Conversei com os Manifestantes Anticasamento Gay em Paris

By Thomas Bertrand, Fotos por Elsa Toporkoff

De acordo com um estudo recente realizado pelo Instituto Francês de Opinião Pública, 61% da população francesa apoia o casamento gay. Dito isso, não menos que 350 mil manifestantes — 800 mil segundo os organizadores — de toda a França se reuniram nas ruas de Paris no último domingo pra expressar sua relutância contra os planos do governo de legalizar o casamento gay. 

Como eu não estava fazendo nada mesmo no domingo, resolvi me juntar aos manifestantes pra gritar coisas altamente ofensivas sobre gente normal que só quer a oportunidade de declarar seu amor do jeito convencional. Porque isso é coisa do capeta e vai fazer a sociedade como conhecemos desmoronar num poço sujo e devasso de abominação e fazer todas as crianças ficarem gays, ou algo assim. 

A marcha começou na Place d'Italie e terminou, quatro horas depois, no Champ de Mars, bem perto da Torre Eiffel. As pessoas gritavam coisas como “Não confundam nossas barrigas com carrinhos de compra” e “A posteridade não é ficção”, mas a coisa toda foi extremamente calma. Tão calma, na verdade, que os organizadores tiveram que tentar umas quatro vezes até conseguir envolver as pessoas no maior flashmob de “Gangnam Style” da história. Sim, quando o dia não podia ficar mais chato e enjoativo, aconteceu isso aí. 

O mais interessante, no entanto, é que a multidão não era formada apenas por católicos e religiosos conservadores. Pessoas de todos os lados do espectro político estavam lá, membros de todas as grandes religiões e até mesmo alguns homossexuais. Parecia que todo mundo tinha suas próprias preocupações que, obviamente, eram as opiniões certas. Sendo assim, fui falar com as pessoas sobre essas opiniões e sobre por que elas escolheram passar o domingo protestando contra uma lei que não vai impactar a vida delas de nenhuma forma tangível. 

 


VICE: Ei, Thibault, que diabos você está fazendo aqui?
Thibault: Estou aqui pra preservar os valores da nossa nação. Desde o começo da humanidade, a vida sempre foi uma questão entre o homem e a mulher; pais, mães. Nunca vimos um homem dar à luz uma criança. Casamentos só devem ser possíveis pra casais heterossexuais e as pessoas gays deviam se contentar com o PaCS (Pacte Civil de Solidarité). 

 

Entendo. Então aposto que você apoia o direito dos casais gays adotarem, certo?
Não. Uma criança precisa de um pai e uma mãe. Se o governo legalizar o casamento gay, o próximo passo será a adoção, e isso é inaceitável. Não acho que pais não-biológicos devam ter os mesmos direitos sobre uma criança do que os pais biológicos.

 

 

O que você está fazendo nas ruas hoje?
Mireille: Bom, casamento pra pessoas gays? E depois o quê? Me diz, casamento entre irmãos e irmãs? Gatos e cachorros? Essa lei é um erro terrível.

 

E o que você acha de dar aos casais gays o direito de adotar filhos?
Meu amigo está esperando pra adotar uma criança há muitos anos, então acho que pessoas normais deveriam vir antes. Vamos pensar sobre os casais gays depois. E uma criança não consegue se desenvolver de maneira saudável com pais homossexuais.

 

Isso mesmo, todo mundo que eu conheço que tem dois pais é assassino psicopata. 

 

 

Marie, 6, e Romane, 7.

 

Marie, o que você acha sobre a legalização do casamento gay?
Marie: Não é uma boa ideia porque uma criança não pode ter uma boa educação com dois pais ou duas mães.

 

Obrigada, Marie. E você, Romane?
Romane: Acho que é ruim pra educação das crianças. E acho que se o pai é mais rigoroso que a mãe, isso não é bom pra criança. Quer dizer, é bom pra criança, mas se a criança tem duas mães rigorosas, isso não é bom pra ela. 

 

O que seus pais andaram dizendo pra vocês? :(

 

 

O que há de errado na lei de Christiane Taubira?
Gersande: Primeiramente, quero dizer que ninguém aqui é homofóbico. Não temos nenhum problema com dois homens ou duas mulheres que se amam. Mas o ponto do casamento é proteger os filhos, e se legalizarmos o casamento gay hoje, vamos legalizar a adoção por casais homossexuais amanhã. E depois a tecnologia de reprodução assistida, e a fertilização em vitro. 

 

Meu Deus, é verdade, ajudar as pessoas a terem filhos é mau. Mas muitos países da Europa já aprovaram essa lei. Você não acha que a gente está um pouco atrasado e que deveríamos tentar acompanhá-los?
Não acho que estamos atrasados, não. Não deveríamos nem pensar em alterar a estrutura fundamental do casamento.

