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      Crise Na Fronteira

      December 19, 2012

      Por Elektra Kotsoni, Fotos por Henry Langston


      O rio Evros, enganosamente calmo aqui, possui correntezas violentas que podem dificultar muito a travessia da fronteira.

      Cresci em Atenas e foi de partir o coração testemunhar a transformação da cidade. De metrópole cultural da minha infância, ela se tornou marco zero do apocalipse financeiro grego, a atmosfera é hostil e estranha. Não estou exagerando quando digo que muitas pessoas parecem ter perdido a cabeça; elas andam por aí falando coisas desconexas ou explodindo em gritos aleatoriamente. É desolador.

      Apesar do cenário de potencial falência e corrupção generalizada, um dos aspectos mais marcantes da Grécia contemporânea é o número de imigrantes ilegais vagando pelas ruas. Muitos deles escaparam de países cheios de guerra, fome ou doenças em busca de um futuro melhor. Infelizmente, eles escolheram uma má hora pra nos visitar e as coisas aqui podem não estar muito melhores do que nos países de onde vieram. Curiosos pra saber como as excruciantes medidas de austeridade gregas estão afetando os menos favorecidos do país — e vice-versa —, o fotojornalista Henry Langston e eu alugamos uma carro e partimos pra Orestiada, uma cidade fronteiriça que está se tornando um infame ponto de entrada pro resto da Europa.


      Aras, imigrante paquistanês, segura a foto do irmão de 15 anos que está tentando libertar de um centro de detenção.

      A Grécia viu sua primeira onda de migração econômica em 1989, depois da queda do comunismo na Europa Oriental. Na época, os imigrantes eram principalmente albaneses, búlgaros e romenos que exploravam a porosa fronteira do norte do país. Na última década, no entanto, o tráfego mudou e o leste da Grécia tornou-se um grande portão pra Europa, principalmente devido a guerras e agitação política na África e no Oriente Médio. De acordo com a Frontex, a agência responsável por patrulhar as fronteiras da União Europeia, 112.844 imigrantes foram registrados pelas autoridades nos primeiros nove meses de 2011, contra 76.697 durante o mesmo período de 2010.

      Agora, a rota mais comum pra entrar ilegalmente na União Europeia é através da fronteira da Grécia com a Turquia, que coincide com o rio Evros. Em 2010, a polícia de Orestiada encontrou 26 corpos dentro e ao redor do rio. Numa tentativa de impedir os cruzamentos, o governo decidiu construir uma barreira pra bloquear a fronteira em terra. O projeto foi atrasado e recomeçado várias vezes desde então, com grupos de defesa dos direitos humanos protestando contra a construção, e a União Europeia injetando fundos no projeto. Infelizmente, as fundações da barreira foram deitadas no começo de fevereiro, mas é difícil saber se o muro será ou não concluído.

      Estávamos dirigindo pelo vale infinito de campos de algodão e cana da região de Evros por alguns minutos quando avistamos cinco homens andando ao longo da rodovia em direção a Alexandroupoli, a capital de Evros. Com roupas leves demais pra um dia frio e claramente esgotados, eles desviaram os olhos quando viram nossa câmera. Era um sinal de que estávamos no caminho certo. Continuamos a cruzar com muitos imigrantes na rota até nosso destino, nenhum muito empolgado em falar com a gente. Chegando lá nos encontramos com o ex-prefeito de Orestiada, Aggelos Papaioannou e seu amigo Stathis, num restaurante local. Ficamos sabendo que Stathis tinha uma fazenda de alho e suas terras ficavam a alguns metros da fronteira.

