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      De Nimes

      August 5, 2013

      Por Jenni Avins


      Fazendeiro exibe sua calça jeans em Pie Town, Novo México, 1940. Foto cortesia de Russell Lee/Biblioteca do Congresso dos EUA.

      Antes de existir calça jeans reta, cintura baixa, skinny, selvedge, stretch, flare ou boyfriend, havia simplesmente o jeans. Os marinheiros de Gênova, Itália, foram os primeiros a usar esse tecido de algodão e ligamento sarja provenientes da cidade de Nimes, França. Esses genoveses eram chamados "genes" pelos franceses e, posteriormente, foram apelidados de "jeans" pelos americanos.

      Os jeans de hoje são feitos com brim (ou denim), um tecido mais pesado de algodão em ligamento tela em que apenas o urdume (fios dispostos na direção longitudinal) é tingido com corante anil, deixando a trama (fios dispostos no sentido transversal) branca. Embora a palavra denim seja uma corruptela do francês "de Nîmes", é bem provável que o tecido tenha sido produzido primeiro na Inglaterra.

      Quando os Estados Unidos se emanciparam do Império Britânico, os antigos colonos pararam de importar brim da Europa e passaram a produzir localmente com algodão colhido por escravos no sul do país, que era, posteriormente, fiado, tingido e tecido no norte. A Revolução Industrial foi fortemente impulsionada pelo mercado têxtil, que sustentou praticamente sozinha a escravidão no país. Quando o descaroçador de algodão mecanizou o processamento em 1783, os preços, já subsidiados pelo trabalho escravo, caíram drasticamente. Bens baratos impulsionaram a demanda, e um círculo vicioso se sucedeu. No período entre a invenção do descaroçador de algodão e a Guerra Civil, a população escrava dos EUA aumentou de 700 mil para assombrosos 4 milhões.

      Depois da Guerra Civil, empresas como Carhartt, Eloesser-Heynemann e OshKosh passaram a oferecer macacões de algodão para mineiros e trabalhadores de ferrovias e fábricas. Um imigrante bávaro chamado Levi Strauss montou uma loja em São Francisco, na Califórnia, onde vendia tecidos e uniformes. Jacob Davis, empresário e alfaiate de Reno, Nevada, comprou denim de Strauss para fazer calças para operários, e colocou rebites de metal nelas para evitar que as costuras se abrissem. Davis enviou duas amostras de suas calças rebitadas para Strauss e, juntos, eles patentearam a inovação. Logo em seguida, Davis se juntou a Strauss em São Francisco para supervisionar a produção na nova fábrica. Em 1890, Strauss atribuiu o número de identificação 501 às suas calças de brim com rebites de cobre na braguilha. Nascia, então, a calça jeans 501 da Levi’s, que viria a se tornar a peça de roupa mais vendida da história da humanidade.

      Inicialmente, a calça jeans era usada por proletários do oeste dos EUA, mas as pessoas mais abastadas do leste também se aventuraram em busca da vigorosa autenticidade do cowboy. Em 1928, uma repórter da Vogue voltou para o leste dos EUA depois de uma viagem a um hotel-fazenda em Wyoming com uma foto sua que dizia: “Vestindo a inacreditável calça jeans [...] E um sorriso que não se encontra em lugar nenhum na ilha de Manhattan”. Em junho de 1935, a revista publicou uma matéria que ensinava às suas leitoras a arte caseira de desgastar jeans: “O que ela faz é correr para a loja local e pedir uma calça jeans, que ela secretamente deixa boiando durante a noite numa banheira cheia d’água — quanto mais vezes uma calça jeans é lavada, melhor ela fica, principalmente se encolher um pouco". Hoje, uma inovação mais recente também acontece na calada da noite, e, sem dúvida, entre quatro paredes: rasgos intencionais em partes específicas do jeans.

      Naquela época, a calça jeans era um souvenir nostálgico do cada vez menos distante oeste. No final da década de 30, o búfalo estava praticamente extinto, a grande maioria dos nativos tinha sido colocada em reservas e os fazendeiros tinham cercado o que havia sido uma terra vasta e desimpedida. Os produtos da Levi’s não estavam disponíveis ao leste do Mississippi, fazendo da marca a quintessência californiana. Para o resto dos EUA, pouco importava se os cowboys autênticos usavam jeans, contanto que estrelas do cinema como John Wayne, Will Rogers, Gene Autry e William S. Hart também usassem.

