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      Entrevistamos Desertores do Exército Sírio

      February 7, 2013

      A VICE entrou em contato com o fotógrafo e cinegrafista Robert King em uma tentativa de chegar ao conturbado cerne da questão da Síria. Robert é um homem com um coração de ouro, estômago sobrenatural e colhões de lonsdaleíta pura (mineral ultrarraro 58% mais duro que diamante) que voltou de Alepo com uma matéria de 20 páginas para a Edição Síria. Hoje, você lê a entrevista que ele fez em campo com Abuh Ahmad, um engenheiro civil e desertor do Exército Sírio, e Akhi Muhammad, um oficial do Exército Livre da Síria de Damasco.

       

      VICE: Onde você cresceu? 
      Abu Ahmad: Em Salaheddin, Alepo. 

      Com o que seus pais trabalhavam? 
      Minha mãe não trabalha e meu pai é corretor de imóveis. 

      O que você fazia antes da guerra? 
      Era engenheiro civil e tenente do exército. 

      Onde você estava em julho de 2000, quando Bashar al-Assad se tornou presidente da Síria? 
      Eu ainda estava na faculdade. 

      Que experiência você teve com soldados ou policiais de Assad antes de 2011? 
      Nenhuma, mas eu não estava feliz com o comportamento deles. 

      Onde você estava em março de 2011, quando os 13 garotos foram presos em Daraa por causa de graffitis anti-Assad? 
      Eu estava prestando serviço militar na zona rural de Damasco. 

      Houve algum momento específico em que você decidiu que precisava lutar contra Assad? 
      Muitas coisas me fizeram entrar para o ELS. Vi forças de segurança arrastarem uma mulher depois de tirar sua roupa. Ela estava sendo insultada e acusada de chamar a Al Jazeera. 

      Antes de desertar do exército sírio, você participou de alguma ação contra manifestantes? 
      Não participei de assassinatos, mas testemunhei o assassinato de manifestantes em Daraa, Saqba, Zamalka e Kafr Batna. 

      Você viu civis serem mortos nessas batalhas? Se sim, o que aconteceu exatamente? 
      Vi muitos jovens e velhos sendo mortos ao sair da mesquita depois das orações de sexta-feira. 

      Você já matou alguém? 
      Não. 

      Como é a organização do ELS? 
      A organização não é hierárquica. 

      Qual foi o pior momento pessoal que você passou desde que a guerra civil começou? 
      Quando um menino foi baleado em Daraa e sua mandíbula se estraçalhou, no começo da revolução. 

      Você vai voltar a combate em breve? 
      Sim. 

      O que você vai fazer depois do conflito? 
      Depois que Assad cair, vou voltar para meu trabalho. 


      30 de setembro de 2012: soldado do ELS no bairro de al-Arkoub, em Alepo, mira em tropas do exército sírio. 

       

      VICE: Com o que seus pais trabalham? 
      Akhi Muhammad: Meu pai trabalhava em escritório e já estava aposentado e minha mãe era dona de casa. 

      Qual era sua profissão antes da guerra? 
      Eu era oficial voluntário no exército sírio, mas tenho um diploma em geografia, que tirei enquanto servia o exército. 

      Onde você estava quando Bashar al-Assad chegou ao poder? 
      Estava em Damasco. 

      Que experiência você teve com soldados ou policiais de Assad antes de 2011? 
      Tive muitas experiências. A menor opressão e humilhação pela qual passei durante o serviço militar foi que sentia uma clara distinção entre os postos muçulmanos e alauítas. Outra questão era a corrupção. A polícia de trânsito parava todo mundo e pedia propina abertamente, tentando encontrar um pretexto para conseguir dinheiro. 

      O que você achou da notícia da queda de líderes como Ben Ali, Mubarak e Gaddafi? 
      Fiquei feliz de ver tiranos caindo em várias partes deste mundo. Eu gostaria que Gaddafi tivesse sido julgado para que descobríssemos todos os seus segredos. Para mim, é fácil dizer isso, mas entendo que o povo líbio, cujas famílias e filhos foram mortos por causa da estupidez de Gaddafi nas últimas décadas, tinha uma opinião diferente da minha. Talvez se conseguirmos pegar Bashar, faremos a mesma coisa com ele, ou talvez até mais. 

      Onde você estava em março de 2011, quando os 13 garotos foram presos em Daraa por causa de graffitis anti-Assad? 
      Eu estava na minha base militar em Damasco. 

      Você estava envolvido com os protestos? 
      Não, estávamos em alerta quando a revolução começou. Mal podíamos sair para ver nossas famílias. 

      Houve algum momento específico em que você decidiu que precisava lutar contra Assad? 
      Meu irmão foi preso. Ele me disse que, quando você é preso, sente que o mundo está ruindo e, quando está sob tortura na cadeia, não se sente mais como um ser humano. A tortura física não é tão ruim quanto ser humilhado por tudo em você acredita. Você se sente um inseto que está sendo esmagado. Eles pisaram na cabeça dele e o fizeram dizer que minhas irmãs e minha mãe eram putas, e disseram que iriam fazer sexo com elas. Eles blasfemaram Deus e fizeram-no dizer que Bashar al-Assad é o verdadeiro Deus. Meu irmão só conseguiu sair da cadeia depois que pagamos 300 mil libras sírias [cerca de R$ 8.550] para um oficial alauíta. Ele estava completamente destruído. Quando meu irmão me contou o que acontece com quem vai preso, percebi que protestos pacíficos não são suficientes contra esse regime. 