 

OK. E se um dos seus filhos se tornar homossexual? O que você vai fazer?
Bom, vou dizer que ele é livre pra fazer o que quiser, mas que nunca vai se casar e nunca vai ter filhos. É assim que a natureza funciona. Mas, de qualquer forma, meus filhos vão ser educados de tal maneira que nunca vão ser homossexuais.

Ah é, esqueci que isso é uma escolha. Ops!

 

Você é contra o casamento gay?
Yoro: Olha, estamos falando sobre o futuro da humanidade aqui. Acredito pessoalmente que legalizar o casamento gay é o primeiro passo pra legalização da adoção por casais homossexuais. E isso é perigoso pras crianças. As crianças vão se tornar como eles: homossexuais. Só as mulheres podem gerar uma criança. É assim que a natureza funciona. Não dá pra criar uma criança quimicamente; isso significa que ela não é um ser humano.

 

Espera — você está insinuando que crianças geradas por fertilização in vitro são imaginárias?
Não, claro que não. Elas só não contam como humanos de verdade.

 

Não sei o que dizer. Você se importaria de ter um filho gay?
Ele é livre pra ser o que quiser. Não o impediria de ser homossexual. No entanto, eu deixaria claro que não fico feliz e faria qualquer coisa pra que ele se tornasse heterossexual de novo.

 

É, ouvi mesmo falar que esses acampamentos só de gays ajudam a curar a homossexualidade.

 

 

Por que você está protestando aqui hoje?
Marion: No passado, as pessoas já tinham me avisado sobre isso e tinham razão em fazê-lo. Elas sabiam que as coisas podiam sair errado. Casamento gay não é casamento. Na verdade, é o fim do casamento. É normal pra um homem casar com uma mulher. Hoje em dia, as pessoas querem normalizar tudo e homogeneizar as culturas. No nível político, estamos rumando ao fim da nossa nação. Todos os países serão reduzidos a um único país e vamos nos tornar consumidores ingênuos. No nível social, fazer sexo vai se tornar algo tão comum quanto comer ou sair pra fazer xixi. A evolução dos costumes através dos anos vai levar à desumanização inevitável da sociedade — é horrível. 

 

Considerando a situação social e econômica atual, você acha que é hora de debates como esse? Isso realmente importa?
As pessoas que querem arruinar nosso país veem isso como uma questão importante e elas sabem que agora é o momento certo pra aprovar essa lei. E também não vejo isso como uma questão secundária. Legalizar o casamento gay significa destruir o conceito de família. Essa questão está no coração do sistema de destruição da nossa sociedade. 

 

 

Por que você saiu às ruas hoje?
Christian: Tenho seis filhos e oito netos. Estou aqui pra proteger o conceito de família, que é a base da sociedade. 

 

Todos os seus filhos são heterossexuais?
Pelo que eu sei, sim.

 

E se acontecesse de um deles ser gay? Como você reagiria?
Eu ficaria triste por ele, porque é difícil ser homossexual na nossa sociedade.

 

Protestos como esse não tornam isso ainda mais difícil? 
Não. Não estamos protestando contra os homossexuais, estamos aqui pra manter as legislações de casamento do país. Não queremos culpar as pessoas por suas tendências homossexuais. Não é culpa delas. Tive amigos homossexuais que sofreram muito. É um verdadeiro fardo ser gay. No entanto, não acho uma boa ideia alterar os princípios fundadores da nossa sociedade com a legalização do casamento gay.

 

 

Ahmed (esquerda) e Véronique.

 

Por que vocês escolheram protestar hoje ao invés de sair pra fazer compras nas liquidações?

Véronique: Acabei de voltar da Martinica, onde as autoridades tiraram meu filho de mim. É por isso que estou aqui protestando. Não quero que pessoas gays adotem meu filho. 

 

O que você tem contra eles?
Não tenho nada contra eles — sou muito tolerante com pessoas assim. Mas eles continuam pedindo mais e mais. Não reclamamos quando eles se beijam ou andam de mãos dadas na rua. Não os machucamos quando fazem isso. Mas agora eles querem casar e manchar a religião. Eles já colocaram a esposa do Dutroux num convento e isso é uma desgraça. Não vamos aceitar mais isso. 

 

Ahmed: Com pais gays, as crianças vão crescer e se tornar gays também. É automático. Estamos indo em direção ao fim da humanidade com pessoas assim se tornando normais. Logo eles vão se multiplicar e os heterossexuais ficarão em desvantagem. Católicos, muçulmanos, todos somos contra o casamento gay.

 

Vocês parecem gente boa mesmo.

 

 

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