Música

Ficando Grisalho Com o Nomeansno

By Al Burian

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O Nomeansno foi formado em 1979 em Victoria, no Canadá, pelos irmãos John e Rob Wright. Desde o começo, a banda sempre teve um som único e facilmente identificável, liderado pelo jeito agressivo como Rob toca o baixo, e pelas letras instigantes de confronto. A música do Nomeansno pode ser descrita como uma mistura virtuosa de rock progressivo, punk e jazz fusion. Nos 33 anos de existência da banda, os irmãos Wright viram punk rock, new wave, pós-punk, hardcore, indie rock, alternativo e grunge passarem pela janela, tudo isso enquanto se recusavam alegremente a se encaixar em qualquer uma dessas categorias. Durante as décadas de 80 e 90, a banda lançou discos pelo selo Alternative Tentacles do Jello Biafra e, desde 2002, eles têm lançado material novo e reeditado pelo seu selo próprio, o Wrong Records.

Entrevistei o baterista John Wright antes do show mais recente deles em Berlim.

VICE: Um dos temas recorrentes do Nomeansno é o envelhecimento. Que idade vocês têm atualmente?
John Wright: Acabei de fazer 50, nosso guitarrista Tom tem 52, e o Rob acabou de fazer 58. A gente sempre foi os caras mais velhos. Especialmente meu irmão Rob, que escreve a maior parte do material — ele é oito anos mais velho que eu. Desde que começamos a tocar, sempre andamos principalmente com gente da minha idade. Então ele sempre foi mais velho do que todo mundo em volta. Comecei a ficar grisalho aos vinte e cinco, e foi a mesma coisa com o meu irmão. Então, no meio do punk rock, sempre parecemos mais velhos, a banda mais velha. Não é algo pelo qual somos obcecados, é só que, com a idade, vem a experiência. Você começa a cantar e falar sobre as coisas que são mais aparentes e relevantes pra você.

E a banda continua sendo um projeto em tempo integral?
Foi aos trancos e barrancos por um tempo. 2007 foi um dos anos mais agitados – entre o final de 2006 e 2007 fizemos 172 shows. Ficamos bem ocupados nos anos 80 e 90, mas logo depois tive filhos e nossa agenda começou a ficar meio complicada. Agora meu irmão Rob também tem dois filhos, então começamos a ter outras agendas envolvidas. Nos últimos quatro anos ficamos cerca de três meses na estrada, aproximadamente. Não é uma agenda superagitada. Tentamos evitar agendas muito movimentadas porque isso acaba destruindo a banda.

Meu filho mais velho tem 16 anos, e o mais novo tem 12, faz 13 daqui uma semana. Nos últimos dezesseis anos, quando vou pra casa, sou o papai. É isso que eu faço. Agora as crianças estão ficando mais velhas; em poucos anos, meu tempo livre vai voltar a ser só meu. Por enquanto, eu levo as crianças pros jogos de futebol. É, eu sei, é um estilo de vida rock'n'roll cheio de glamour.

Quando a banda começou, você tinha 17 anos. O Nomeansno sempre teve um som único e os primeiros discos já mostravam uma gama impressionante de influências: jazz, rock progressivo, pop, experimental, punk e new wave. Como você desenvolveu um repertório musical tão expressivo ainda tão jovem?
Acho que nossa família era relativamente musical. Minha mãe era professora de piano. Ela amava música, meu pai amava música. Quando meu irmão e minhas irmãs mais velhas eram adolescentes, toda a Beatlemania e a explosão da música nos anos 60 fizeram deles amantes da música popular e isso cresceu rumo ao hard rock, acid rock, reggae e jazz — e do nada foi tipo, "uau, tudo isso é besteira", veio o punk e era tudo novo outra vez. Fui seguindo isso depois, mas ouvia tudo isso em casa o tempo todo. Eu tocava os discos de 45 RPM das minhas irmãs quando tinha quatro ou cinco anos, ouvindo as músicas pop dos anos 60. Eu nem conseguia ler os títulos, só conhecia as imagens nas capas e as músicas que queria ouvir. Então sim, a música estava lá. Venho de uma família da classe trabalhadora irlandesa. Amantes da dança, esse tipo de coisa. Eu, pessoalmente, não, mas você sabe — isso está na cultura, está no nosso sangue, é de onde você vem. Pros meus pais, crescendo no pós-guerra nos anos 50, a música era uma saída. Você dançava. Era uma parte especial da sua vida fora do trabalho, como é agora pra muitas pessoas. Não era diferente naquela época. Então, sim, acho que sempre houve muita música em volta. Havia um amor pela música e um sentimento ao redor dela muito antes do Nomeansno.