      Quando foi que você ouviu falar do ELS pela primeira vez? 
      A primeira vez que ouvi falar do ELS foi através da rádio estatal e da televisão estatal. A mídia estatal estava falando sobre as grandes conquistas do exército de Assad contra “gangues terroristas”. 

      Como foi sua transição do exército sírio para o ELS? 
      Com o passar do tempo, percebi que meus colegas do exército estavam começando a se sentir menos animados para falar sobre o que estava acontecendo no país. Gradativamente, o muro de medo caiu. Um dos meus colegas sugeriu a deserção e três outros, além de mim, gostaram da ideia. Conseguimos entrar em contato com um dos batalhões do ELS na zona rural de Damasco. Quando estávamos em um ponto de inspeção, conseguimos fugir para uma cidade próxima e os moradores nos ajudaram a chegar até o batalhão com o qual estávamos mantendo contato. 

      Como soldado do exército sírio, você participou de alguma ação contra manifestantes? 
      Não matei ninguém, eu trabalhava mais na base militar. Mas depois disso, quando o governo sírio passou a precisar de mais soldados para o combate, fomos transferidos para os pontos de inspeção. 

      Onde você estava e o que estava fazendo em abril de 2012, enquanto o cessar-fogo da ONU estava sendo discutido? 
      Eu estava no meu batalhão. Torcíamos para que o cessar-fogo fosse cumprido, mas o governo continuou a atacar civis e perdemos as esperanças. 

      Quais são os requisitos necessários para entrar para o ELS? 
      É preciso acreditar no que se está fazendo, e saber que a morte é iminente, seja ela provocada ou natural. 

      Você pode descrever as batalhas em que lutou? 
      Como posso descrever? O objetivo é diferente em cada uma delas, mas o principal objetivo é evitar que esses criminosos cheguem às áreas civis. Quando saímos, fazemos um pacto de morte, o que significa que vamos lutar até a morte se necessário, e rezamos. Sinto meu coração disparar e um suor frio corre pelas minhas costas. Quando chegamos ao campo de batalha, recebo o sinal de ação do nosso líder e depois só escuto os sons das balas e esqueço de todo o resto. Todos os sentimentos congelam e todo o resto desaparece. 

      Contra quem você já lutou? Que tipo de arma eles tinham e qual foi o resultado? 
      Lutamos contra todos que atacam civis, ou seja, o exército e os shabiha, mas principalmente os shabiha, porque eles não têm nenhuma restrição moral ou religiosa — não há limite no que eles fazem. São gangues que só têm interesse em roubar e matar. Não posso dizer que vencemos sempre. Às vezes nos retiramos por causa da intensidade do poder de fogo inimigo, ou quando o inimigo está em número muito maior do que esperávamos. Durante essas batalhas, atacamos e nos retiramos. 

      Você já viu alguém ser morto? Se sim, como foi a situação? 
      Vi alguns civis sendo mortos pelas mãos do shabiha. Minha missão era usar um binóculo para avaliar a situação durante uma das batalhas na zona rural de Damasco. Três soldados obrigaram uma mulher a sair de sua casa e depois a mataram. Eles tinham tanques e estavam acompanhados de um veículo blindado de transporte de pessoal. Não sei o que disseram a ela. 

      Você já matou alguém? Se sim, como foi a situação? 
      Você acha que eu atiro por prazer? 

      Qual foi o pior momento para você desde que a guerra civil começou? 
      Foi quando decidi desertar. Senti uma mistura de felicidade, porque estava me libertando da escravidão do regime de Assad, e medo pela minha família, do que o governo poderia fazer com eles, principalmente porque eu fazia parte do exército. Se eu voltar, serei tratado como traidor. O que me espera é a execução. 

      O que você planeja fazer depois da guerra? 
      Não estou certo quanto ao futuro. Neste momento estou fazendo algo para mim e para o meu povo. Posso voltar a trabalhar no exército ou posso procurar outro emprego. Não sei. Esse não é o tipo de vida que eu esperava viver. Mas meus amigos e eu fomos obrigados a isso. Não vou desistir jamais. Vamos continuar até o fim. 

      26 de setembro de 2012: soldado da brigada de Tawhid ferido em Alepo. 

      PÁGINAS 

      ANTERIORES: 

      2 de outubro de 2012: corpo de soldado do ELS que morreu durante batalha contra o exército sírio é carregado até hospital em Alepo. 

      NESTAS 

      PÁGINAS: 

      30 de setembro de 2012: civis, crianças e soldados do ELS feridos são atendidos dentro de hospital em Alepo. 

       
      Pra ficar por dentro de todas as questões que estão rolando, recomendamos que você leia nossa cronologia ilustrada da tumultuada história síria, “O Caminho da Destruição”. Montamos também um guia com os tópicos mais importantes pra começar a entender as complexidades do conflito: "Guia VICE Para a Síria". 
       
       

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      Tópicos: Robert King, desertores, Síria, Exército Livre da Síria, Exército Sírio, Conflitos, Morte

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