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      De Penetra no Jantar da Marina Abramovic

      December 3, 2012

      Marina Abramović, avó da arte performática, afirma do alto de seus 65 anos que você sabe que ainda é relevante quando jovens aparecem em suas exposições. Seus jantares privados são outra história. De algum jeito, eu, surpreendentemente, fui convidado para um jantar oferecido para um grupo seleto num restaurante elegante de Viena depois de sua recente noite de abertura, “With Eyes Closed I See Happiness, 2012”, na Galerie Krinzinger. Correção: fui como penetra junto com três amigos artistas, e nós, provavelmente, éramos as pessoas mais jovens ali.

      Só consegui roubar uma entrevista de 12 minutos com a superestrela do mundo da arte. Mas foi legal. Ela estava com fome e as pessoas estavam usando óculos grandes, cheirando tabaco e derramando vinho tinto nas toalhas brancas. A Abramović conseguiu manter a compostura, mesmo quando tietes tiravam fotos dela enquanto comia panquecas doces.

      VICE: Coloquei uns cristais no meu decote, porque sei que você usa cristais em seu trabalho.
      Marina Abramović: 
      Nunca coloquei cristais no meu decote, mas OK. Coloquei cristais perto da minha cabeça e perguntei: "Você sabe que horas são?".

      Muitos artistas estão batalhando por espaço. Você tem algum conselho para nós?
      Sim, sim, sim. O meu público é um público jovem. Estou incrivelmente feliz e agradecida. Você sabe quem me fez um enorme favor? A Lady Gaga. Ela me trouxe um público jovem. Eu ainda não a conheci, só virtualmente. A Lady Gaga foi ver minha exposição no MoMA em 2010, e ela twittou a respeito, então toda essa garotada foi ao MoMA para ver a Lady Gaga. E mesmo depois que a Lady Gaga saiu, eles ficaram e viram a minha exposição. Tenho algo como 80 mil fãs no Facebook, todos com menos de 30 anos. Adoro! Estou muito feliz.

      Mas o meu conselho aos jovens artistas é ser menos egoísta. Quando você chega a certa idade, você tem que doar incondicionalmente. Acho que os jovens artistas devem ser muito menos egoístas do que são. Primeiro, você tem que saber que fazer arte não é uma questão de ser famoso e rico. A arte diz respeito a outra coisa. Fama e dinheiro são apenas efeitos colaterais. Isso tem que ficar claro na sua cabeça.

      A segunda coisa que você tem que descobrir é se você é um artista ou não. As pessoas querem ser artistas por diferentes razões, mas se você tem que criar, então você pode ser um bom artista. E isso requer um conjunto diferente de sacrifícios. É uma vida solitária. Você realmente tem que se dedicar completamente. Você tem que ser inferior. Você tem que ficar febril, doente, como se fosse a única coisa existente, o tempo todo.

      Então, se você é um artista muito bom, você tem que aprender a sobreviver na sociedade — não se ajustar ao mercado, não poluir seu estúdio. E há muitas coisas que você tem que aprender sobre o negócio. É incrível, minha primeira exposição foi na Itália, e foi tudo vendido. Mas não ganhei um centavo. Todos os artistas passam pela mesma merda. Então vocês têm que ficar juntos e trocar conselhos. Há muito poucos artistas que são realmente generosos. O Robert Rauschenberg era um deles. Ele criou um hospital para artistas. Ele criou uma espécie de conta bancária para jovens artistas em apuros.

      Nós precisávamos disso.
      E os artistas da minha geração precisam ser generosos também. Estou criando um instituto de arte da performance, onde vou lecionar.

      Você acha que dar entrevistas ou palestras é uma espécie de performance?
      Peformance é uma palavra usada em demasia. Odeio pensar em uma entrevista ou em uma palestra como um tipo de performance. Algumas pessoas dizem que é uma performance, mas isso é besteira. Não é. Quando faço uma performance, chamo de performance. Esta entrevista não é uma performance.

      Como você se relaciona com a moda?
      Minha geração odeia o mundo da moda. Na década de 1970, se você usava batom, então você não era um bom artista. E eu disse: "Eu não ligo para essa hipocrisia. Eu gosto do que eu gosto". Gosto de moda original. Para mim, a Comme des Garçons é genial, assim como o Yohji Yamamoto. Ultimamente, gosto do Riccardo Tisci. Ele fez este vestido só para mim, me sinto muito confortável. Olha, tem uma pequena trilha. Me sinto como uma freira em uma missão.

      Onde você conseguiu a cruz no pescoço?
      Esta é uma Condecoração da Ordem do Mérito Austríaca da Ciência e da Arte, o maior prêmio da Áustria. É incrível de vestir. Eu a uso como jóia, mas na verdade é uma medalha. Foi dada a mim numa cerimônia de quatro horas com o presidente da Áustria, em 2008. Normalmente eles dão a pessoas que têm 70, 80 ou 90 anos de idade, ou que já estão mortos. Estou usando porque a Áustria é o melhor lugar para usá-la.

      E você não se considera um artista feminista, certo?
      Não, certamente não. Realmente odeio separar a arte em ideologias específicas. A arte é apenas um caminho. Há arte boa ou ruim, e é isso. Quem está fazendo não é importante.

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      Tópicos: Marina Abramović, arte, performance, Entrevista

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