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Se Saia - Parte 2

By Fernando Gomes

Os motivos que levaram cada uma das quase duas mil pessoas às ruas do Centro de Salvador no primeiro dia de fevereiro eram diversos, mas uma vontade parecia ser unânime ali: ver João Henrique fora da prefeitura da capital baiana. A indignação podia vir da sanção da Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do Solo (Louos), do asfalto esburacado, do abandono da orla sem barracas nem nada, da sujeira inundando a cidade, do trânsito insuportável, do não-metrô... O que valia era botar pra fora o desejo do "Desocupa, João!".

Por volta das 16h, a movimentação em frente ao Teatro Castro Alves, no Campo Grande, já era intensa. Pouco menos de uma hora depois, os participantes do movimento seguiram pela Avenida Sete em direção à prefeitura. No percurso, o carro de som mandava um pagode classe A dedicado especialmente ao prefeito com versos como "Sai pra lá, seu fanfarrão!" e os manifestantes se revezavam no microfone com suas reivindicações. Um grupo de moradores do Quilombo do Rio dos Macacos (região próxima a Salvador) estava presente e chamou atenção para situação crítica que eles enfrentam: a Marinha do Brasil instalou no local um condomínio de sub-oficiais e, desde então, as famílias da área tem sido desalojadas e perseguidas. É uma guerra silenciosa a um grupo de famílias negras descendentes de escravos que já viviam ali muito antes da chegada da Marinha. O revoltante caso da comunidade de Pinheirinho (SP) também foi lembrado diversas vezes nas palavras de ordem ao microfone ou longe dele.

O rolé pela Avenida Sete seguia tranquilo, até que, ao chegar próximo à praça Castro Alves, os participantes foram surpreendidos pela Polícia tentando atrapalhar o fluxo da passeata. Mas... surpreendidos? Qual a novidade em encontros hostis entre Polícia e manifestantes? Acontece que, na noite anterior, a Polícia Militar havia declarado greve na Bahia. Ah! Mas pra proteção da prefeitura sempre haverão cidadãos exemplares dispostos a trabalhar independente de greve da categoria, né! Mas, num gesto lindo de se ver, geral ignorou a presença dos homens da lei e a marcha seguiu firme seu percurso. O carro de som e seu pagode ficaram pra trás impedidos pela viatura, mas isso não mudou lá muita coisa. Chegando na prefeitura, a recepção foi feita por mais militares (e a greve?) cercando e bloqueando a área à frente do prédio, junto com mais alguns engravatados e membros do Grupo de Operações Especiais (GOE) sem as devidas identificações em seus fardamentos - porque será? Esqueceram? 

O barulho foi grande e seguiu incomodando por quase duas horas, inclusive estendendo a discussão para cobranças ao governador, vereadores e presidente, mas, em sua covardia característica, a prefeitura e seus representantes fingiram não estar vendo nem ouvindo nada daquilo. Aliás, o secretário de comunicação, Diogo tavares, até já declarou que "não falarão sobre o Movimento". Não se sabe até quando eles vão ignorar o "Desocupa, João!" e o estado lamentável em que Salvador se encontra, mas os efeitos colaterais desse descaso continuam a surgir e se espalhar. E, pelo visto, não vai parar!

Leia aqui sobre a manifestação que aconteceu no dia 20 de janeiro.


 

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