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      Fazendo Amizade com as Prostitutas da Suíça

      December 20, 2012

      Por Elena Viale e Giorgio Viscardini

      Na Itália, como em todos os outros países do mundo, é comum ver garotas — com ou sem pênis — paradas nas esquinas, vigiadas por algum cafetão de jaqueta de napa e corte de cabelo brega. O ato de vender o próprio corpo não é realmente um crime por aqui, mas ajudar ou induzir a venda é, o que faz o ramo da prostituição ser meio complicado, especialmente se você não curte muito passar as tardes numa cela.

      Mas pra quem quer fazer um extra em parceria com suas vaginas, a Suíça, logo ali depois da fronteira, é um paraíso pra trabalhadores do sexo, sendo um dos poucos países da Europa no qual a prostituição é legalizada. O Bar Oceano, um bordel familiar histórico na cidade fronteiriça suíça de Lugano, é um dos marcos da indústria do sexo suíça, então, meu amigo Giorgio e eu fomos até lá pra papear com o Ulisses, o dono de 60 anos do hotel, e Nicola, seu braço direito.



      Depois de sermos recebidos por um segurança monolítico, rumamos pra recepção do bordel. Descobrimos rapidamente que o Ulisses já tinha ido pra casa naquele dia pra assistir TV de pijama, mas ele deixou sua sobrinha Diandra, de 19 anos, na gerência. Diandra nos falou um pouco sobre como o bordel geralmente funciona: “Os clientes entram no lounge, pagam uma taxa de cobertura que inclui uma bebida e todas as garotas se alinham na frente deles”.

      Diandra nos deu um bom conselho, algo de que vamos lembrar se formos nos aventurar a ganhar dinheiro com sexo pago em algum momento no futuro: “Nunca escolha a primeira garota, elas são sempre as mais desesperadas”.

      Você tem que se registrar como prostituta profissional pra poder trabalhar na Suíça, o que, por lei, só cidadãos da União Europeia têm permissão pra fazer. Até o ano passado, o governo suíço fazia vista grossa, o que significava que garotas do mundo inteiro (mas principalmente da América do Sul e da Europa Oriental) se aglomeravam nos bordéis daqui, mas desde que a vigilância se intensificou, só ficaram as garotas romenas.


      Diandra na recepção.

      Apesar de parecer que tudo aqui funciona dentro da lei, o bordel ainda tem seus problemas com a polícia. “Todas as nossas garotas têm visto, mas a polícia sempre acaba encontrando algo de que não gosta”, contou Diandra. “Primeiro, os preços dos quartos eram muito altos, depois eles nos proibiram de deixar as garotas abordarem os clientes, o que é considerado solicitação.”

      Depois de fazermos o passeio completo, pedimos pra conversar com algumas das garotas. Diandra nos levou até o lounge VIP, onde nos disse pra escolher qualquer uma das garotas à disposição. A primeira garota com quem conversamos foi a Paola, uma romena de 27 anos que trabalhou anteriormente na Espanha, mas que agora mora na Suíça. Ela pareceu não ter nenhuma reserva quanto a sua linha de trabalho, porque “trabalho é trabalho e eu faço isso pelo dinheiro”.

      A Paola faz tudo — “tudo mesmo” — no seu quarto extremamente cheiroso e pink, cheio de móveis da IKEA: mijar nas pessoas, lamber pés, sodomizar homens e usar fantasias variadas. Uma vez ela até usou uma fantasia de cachorro, o que me deixou preocupada com os cães da vizinhança desse cliente em particular. Muitos de seus clientes são italianos casados, mas ela afirma que nunca pôs os pés na Itália porque as prostitutas de lá são “um lixo, elas nunca se lavam e transam nos carros”.



      Voltando ao lounge, trombamos com a Sofia, uma romena de 26 anos que deu uma voltinha sedutora em seus saltos e nos levou pro seu quarto no segundo andar. Sofia mora na Suíça há cinco anos e não parece querer ir embora. “O Oceano é o melhor!”, disse. Ela fala sete línguas, se formou em economia e conseguiu um trabalho de garçonete quando terminou os estudos. Aí percebeu que servir mesas não era pra ela e decidiu se mudar pra nação dos canivetes e do gruyère pra vender seu corpo por dinheiro.

      Mas ela não era uma especialista no começo. Como em qualquer profissão, a prostituição tem sua própria curva de aprendizado. “No começo, você não faz certas coisas com pessoas que não conhece”, disse Sofia. “Levei meu primeiro cliente pro quarto, mas não sabia direito como fazer um boquete e acabei machucando ele. Me encontrei de novo com esse cara três anos depois — ele saiu satisfeito e elogiou meu trabalho. Fiquei feliz, estou aqui pra fazer um bom trabalho.”



