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      Falei Com um Português que Está Morando nas Ruas de São Paulo

      January 17, 2013


      Fotografia por Matheus Chiaratti.

      Luís Felipe Gomes tem 28 anos. Em 2009, enquanto se debatia com o desemprego e com a doença da mãe viúva, Luís decidiu aceitar uma proposta de um amigo e ser mula de droga, entre o Brasil e Portugal. Foi pego e condenado a seis anos e três meses de prisão na Penitenciária Cabo PM Marcelo Pires da Silva, em São Paulo, mais conhecida como Torre de Babel devido à convergência de reclusos provenientes de diversos países. Ali, trabalhou dando aulas de português e de história. Três dias de trabalho na prisão davam direito a um dia de redução da sua pena, pelo menos em teoria.

      No mês passado, foi concedida a ele sua liberdade condicional. Contudo, Luís está impedido de sair do Brasil até 2014. Sem poder trabalhar, por não ter consigo os documentos (que estão na posse da Polícia Federal), este palmelense vive do apoio dos amigos e de um centro de apoio a cidadãos portugueses. Suas queixas são ter sido abandonado e as inúmeras dificuldades que tem enfrentado.

      Tentei falar com o Consulado Português em São Paulo e com a Casa de Portugal pra tentar obter algumas respostas. Ninguém pode ajudar — Luís não pode ser reencaminhado pra Portugal. O processo está, novamente, a ser revisto, mas, pra já, não há respostas. Quis saber como é que ele estava desde a nossa última conversa. Por isso liguei pra ele e conversamos bastante.

      VICE: Olá Luís. Onde você está agora?
      Luís Gomes: Estou numa favela em Guaianases, em São Paulo.

      Agora você tá livre, mas trabalhava dentro da prisão. Dava aulas e sei que cada três dias de trabalho equivaliam a menos um dia de pena, certo?
      Não é bem assim que funciona, porque trabalhei três anos, mas apenas me deram sete meses [de redução da pena]. Só fico livre em 2014.

      Como é que foi estar na tal Torre de Babel?
      Pra já, aquilo é só pra estrangeiros. Só há lá gente de fora. Só por aí, dá pra ver como é a diferença de culturas entre cada um. Não é fácil conviver com tantas culturas diferentes, porque cada povo tem a sua maneira de pensar, as suas tradições, as suas opiniões, as suas formas de ver as coisas. É difícil. Temos de fazer com que toda a gente conviva mais ou menos bem, fazer com que as coisas corram, tentar levar pra frente e superar a situação.

      Como é que foi dar aulas?
      Posso dizer que foi agradável. Deu pra trocar muitas experiências com eles. Senti que os ajudei.

      Havia lá muitos portugueses que tiveram o mesmo problema que você, de transportar droga?
      Muitos. E estão a passar as mesmas dificuldades que eu passei quando lá cheguei. Alguns até já estão em Portugal.

      Como é que está a tua mãe? Sei que aceitou este trabalho porque o seu pai tinha falecido e a sua mãe não estava bem de saúde.
      Por agora, sim. Está tudo bem, graças a Deus.

      Ouvi dizer que começaste a fumar na prisão. Já parou?
      Já! [risos]

      Acho bom. E olha, quem te levou pro Brasil foi um amigo seu, o que aconteceu com ele?
      Nunca mais ouvi falar dele.

      Não passou o contato dele pras autoridades quando foi preso?
      Não.

      A tua pena vai até 2014 e, neste momento, você está em liberdade condicional. Quando você foi libertado e o que fez depois?
      No dia 4 de dezembro de 2012. Andei por aqui, a tentar fazer-me a vida.

      Foi ao consulado?
      Fui à Casa de Portugal, o consulado reencaminha-nos pra um centro de apoio aos portugueses. Mas eles não podem fazer nada, porque o consulado não lhes dá rédeas pra isso. A única coisa que eles fazem é dar uma carta que tem um envelope com uma recomendação, e mandam-te pra um albergue. Ou seja, chegas lá e, em vez de ser um albergue pra portugueses — seria muito mais fácil, acho que é uma coisa que eles podiam muito bem fazer: arranjar uma casa, alugar uma casa pra todos os portugueses que estivessem a passar por dificuldades, que estivessem nestas condições —, chego lá e mandam-me pra um sítio debaixo da ponte. Pra debaixo da ponte. Pra viver debaixo da ponte.

      Mas então não te tinham encaminhado pra um albergue, aonde podia dormir?
      Pois, é isso. Quando lá cheguei, o albergue era debaixo de uma ponte.

      Isso, basicamente, é morar na rua.
      Sim, é como encaro as coisas. E, pra eles, sou considerado um morador de rua. O consulado não quer fazer nada. Só pra veres, pra eu ir ao consulado, pra entrar dentro do consulado do meu país, tenho de marcar hora. Onde é que já se viu isto?

      Nem sei o que te dizer.
      Pois. Que consulado é este? Não é nada. Sinto-me desprezado pelo meu próprio país. Como português, e eles como portugueses que dizem ser, deviam arranjar alguma maneira de me tentar ajudar, de fazer um termo de responsabilidade pra eu assinar. Eles são a autoridade máxima de Portugal aqui. Não há o mínimo apoio. Se não fosse a Suede, que trabalha no centro de apoio e que é cinco estrelas, eu ficava aqui abandonado. E depois dizem o quê? Não cometam crimes? Como é que não se faz isso, se há tanta gente a passar fome aqui, a viver na rua? Esse é o problema daqui.

