn: É, mas, pra uma banda francesa é difícil também tocar no resto da Europa, já que eles cantam em inglês.
Katharina: Não é só no Brasil. As bandas espanholas, por exemplo, também têm dificuldade em qualquer outra língua que não o inglês.

Alguma história bizarra de algo que presenciaram ao longo desses anos?
Katharina:
Nós temos um apanhado de várias histórias absurdas. Como um cara que virou um cinzeiro cheio dentro do seu copo de cachaça e depois tomou... 
Bjorn: É, são várias histórias absurdas. Difícil escolher uma só. Eu, por exemplo, nunca vou esquecer a primeira vez viemos pro Brasil com o Chibuku, as pessoas amaram e nós também, foi impressionante.
Katharina: O show no Rio de Janeiro foi num lugar cheio de pessoas vestidas de preto, metaleiros e nenhum psycho. Quando o Chibuku entrou no palco, todos com aquela cara de “que porra é essa?” e, depois de duas músicas, todo mundo estava pirando e curtindo muito o show.
Bjorn: Isso é muito legal no Brasil, nunca aconteceria na Alemanha. Só tinha banda de metal e nós de headliner, ficamos com medo, mas foi demais.

Há quanto tempo vocês estão juntos?
Katharina: 
12 anos.

Como vocês se conheceram?
Bjorn:
Eu e meus amigos fomos pra Inglaterra num festival e um dos meus amigos conheceu ela por lá. Um ano depois fomos pra Áustria e ficamos na casa dela durante o festival, porque esse meu amigo a conhecia. Mas nós éramos muitos novos, morávamos muito longe e éramos muito quebrados. Ela ficou longe dos festivais por uns anos, perdemos contato e depois ela voltou aos festivais. Desde então, ficamos juntos.

 

Wally
35 anos
Geólogo
Curitiba – PR

VICE: Há quanto tempo você frequenta o rolê?
Wally: 
Dez anos.

Como você conheceu?
Um vizinho meu me disse que teria show de uma banda chamada The Monsters e me chamou pra ir. Eu fui e acabei conhecendo as pessoas, outras bandas e estou nessa até hoje.

E o visual? É importante?
Tô nessa há muito tempo, já fui pra vários festivais e nunca tive visual. Pra mim, o importante é a música. Acho divertido visual, mas não é o mais importante.

A cena está diferente de quando você começou pra agora?
Muito diferente, quando eu comecei só tinha marmanjo e mulher feia.

Agora tem mulher bonita?
Muita mulher bonita.

E quem está frequentando o rolê?
Tem psychobilly, punk, skin trad.

E skin nazi?
Que eu saiba não entra, e ainda bem que não.

Você já foi pra vários outros festivais, né? Quais?
Já fui duas vezes pro Psychobilly Meeting na Espanha, Satanic Stomp e Psychobilly Earthquake na Alemanha, Bedlam Breakout na Inglaterra, esse ano vou pro Klub Foot nos Estados Unidos e pro Psychobilly Rumble na Alemanha.

Qual a diferença desses festivais na gringa pros brasileiros?
Pra mim, quase nenhuma diferença, o tipo de pessoal é o mesmo. Só muda a quantidade de pessoas. No Psychobilly Meeting na Espanha, por exemplo, vai muito mais gente.

E lá fora, você viu muita briga?
Só vi uma quase treta na Alemanha, num show do Meteors, um neonazi enchendo o saco. Estava do lado de fora arranjando encrenca, chamaram a polícia e ele foi levado.

Os gringos gostam das bandas brasileiras?
Sim, bastante. Alguns deles têm dificuldade por causa da língua, mas mesmo assim adoram o som.

E qual banda brasileira eles gostam mais?
Os Catalépticos e Sick Sick Sinners.

Qual o melhor show que você viu ao longo desses anos?
King Kurt, minha banda preferida.

E aqui no Psycho Carnival?
Este ano foi o Caravans e o Monsters. E o Ovos Presley que sempre está na liderança. De todas edições foi o Frenzy e o Ovos, sempre.


Gabriela e Luís
23 e 20 anos
Designer e Estudante
Curitiba – PR

VICE: Vocês frequentam o rolê desde quando?
Gabriela:
Desde 2004, tinha 14 anos.
Luís: Desde os sete anos de idade.

Como vocês conheceram o estilo psychobilly?
Gabriela: Minhas primas adoravam Os Catalépticos e um dia me levaram pra Punktoberfest e eu pirei. Na época eu era punk, mas depois desse show virei psychobilly e tô aqui até hoje.
Luis: Eu devia ter uns seis anos e meu primo era bem amigo dos integrantes d’Os Catalépticos, daí um dia ele me levou num ensaio da banda. Foi o primeiro contato que eu tive com música ao vivo.

Você tem banda, Luís?
Luis:
Tenho três bandas. Uma de punk rock, uma de hardcore melódico e outra de hardcore mais pesado.

Quem frequenta?
Gabriela:
Curitiba é meio difícil de definir porque a galera cola mais nos shows grandes. Nos shows menores é mais panelinha mesmo. Mas nunca é só psychobilly, tem skin, punk e outros. Psychobilly é como se fosse o refúgio, porque acaba todo mundo colando.
Luís: O psychobilly dá essa liberdade, não tem aquela de que só pode quem é psycho.

Já presenciaram muita briga?
Gabriela: 
Sim, antigamente era quase regra, todo Carnival tinha treta.

Treta de quem com quem?
Gabriela:
Sempre tinha uns nazis, e a galera dava uns “corridão” neles.
Luís: Mas nos últimos anos está bem tranquilo.

Em quantas edições do Carnival vocês já foram?
Gabriela:
Todos os anos desde 2005.
Luis: Eu nem tanto...

Melhor show de todos os Psycho Carnivals?
Gabriela:
O último do Catalépticos em 2006, Nekromantix e Batmobile. Deste ano, até agora, foi o Caravans.
Luis:  Frenzy e Klingonz. Deste ano o Caravans também.

Já foram pra festival na gringa?
Gabriela:
Sim, eu já fui pro Rebellion, o maior festival punk do mundo, e tinha muito psycho também.

E viu muita diferença?
Gabriela:
Sim, lá a galera não liga muito pra visual. Não parece desfile igual aqui.
Luis: Lá é todo mundo misturado e não tem treta. Todo mundo meio junto, punk, psycho, skin...
Gabriela: Mas é meio "paia" porque tem uns nazi que colam também e ninguém faz nada.

Mas eles arranjam confusão?
Gabriela:
Não, não fazem nada.

Tem alguma história bizarra pra contar?
Gabriela: 
No Psycho Carnival de 2005, eu lembro que o G-Lerm [vocalista dos Chernobilles] foi pular do palco e caiu no chão. Só tinha um cara pra segurar e é claro que ele não deu conta. Ele caiu e se machucou todo, estava bem louco, claro.

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