Explicando a Cultura Rave Pros Norte-Americanos

By Clive Martin

América do Norte,

Como inglês, posso afirmar: sua relação com a cultura rave não é diferente da nossa relação com o futebol. Foram vocês que inventaram isso nas cidades pós-industriais do norte, ainda assim, foi o resto do mundo que realmente aprendeu e entendeu isso. É uma criança precoce que vocês conseguiram gerar, só pra perceber que não eram muito competentes como pais e tiveram que dar o bebê pro resto do mundo pra que ele tivesse uma educação adequada. 

Agora ele está de volta nas suas vidas e vocês não sabem como lidar com isso.

Nos últimos 25 anos, enquanto vocês estavam comprando Learjets e ouvindo Creed, a Europa esteva curtindo adoidada sob os lasers coloridos e constantemente perguntando pra estranhos se eles estavam “tendo uma boa noite”. Vocês achavam que todo mundo aqui era homossexual, viciado em drogas existencialistas (o que pode ser meio verdade) e por anos resistiram ao charme de Mitsis, Ministry Of Sound e da música do Paul Oakenfold. Suas baladas se resumiam a tomar umas “brejas”, fumar “unzinho” e bombar um Kid Rock e um 2 Live Crew nas caixas de som.

Recentemente, no entanto, algo mudou. Vocês viram alguns dos caras mais maloqueiros daí elogiando o MDMA de um jeito que faria o jovem Bez imaginar se não estaria exagerando um pouco nas hipérboles. Trinidad James sempre fala de “tomar uma molly”, assim como o Danny Brown, assim como o Odd Future. O Lil' Wayne foi pego com um monte disso no ônibus da turnê alguns anos atrás pra manter toda aquela coisa de Berlin Love Parede rolando por algumas horas, e até aquela música nova das Destiny's Child parece que não ficaria deslocada numa rave de dia inteiro no começo dos anos 90 em Donnington. 


Americanos tentando fazer a cultura rave no Camp Bisco Festival em Nova York. 

Agora, milhares de adolescentes daí que antes odiavam essas “bichas europeias” estão trocando os ingressos do Ozzfest pelos shows em estádios do Skrillex e fazendo sinais de “Daft Punk Rocks!” no Coachella. Um colega norte-americano disse que, quando ele estava no colegial, ouvir house music era o equivalente a escutar os discos ao vivo da Judy Garland. Agora tudo mudou. Deve ter alguma coisa na água e pode muito bem ser MDMA.

Mas não tenho certeza se vocês entenderam mesmo. Quer dizer, tenho certeza que Levon Vincent, Terrence Parker, Juan Atkins e Kenny Dixon Jr. entenderam. Mas os novatos não. Na verdade, nós, os casacas vermelhas raveiros do velho mundo, achamos bem engraçado o quanto vocês não entenderam. Somos de um continente que teve “Born Slippy” como trilha sonora de campanhas políticas. Temos políticos que já tomaram pílulas e DJs que abriram centros pra juventude. Quando a gente vê vocês começando a tomar ecstasy e a ouvir dance music é como eu imagino que vocês se sentem quando veem filmagens de aulas de dança em Runcorn ou ouvem os garçons do TGI Fridays gritando “YEE-HAW!” em seu caminho pra um suicídio solitário e inevitável. 

Eu vi o “Camp Bisco” de vocês, eu ouvi o seu Deadmau5 e acho que vocês precisam de um curso intensivo sobre o que é certo e o que é errado na cultura rave. 

TODA MÚSICA DANCE É MÚSICA ELETRÔNICA, SEUS IDIOTAS
A primeira vez que ouvi o termo “EDM”, eu não tive certeza do que isso significava. Achei que “M” provavelmente era música, “E” talvez fosse europeia ou eclética e “D” podia ser “digital”, uma referência aos computadores ou sei lá. O que eu não esperava, no entanto, era algo tão estupidamente óbvio como “electronic dance music”. É a mesma coisa que chamar um gênero de “guitar rock” ou “trumpet ska”. 

Toda música dance/house/bass é eletrônica. Ouça a si próprio dizendo: Electronic. Dance. Music. Parece a tia avô de alguém tentando falar sobre o disco novo do Moby, ou um policial tiozão interrogando alguém sobre uma rave que ele está tentando miar. Isso faz vocês soarem como novatos, e novatos idiotas ainda por cima. Então vão lá pensar em alguma outra coisa pra chamar de Afrojack.

BATERIA AO VIVO É COMPLETAMENTE INACEITÁVEL
Na verdade parece que eu queimei a largada aqui. Achei que isso soaria sensível, mas assistindo aos vídeos do Camp Bisco, me pareceu que vocês estão tentando fazer música dance “ao vivo” acontecer. Bateria ao vivo? Sério? Música house ao vivo é o tipo de coisa que deveria ficar confinada aos Jazz Cafés ou aos clubes Mayfair da vida que contratam gente que toca bongô pras noite de funk. A menos que esteja tocando “Calabria”, um saxofone nunca deve ser visto numa rave. 