      “Eles atravessam o campo parecendo miseráveis, famintos e molhados”, disse Stathis, nos pulverizando com pequeninos pedaços de carne meio mastigada. “Geralmente são só garotos de 20 e poucos anos. Não tem muita coisa que possamos fazer por eles. Lembro dos anos 80, eu esperava com o meu caminhão perto da fronteira no caso de alguém precisar de ajuda depois da travessia. Era um jeito fácil de fazer dinheiro. Agora é considerado crime. Então podemos dar a eles uma garrafa de água ou alguma comida, mas só isso mesmo.” Perguntei se o número de pessoas cruzando a fronteira variava conforme a estação do ano. “Na verdade não”, Stathis respondeu. “Eles vêm às dúzias o tempo todo. Porra, já vi gente de cadeira de rodas atravessando. Semana passada, cinco corpos foram pescados do rio.”

      “Os velhos campos minados da fronteira ficam próximos das suas terras. Eles ainda existem?”, pergunta Aggelos depois que Stathis pede a terceira garrafa de vinho. “As minas estão ali desde 1964”, diz Aggelos. “Naquela época, os contrabandistas turcos diziam aos imigrantes cristãos que eles podiam passar livremente por aqueles campos. Ouvíamos explosões todos os dias e encontrávamos partes de corpos pelo campo todo. Mas eles limparam o lugar uns cinco anos atrás.
       


      Um argelino de 24 anos, evidentemente o último romântico da Terra, pedindo nossa repórter em casamento pra ganhar um visto.

      Na manhã seguinte, visitamos a delegacia de Orestiada pra encontrar o chefe de polícia George Salamangas, um homem grande com a mania estranha de cuspir nos dedos enquanto fala. Depois de mandar um policial buscar café pra gente, ele se virou pro computador e nos mostrou uma apresentação completa em Power Point, com gráficos, fotografias e filmagens noturnas de imigrantes cruzando a fronteira e das prisões subsequentes. Ele nos disse que a Turquia parou de pedir visto pra pessoas de outros países muçulmanos. Como resultado, ao invés de tomar a antiga rota do Marrocos pra Espanha, muitos imigrantes que tentam entrar ilegalmente na Europa agora pegam um avião pra Istambul a partir de Casablanca. De lá, eles pagam uma taxa considerável a contrabandistas — de um a dois mil euros — pra serem levados de Istambul até Alexandroupoli. Evros se tornou o ponto de entrada preferido em 2010, um ano em que aproximadamente 36 mil imigrantes ilegais foram presos (contra 3.500 no ano anterior). Foi aí que a Frontex entrou no jogo.

      “Juntos trabalhamos na Operação RABIT e conseguimos manter os números sob controle”, disse Salamangas. “Este ano, no entanto, o rio ficou quase sem água, então nossos esforços não fizeram muita diferença. Quando o rio está seco, os perigos são muito maiores. Os barcos dos traficantes não têm motor, então os migrantes têm que remar. Muitos deles não sabem remar nem nadar, e a correnteza é tão forte que vira os barcos. Muitas vezes os contrabandistas os obrigam a entrar no rio, às vezes usando violência extrema.” Ele nos mostra uma filmagem de um grupo de pessoas descendo de um caminhão, cada uma recebendo uma coronhada de rifle nas costas como presente de despedida dos contrabandistas. “Aqueles que não prendemos acabam virando um desses”, ele continua. “Isso que é o mais estranho.”

      Salamangas explica que os migrantes querem ser classificados na Grécia, assim o país se torna responsável por seus pedidos de asilo, como manda a Convenção de Dublin. Por isso, no momento em que um imigrante é pego andando pela Europa sem passaporte — o que acontece com muita frequência —, ele ou ela é mandado de volta pra Grécia. “Pra se qualificar como requerentes de asilo político”, disse Salamangas, “imigrantes brancos geralmente afirmam ser da Palestina e os negros afirmam ser da Somália. A única coisa que podemos fazer é esperar que o muro esteja terminado até o meio de 2012. Nenhum deles quer ficar na Grécia, especialmente agora com a crise. Eles usam nossas fronteiras meramente como porta de entrada. É importante enfatizar isso: essas não são fronteiras gregas, são fronteiras europeias”.