      Rossana, uma romena de 31 anos, esticou a cabeça pra dentro do quarto de Sofia e se juntou a nós na cama. Rossana chegou à Suíça há apenas cinco meses, mas já tinha ganhado um reputação pela fidelidade dos clientes, que sempre voltam por sua marca claramente única de afeição: dormir de conchinha e fazer massagens. Ela nos disse que eventualmente gostaria de voltar pra Romênia, abrir um salão de cabeleireiro e ter um filho, mas planeja ficar mais um tempo na Suíça pra juntar dinheiro. Logo acima na fronteira, a Itália também tem um movimentado comércio sexual, mas Rossana teme que trabalhar na Itália não seja seguro. “Tem sempre alguém nos bastidores, então as garotas nunca veem o dinheiro. É por isso que eu sempre digo pros clientes virem pra cá ao invés de ficar por aí nos becos”, segundo ela.

      Enquanto conversávamos com as garotas, ouvimos a Diandra no telefone argumentando com a professora do jardim de infância da filha porque esqueceu de buscá-la, então ela saiu rapidamente, nos deixando com Nicola, a face noturna do Bar Oceano. O homem é um workaholic nível Trump. “Recebo de 30 a 40 telefonemas por dia. Sou o contador, o psiquiatra, o padre e o faz-tudo. Ah, e o tradutor de romeno, mesmo não falando nada de romeno.”


      Nicola com duas das garotas do Oceano.

      Nicola tem 38 anos e trabalha na cena da luz vermelha há pelo menos 20. “Era muito mais divertido antes”, conta. “Tínhamos muitas brasileiras, que são garotas muito divertidas — acabei me casando com duas delas.” Nicola fica um pouco fora de si quando lembra os dias de glória da indústria suíça do sexo. “As brasileiras vivem pro sexo. Elas acordam pensando em sexo e vão dormir e sonham com sexo a noite inteira. A linha entre sexo por dinheiro e sexo de graça pras brasileiras é muito tênue. As romenas não são assim; elas começam relutantemente com cada cliente, às vezes até tratando eles mal, e você tem que dizer pra elas o que fazer — até pra sorrirem.”

      Nicola começou no ramo como a maioria dos homens começa, entrando pela porta como cliente. Depois acabou escolhendo as garotas pros bordéis. “Você sabe como é”, observa ele, como se todo mundo tivesse feito uma carreira no mercado internacional de carnes. Sentindo que ele pode ser um tipo arrogante, pergunto ao Nicola quanto dinheiro o bordel faz por mês. “Não sei. Recolhemos o aluguel das salas e só. Mas era sempre divertido com as brasileiras. Elas iam fazer compras toda segunda-feira com o dinheiro do final de semana, quem gastasse mais era a vencedora.”

      Nicola gosta de contar o tipo de histórias que, se não estivéssemos num bordel no subúrbio industrial de Lugano, pareceriam apenas piadas sujas e vulgares. Ele nos regalou com contos de funis anais — “um cliente queria ver quanta água uma das garotas conseguia segurar” — e da vez que alguns jogadores do AC Milan apareceram por ali: “Quando as meninas os viram, perderam qualquer habilidade de raciocinar direito”.

      De repente, Nicola sai da sala e retorna com um sorriso ávido no rosto, mostrando orgulhosamente Emily, sua favorita pessoal e a única garota sul-americana que ficou no bordel, como se fosse um follis romano da sua coleção de moedas. “Eu a chamo de Blondie”, diz Nicola. Emily não vive na Suíça, prefere viajar até Roma todo dia, onde vive com a mãe e a filha e estuda economia. Emily diz que o começo foi difícil. “Eu chorava e odiava tudo, me sentia suja”, diz ela. Mas depois de um tempo, ela começou a se entender com sua nova profissão e agora vê isso como uma forma de juntar dinheiro enquanto estuda pra ser contadora.

      Nessa hora, o telefone tocou, era um cliente pra Emily. Então ela nos agradeceu e foi embora, levando o Nicola também. O turno dele já ia começar e ele tinha que lidar com um surto de conjuntivite: “Quando uma garota pega, todas ficam doentes".

      Encaramos isso como a deixa pra ir embora, agradecemos nossos anfitriões e dirigimos de volta pra Itália. Conversando sobre nossas experiências no Bar Oceano, percebemos que nossas visões liberais não eram tão liberais assim. Nos forçamos a acreditar que a prostituição é como qualquer outro trabalho, desde que seja regulamentada, mas estávamos errados.

      Imaginamos ingenuamente que talvez entrássemos num prédio no qual as garotas — prostitutas legalizadas — não teriam que se oferecer tão abertamente; mais damas do que damas da noite. O que descobrimos, no entanto, foi que trabalhar no Oceano não era tão diferente de trabalhar nas ruas da Itália. Você tem uma cama e uma pensão, claro, mas, no final das contas, isso não muda o fato de que você passa a maior parte do seu tempo tentando fazer sexo com homens velhos e vulgares por dinheiro.

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      Tópicos: Prostitutas, Suiça, sexo, bordel

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