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      Trabalhadores na fazenda Alexander, Arkansas, colhendo algodão em 1935. Foto cortesia de Ben Shahn/Biblioteca do Congresso dos EUA.

      No sul dos EUA, com o fim do sistema de arrendamento, o jeans carregava uma conotação diferente. Em 1941, uma matéria de moda da revista Life intitulada “Doris Lee Offers the Southern Negro” (“Doris Lee Oferece a Negra do Sul”, em tradução livre) trazia uma série de desenhos da artista à la Maira Kalman de mulheres afro-americanas de barriga de fora usando blusas frente única, turbantes e saias coloridas. Esses desenhos eram justapostos com fotografias de mulheres brancas com roupas similares. O texto dizia: “[A artista] explica que essas negras do litoral, mais primitivas do que as de qualquer outro lugar, têm tino para cor, uma ‘estranheza de proporções’, grande talento e engenhosidade, principalmente em suas adaptações de roupas descartadas”. Um par de imagens incluía “macacões desbotados [...] prontamente adaptados para uma calça jeans capri”. A matéria sugere que, assim como o blues, os estilos de jeans americanos foram adaptados — ou roubados — dos afro-americanos. Os negros levaram décadas para aderir à moda do jeans, uma vez que remetia a uma história brutal de violência, opressão e exploração.

      Durante a Segunda Guerra Mundial, militares americanos em serviço no exterior usavam calça jeans nos dias de folga, exportando seu encanto como estilo ocidental de democracia. A partir daí, a fascinação com a calça jeans só aumentou mundo afora. As autoridades da Alemanha Oriental, por exemplo, notaram o predomínio das “calças de cowboy” em uma revolta de trabalhadores em 1953. O jeans representava um tipo de rebelião semelhante nos EUA do pós-guerra. Mas as marcas não estavam prontas para associar seus produtos com delinquentes antiautoritários como Marlon Brando, que vestia uma 501 em O Selvagem. Em vez disso, elas viram essa transformação semiótica como a inquietante morte dos cowboys alinhados dos pôsteres de filmes do passado. O Selvagem, afinal, era uma confusão entre gangues de motoqueiros. Os jornais faziam questão de mencionar quando os bandidos estavam usando calça jeans e escolas proibiram o uso da peça. Em vez de explorar a imagem do bad boy e abraçar o que poderia ser uma campanha publicitária de fácil execução, os fabricantes de denim tentaram camuflar a situação com slogans como “Jeans: Ideal para a Escola”. Até formaram uma organização chamada Conselho do Denim para promover saudáveis concursos de beleza para eleger a “rainha da calça jeans” e vestir os primeiros voluntários do Corpo de Paz de JFK. Mas foi tudo em vão.

      No fim dos anos 1960, atores como Steve McQueen, Paul Newman e Dennis Hopper arrasavam na tela em filmes como Rebeldia Indomável e Sem Destino; a contracultura era assimilada pelo mainstream e os adolescentes entravam para o mercado consumidor com grande poder de compra. “O fato de o consumo de massas, com toda a padronização que implica poder, de alguma forma, se reconciliar com um individualismo desenfreado foi um dos truques mais inteligentes já inventados pela civilização ocidental”, escreveu o historiador Niall Ferguson em Civilização: O Ocidente e os Outros, de 2011.

      A afirmação de Ferguson podia ser considerada, em uma escala internacional, como um enigma sociológico da era da Guerra Fria — como peça de roupa proletária amplamente acessível, o jeans era o símbolo máximo do paradoxo da cultura consumista para a URSS. Ele resume bem, “Talvez o maior mistério de toda a Guerra Fria seja por que o Paraíso dos Trabalhadores não foi capaz de produzir uma calça jeans decente?”.


      Quando motoqueiros e beatniks adotaram o jeans, os fabricantes tentaram camuflar sua imagem mostrando jovens bem-apessoados usando calça jeans. Foto cortesia de Levi Strauss & Co.