      Perguntei a Salamangas sobre as informações que circulam sobre as condições precárias nos centros de detenção e ele respondeu: “Dirigimos um centro em Filakio, Orestiada. É um espaço que pode alojar 294 pessoas. É muito pequeno pra quantidade de imigrantes com que temos que lidar. As coisas iam bem até 2009. Sei que o Ministério de Proteção ao Cidadão e a polícia estão tentando encontrar espaços maiores pra eles. Não só pelo bem dos imigrantes mas também pela nossa equipe”. Ele então cuspiu no dedão, o que tomamos como uma deixa pra ir embora.

      Nossa próxima parada, claro, foi Filakio. Entrando no pátio do centro de detenção, vimos cerca de 30 homens (e um bebê) que tinham acabado de ser classificados, esperando por um ônibus que os levassem até Atenas, onde teriam permissão pra ficar pelo período máximo de 3 meses antes de correr o risco serem presos permanentemente. “Quero ir pra Atenas, mas tenho só 50 euros”, disse Hamza Attatfa, um argelino de 24 anos. “Onde você está indo? Quer casar comigo? Eu ganho um visto se você aceitar.”

      O colega de pátio de Hamza, Kyle Farid, parecia conhecer bem o processo: “Já fiz isso antes e consegui chegar até a Inglaterra sem ser pego. Eu morava em Roehampton. Então minha mãe, que é argelina, ficou doente e tive que voltar. Mas minha namorada está na Inglaterra”. Kyle contou que o exército turco o pegou um dia antes da nossa visita e deu uma surra nele antes de passá-lo pros contrabandistas na fronteira. “Pelo menos aqui eles não nos tratam mal, mas as condições são piores”, ele disse. “Não temos chuveiros e a comida é horrível.”

      Aras, um paquistanês de 22 anos, nos disse que planejava sair da Grécia depois que seu irmão de 15 anos fosse libertado da detenção. “Estou aqui há quatro anos, mas no momento não há dinheiro, então quero voltar pro Paquistão”, ele disse. “No estábulo onde trabalho, tínhamos 27 cavalos, agora são só três. Estou tentando libertar meu irmão, pra depois ir até Atenas.”

      Nossa viagem estava acabando, mas eu ainda não conseguia saber como me sentia com essa situação. Depois de apenas alguns dias na região, ficou óbvio que o resto da Europa negligencia os problemas das fronteiras gregas, mas essa é uma questão que não pode ser resolvida até que a União Europeia lave toda a roupa suja que parcialmente deu origem a essa situação. Por outro lado, o mundo é um lugar desesperador e todas as pessoas deveriam ter o direito de procurar uma vida melhor sem ter que encarar campos minados, rios gelados e bandidos com armas.

      Naquela noite, nossa última em Evros, jantamos em Vissa, um minúsculo vilarejo fora de Orestiada a apenas alguns metros da fronteira. Sentamos no único café que encontramos — um grande espaço perpendicular com quase nenhuma decoração. Além de nós, os únicos clientes eram uma dúzia de homens de uns 80 anos. Eles ficaram fascinados com a nossa presença e formaram um círculo ao nosso redor. O dono, George, começou a nos contar sobre a tradição de contrabando da aldeia, que vem de longa data: “Tudo começou nos anos 40 com a guerra, contrabandeávamos carne e animais da Turquia. Nos anos 50 e 60, eram principalmente peles e, depois, nos anos 70, trazíamos maconha. Cocaína e homens do Paquistão nos anos 80. Agora os turcos acordaram e, lentamente, nosso mercado foi morrendo”.

      Isso pode não ter ajudado muito meu dilema moral, mas pelo menos colocou as coisas em perspectiva. Quem sabe em que outros negócios arriscados esses adoráveis vovôs estavam envolvidos naquela época? Quem sabe quão fofos nossos crimes vão parecer no futuro? Acho que não há nada como a condição humana pra aliviar o clima.

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      Tópicos: Atenas, Grécia, imigrantes, Elektra Kotsoni

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