SE VOCÊ VAI CHAMAR MDMA DE “MOLLY”, LEMBRE-SE QUE VOCÊ TOMA “ALGUMA” MOLLY, OU “UMA” PÍLULA, NÃO “UMA MOLLY”
Essa vai pra vocês, rappers norte-americanos. Sei que parece pedante, mas pessoas que falam de drogas quando não conhecem drogas são a pior coisa do mundo. Sei que vocês acabaram de entrar nessa, mas isso é tipo aqueles caras crentes da escola dizendo: “Cara, cheirou maconha?”. Você toma uma pílula, porque é singular, e você toma MDMA, sem artigo, porque é um pó, então é plural. A não ser que você vá tomar o MDMA grão por grão, o que seria horrivelmente ineficiente e me dá aflição só de pensar.

Além disso, tomar um pouco de ecstasy numa noite não te faz o Timothy Leary. Você não é um cosmonauta dos narcóticos com vários contos de galáxias distantes pra contar, é uma droga que já está aí há umas três décadas. Dito isso, tenho certeza de que você riu muito dos caras do rap do Reino Unido falando “wavy off drank” no ano passado. 

NÃO PRECISA TER UM DROP EM TODA MÚSICA
Sabe o que você realmente quer da música quando está tentando dançar num espaço escuro e lotado de gente bem louca? Repetição, e não calmarias tediosas seguidas de sons altos e dolorosos. Mesmo o drum and bass funciona melhor quando é um ataque constante e firme. Essas mudanças súbitas que marcam a passagem de uma faixa pra outra são a parte que faz os caras que acabaram de sair de Bermondsey tirarem a camisa e rodarem o maxilar na forma de “Z”. A brigada da música eletrônica parece ter aprendido essa atitude com caras como o Pendulum e com os primeiros discos do Slipknot, onde todas as faixas são só uma construção supérflua pra um drop que parece uma explosão num trem fantasma.

NÃO TEM COMO JUSTIFICAR FAZER HOUSE E SER ANTIDROGAS
O momento mais baixo da música eletrônica até agora provavelmente foi a maior rixa estilo “dois carecas brigando por um pente” entre o Phil Collins da cena, Deadmau5, e aquela que está sempre pegando o bonde andando, Madonna. A cantora fez uma referência desajeitada a “molly” no palco, do mesmo jeito que a sua mãe se referiria a “cigarrinho do capeta” caminhando cuidadosamente por Camden Lock. Foi brega, mais foi inócuo. O Deadmau5, no entanto, achou que era o dever dele subir no púlpito como um Ian Paisley do mundo da balada e denunciar a Madonna por glamorizar “a merda que atrapalhou a EDM por anos”.

Vamos ser claros: você não precisa usar drogas pra curtir música dance. Ninguém quer compartilhar uma bizarra e confusa toca de coelho com pessoas que gostam de psytrance. Mas “EDM”, como o Mau5 insiste em chamar, está tão ligada ao uso de drogas recreacionais, que negar isso é negar a cultura inteira. É como se o Shane MacGowan enchesse o saco das pessoas por ficarem bem loucas num show do Pongues, ou se o SpaceGhostPurrp do nada começasse com aquela história de que “a maconha é a porta de entrada” pra cima da gente. 

DJS NÃO SÃO ASTROS DE ROCK
Eu sei que isso vai doer no seu coração, mas vamos encarar o fato de que o cara por trás do laptop não é o Serato Jagger descolado que você gostaria que ele fosse. É só um cara com um laptop e uma camiseta com o logo do disco novo dele. DJs invariavelmente são homens com aquele bronzeado de estúdio e um conhecimento quase autista sobre discos de EBM fora de catálogo e sons techno bass de sintetizadores que fazem o nariz sangrar. É isso que faz deles o que são, e vamos deixar os caras complementarem sua renda roubando as pessoas no Discogs. Claro, existem alguns poucos que já viram o sol nascendo um monte de cezes e ganham grana suficiente pra fazer eles mesmos acreditarem que são astros do rock, mas as únicas pessoas na Europa que continuam ouvindo o Justice são os franceses. 

O Moodymann disse uma vez que “o talento está nos toca-discos”, e mesmo que isso seja modesto vindo de um produtor tão foda, ele disse tudo. Ninguém quer DJs com complexo de Bono. Há uma razão pra safra atual de superestrelas do EDM se esconder atrás de máscaras e cortes de cabelo enigmáticos, e é porque eles são sem graça pra caralho, então pare de olhar pra cabine como se estivesse numa igreja. 

A MÚSICA DEVERIA TE DEIXAR FELIZ
Por último e talvez o mais importante, isso não é nu metal, gente. O Bush já saiu da Casa Branca, vocês estão quase conseguindo todas as liberdades que os europeus têm, vocês não precisam de outro Woodstock 99 e ninguém quer ver um monte de gente fazendo careta e se pisoteando até a morte numa roda de pogo. Sei que ficar amontoado e lamber a orelha dos outros não se encaixa naquela coisa de “individualismo rude” de vocês, mas experimentem. O parentesco que você vai sentir com o seu colega homem vai ser útil quando vocês estiverem desfrutando do futuro socialista que a gente tanto espera. 

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