      A Life observou os resultados disso em 1972. “Sensíveis à moda, os russos podem ser perdoados por enxergarem a calça jeans como uma conspiração capitalista internacional”, publicou a revista. Uma peça da Levi’s contrabandeada poderia custar US$ 90 no mercado negro russo e viajantes americanos financiavam férias na europa vendendo alguns pares. Oficiais soviéticos chegaram a cunhar o termo “crimes de jeans” para descrever “violações à lei instigadas por um desejo de usar quaisquer meios para obter artigos feitos de brim”.

      Nos anos 1970, o jeans começou a fazer parte das coleções de moda de grandes estilistas. O caimento deveria ser perfeito. Estilistas americanos como Ralph Lauren, Oscar de la Renta, Geoffrey Beene e Calvin Klein transformaram a calça jeans em um ícone de status e faturaram bastante com suas peças. Klein, particularmente, entendeu o potencial sexual de uma bunda firme dentro de uma calça jeans justa. Em 1976, ele ajustou o corte para acentuar as nádegas de quem as vestia. Três anos depois, Klein já dominava 20% do mercado da moda.

      Uma campanha publicitária polêmica da Calvin Klein de 1980 trazia a Brooke Shields, com então 15 anos, dizendo “Quer saber o que fica entre mim e a minha Calvin?”. Klein transformou rapidamente 25 milhões de dólares em 180 milhões. Isso antes de o brim com stretch inundar o mercado, assim, essas calças não só tinham a cintura excepcionalmente alta e justa, como também eram grossas e inflexíveis — tão apertadas e rígidas que as mulheres precisavam deitar e usar uma pinça para subir o zíper.

      Se o caimento sexy definiu os anos 1970 e o começo dos 1980, a fase seguinte da cultura do brim estava voltada para o acabamento — lavagens ácidas e com água sanitária eram usadas para incrementar a peça, bem como pedras, tesouras e alfinetes. O estilo pode ter vindo das ruas, mas estilistas como Vivienne Westwood e Dolce & Gabbana levaram o jeans inspirado pelo punk para as passarelas. Em 1988, a nova editora-chefe da Vogue, Anna Wintour, colocou uma modelo usando uma calça jeans desbotada da Guess em sua primeira capa.

      Em meados dos anos 1990, o brim já tinha sido apropriado por estilistas de grandes marcas. Tom Ford bordou e encheu de contas e penas peças jeans para a Gucci. Gastas e ligeiramente grandes, eram vendidas por mais de US$ 3 mil. “O primeiro carregamento já tinha sido inteiramente vendido sob encomenda antes mesmo de chegar às lojas”, informou o New York Times. “Winona Ryder, Mariah Carey e Helen Hunt compraram a saia; Gwyneth Paltrow e Cate Blanchett, a calça. As cantoras Lil’ Kim, Janet Jackson e Madonna pediram as duas.”

      A Diesel foi a primeira marca a conseguir, de forma arriscada, porém, bem-sucedida, levar um jeans premium desbotado com design italiano para os consumidores dos subúrbios americanos. A marca abriu o caminho para a boca de sino e a lavagem “bigode” (aquelas marcas de vinco desbotadas que saem da braguilha) com etiquetas de US$ 100. Marcas como Seven for All Mankind, Habitual, Citizens of Humanity, Paper Denim & Cloth, True Religion, Chip & Pepper, Earl, Yanük, Frankie B. e muitas outras seguiram o exemplo e incluíram fios de stretch para permitir uma cintura bem mais baixa, deixando a calcinha à mostra.


      Calvin Klein pode ter sexualizado a publicidade da calça jeans com Brooke Shields no início dos anos 1980, mas a Gucci também não ficou para trás. Foto cortesia de Advertising Archives.