      Liguei ao consulado e falei com a chanceler Maria Fernanda Dias, que me disse que ninguém sabe que você foi lá. Aparentemente, não há dados que digam isso.
      Claro. O que é que vou fazer no consulado? Vou é ao centro de apoio, que é onde me ajudam. Onde me dão algum apoio, por mínimo que seja.

      Mas também falei com a Suede e ela disse que você ia pra a casa de um amigo e que recebia dinheiro da sua mãe, e que você não quis ficar no albergue.
      A minha sorte foi a minha mãe ter-me enviado esse dinheiro, porque senão tinha de lá ficar.

      Fala mais sobre o albergue. É, literalmente, ao ar livre?
      O albergue pra onde nos encaminham é pra onde vai toda a gente. Qualquer tipo de pessoa. Desde moradores de rua, drogados, tudo o que possas imaginar. Vão  todos pra lá. O albergue é debaixo de uma ponte, de um viaduto. Tem umas paredes, mas depois entras lá dentro e é à la garder. Há uma sala grande com duzentas e tal camas, beliches. Durante a noite, não tens onde guardar as coisas quando estás a dormir. E sentes as pessoas a mexerem-te nos bolsos, a mexerem-te no corpo, na camisola. Percebes?

      Sim. E comida?
      Davam-me uma refeição.

      Você tem alguns amigos no Brasil?
      Se não fossem eles… A minha sorte são eles, têm-me arranjado coisas. Tenho andado com eles.

      Está conseguindo trabalho?
      Arranjar trabalho até consigo. Mas tens de ver uma coisa: eu não tenho documentos.

      Por que é que a polícia tem os teus documentos?
      Não sei, não faço ideia. Nem lá, no centro de apoio, me sabem dizer.

      Vamos recapitular. Você foi libertado em dezembro pelo bom comportamento. Mas por que é que tem que cumprir o resto da pena aqui no Brasil?
      É a lei. Quando me dão o benefício, pela lei, não me posso ausentar do país sem ter a autorização deles, uma autorização prévia da justiça.

      Já tentou pedir essa alteração?
      Já, fui à central da Polícia Federal aqui. A resposta é que eles têm um recurso especial em Brasília e que, enquanto não sair, não podem dar seguimento à expulsão. Ou seja, sem essa ação protocolar, eles não podem dar encaminhamento à minha saída.

      Com a expulsão você ficaria impedido de regressar ao país pelo resto da sua vida. Quer isso?
      Pá, se for a única maneira, claro que quero.

      Seria possível ser extraditado e cumprires o resto da pena em Portugal, se o Ministério dos Negócios Estrangeiros fosse envolvido?
      Acho que sim. Por que não? São dois países irmãos, é o que eles dizem. Acho que deviam dar esse apoio aos portugueses. Se somos dois países irmãos, como dizem que somos, não consigo entender por que não o fazem. Em Portugal, não se tratam os brasileiros como nós, portugueses, somos tratados no Brasil.

      E está disposto a cumprir a pena, mesmo que isso envolva ficar numa prisão portuguesa?
      Sem dúvida nenhuma.

      Em Portugal você trabalhava com eletrônica…
      Sim, em Palmela, na Autoeuropa. Gostava de continuar aí.

      Achas que, se voltar pra Portugal, você será prejudicado por causa deste tempo no Brasil?
      Acho que não, por que haveria de ser?

      Se não for extraditado, o que mais queria que te acontecesse aí?
      Os meus documentos, sem dúvida. Porque, com eles, já posso fazer aquilo que quero.

      Que é…
      Passei nas universidades de São Paulo. Podia acabar o vestibular aqui e tentar estudar no Brasil. Mas, pra isso, preciso dos meus documentos.

      Como é que você sobreviveria estudando?
      Podia concorrer a bolsas de estudo. Pelo menos, estaria a estudar, teria uma formação e como aqui é um mercado aberto, talvez pudesse ter uma boa profissão, um bom emprego e deixava-me ficar. Quem sabe?

      Se arrepende daquilo que fez?
      Arrependo, claro que sim.

      Conseguiu ficar com o dinheiro do trabalho?
      Não. Não tenho nada que me ajude a sobreviver aqui.

      Quando foi libertado sentiu que foi um "presente de grego"? Do tipo "tá livre, mas agora se vira, estamos cagando e andando pra você".
      Senti. Foi como se me tirassem do poço dos leões pra me enfiar no das cobras.

      Como é que você está, física e psicologicamente?
      Estou bem, graças a Deus. Tenho muito que agradecer por isso.

      Essa favela onde você está agora é tranquila?
      Felizmente, sim. Aqui é calmo, só há pessoas humildes. Claro que há muitos bandidos, mas onde estou, não.

      Como é que foi parar aí?
      Foi o meu amigo, estou a morar numa espécie de casa.

      Boa sorte, Luís. Espero que tudo se resolva.

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      Tópicos: Luís Felipe Gomes, Portugal, imigrantes, prisão, drogas, mulas, português, Ana Rodrigues, Matheus Chiaratti

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