      Agora, em meio à Grande Recessão, fechamos o círculo, com uma demanda razoavelmente recente por nostálgicas calças jeans “tradicionais” que lembram o industrialismo miserável da Grande Depressão: camisas de operários e macacões jeans em tons de azul royal e jardineiras de corte reto e funcional com tingimento duplo. Como seus precursores dos anos 1920 e 1930, esses jeans parecem bastante saudosos de um país do passado (quem sabe, dessa vez, com um caimento melhor). Entramos na era Dorothea Lange da moda — vestidos com cardigãs de lã salpicada, camisas fabulosas de flanela e botas robustas —, na era da Depressão da cabeça aos pés.

      O visual está catalogado em revistas como Free & Easy, do Japão, de onde vêm muitas das peças de brim tradicionais mencionadas anteriormente. Nos anos 1970 e 1980, o maquinário americano aperfeiçoou a produção mais barata e volumosa. Já os japoneses foram na direção oposta, trabalhando com bons estilistas, empregando teares antigos e fios menos consistentes. Os tecidos decorrentes disso têm o tipo de selvedge (acabamento gasto nas extremidades do material) fetichizado por esnobes do jeans do mundo todo. Elas desgastam com muito mais personalidade do que os jeans das últimas décadas, que são mais macios e passam por mais lavagens. Uma nova geração de blogueiros tem documentado o desgaste de seus jeans obsessivamente, catalogando de forma extensiva as marcas, idades, lavagens e usos. O fenômeno remete à moda atual de produzir bebidas artesanais envelhecidas em barris.

      Entramos na era Dorothea Lange da moda.

      A grande maioria dos americanos não tem dinheiro para gastar em calças jeans sofisticadas. A maioria compra em lugares como o Walmart, onde duas calças jeans da marca da casa, Faded Glory, podem ser adquiridas por cerca de US$ 22. Corrigindo a inflação, é o mesmo preço que a repórter da Vogue pagou por uma calça em 1928. Claro que essas roupas baratas ocultam o preço que os trabalhos americanos pagam. A Cotton Incorporated informou que apenas cerca de 1% das calças jeans vendidas nos EUA são fabricadas no país. Em 2009, a maioria das confecções de brim americanas havia fechado as portas e a produção foi transferida para fábricas na China, México e Bangladesh. 

      Talvez a nação de americanos desempregados vestindojeggings de US$ 11 seja uma visão perversa de um futuro distópico. De forma surpreendente, Glenn Beck falou sobre essa questão no ano passado e lançou sua própria linha de jeans feitos por americanos (US$129,99 a unidade) por meio de uma campanha publicitária jingoísta depois de ficar chateado com as propagandas da Levi’s – ele achou que elas glorificavam “revoluções e progressismo”. Beck não é, de forma alguma, o primeiro cliente da Levi’s a confundir seus próprios valores com sua marca de jeans, no entanto, independente da nostalgia o brim, a questão não é mais somente americana.

      O mercado americano de calça jeans comeu poeira; a América Latina e a Ásia estão conduzindo o futuro do brim. Assim, existe uma pequena e saudável cadeia de produção de jeans viva em Los Angeles, e um dos primeiros fornecedores da Levi’s, a Cone Denim, ainda produz na Carolina do Norte, onde fabricantes de pequena escala como Raleigh Denim vendem seus produtos. Talvez uma dessas operações consiga crescer e virar uma economia de escala, tornando o “Made in USA” acessível para as massas novamente. Ou, quem sabe, a calça jeans entre para a história como a maior contribuição dos EUA para o guarda-roupa mundial.

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       A calça jeans 501 da Levi’s mais antiga de que se tem notícia, de cerca de 1890, foi encontrada em uma mina do Deserto de Mojave. A linha do tempo abaixo ilustra as transformações da 501 desde o fim do século 20 até 1978. Foto cortesia de Levi Strauss & Co.

      A Cone Mill, da Carolina do Norte, fornece tecido para a Levi's 501 há quase um século. Hoje, eles também fornecem material para marcas como Releugh Denim e 3x1 — bem como para a 501 feita exclusivamente para as lojas J.Crew.

      Embora possa não aparentar, muitas alterações foram feitas no corte mais icônico da Levi’s ao longo da história, incluindo variações na largura da perna e altura da cintura. Foto cortesia de Levi Strauss & Co.

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      Tópicos: Edição de Moda 2013, calça jeans, Levi's, denim, Gucci

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