Vocês começaram na era do vinil, viveram toda a era do CD e agora estão entrando na era digital. Estamos vendo o colapso da indústria musical, a proliferação do compartilhamento de arquivos e uma desvalorização quase total da música gravada como mercadoria. Músicos mais velhos tendem a ser hostis a esses desenvolvimentos. O que você acha dessa questão? Você fica puto quando os garotos baixam música?
Essa é só a realidade do mundo em que eles cresceram. O lado positivo da internet e da gravação digital é que isso te dá acesso. Não tenho nada contra a internet, mesmo baixar música não me incomoda tanto. Só acho que agora é mais difícil pras pessoas estabelecerem uma identidade. Porque há muita imitação e cópia do que você vê. Há muito acesso! Você vê tudo o tempo inteiro, então tudo fica sem sentido. Você só enxerga um borrão. Você não presta atenção porque já está esperando pelo que vem em seguida.

O problema é que isso mutila uma geração de músicos. É difícil ser músico em período integral. Se você não consegue fazer algum dinheiro, não tem como continuar. Quer dizer, não é um hobby. Se você não pode viver disso, não dá pra continuar focado. É simples assim. Acho que é realmente difícil pros jovens músicos agora. Hoje é a loteria da internet. Se acontece de você ser a banda que ganha atenção e vira viral... Você fica conhecido por uma música e todo mundo fala sobre você, mas se não tiver experiência, não consegue levar isso adiante. Fizemos muitos, muitos shows antes de tocar pra uma plateia significativa. E isso é difícil pros jovens músicos entenderem, que você tem que tocar o tempo todo. Fazendo dinheiro ou não, você tem que tocar. MUITO. Se você está fazendo algo realmente interessante e as pessoas começam a ouvir falar de você e vão te ver tocar e é uma bosta, porque você simplesmente explodiu e não tem experiência pra sustentar o que está fazendo, ou porque você não consegue sobreviver na estrada, já que todo mundo enlouquece nas turnês — desse jeito você vai fracassar.

A antiga indústria da música, em certo sentido, era dirigida por uma corporação, era controlada por outras pessoas que não os músicos, o que era o lado ruim. Mas o lado bom era que as bandas eram desenvolvidas. Os selos estavam constantemente trabalhando pra fazer suas bandas crescerem, e ninguém esperava que você fizesse sucesso até o terceiro ou quarto disco. Quando finalmente você se tornava popular, você realmente sabia o que estava fazendo. Acho que toda a ideia de desenvolver músicos é mais difícil agora. Agora é só pular na van da banda, há toda uma indústria de festivais itinerantes com grupos de gêneros de bandas. Isso torna tudo mais anônimo e mais difícil de se destacar no meio da multidão e ser notado.

Você escuta muita música contemporânea? Você descobriu alguma coisa interessante ultimamente?
Comigo é assim, sempre ouvi o que as outras pessoas estavam ouvindo. Sabe, o que estivesse nos toca-discos. Quando eu era adolescente, meu irmão comprava todos os discos, então nunca tive realmente que comprar nada, já tinha tudo lá. Nunca na minha vida houve uma música específica que eu ouvisse. Mas, por exemplo, o empresário da nossa turnê colocou um disco do David Axelrod, um baterista de jazz dos anos 60 que se tornou produtor e compositor, e era um disco fantástico, música fantástica. Isso realmente me lembrou como eu gosto dessa coisa de big band, swing, esses grandes arranjos de metais e tudo mais. Porque lembro disso de quando era criança, aprendendo a tocar essas coisas. Um dos gêneros que mais gosto é música de filmes. Carl Stalling, por exemplo, que fez todas as músicas dos desenhos Looney Tunes. Adoro essas coisas. Adoro punk rock, adoro música agressiva. Tenho ouvido muita música eletrônica porque meu irmão só ouve isso ultimamente. De muitas maneiras, a música eletrônica agora é a vanguarda, é a música que está fora da indústria e que atrai o público que está à margem. Ela utiliza as ferramentas de hoje pra fazer música. Quem realmente está fazendo algo novo na guitarra? Quando foi a última vez que você ouviu uma banda com guitarra fazer algo que você já não tivesse ouvido antes em algum momento? Pode haver uma nova personalidade. Na verdade, rock'n'roll é a mesma música tocada de novo e de novo, só que feita por uma nova personalidade, uma nova entidade.

Como você vê o futuro do Nomeansno?
Ainda temos alguns discos pra lançar, acho. Só depende da saúde das pessoas, da vida das pessoas, se isso vai continuar sendo viável, se vamos continuar ganhando dinheiro suficiente pra fazer isso, se vamos estar felizes com o que estamos produzindo. Não vamos lançar discos só por lançar. Não é como se eles vendessem muito também. Pra mim, tenho que estar empolgado com o que está sendo criado. E a logística do que é viável financeira, física e emocionalmente pra viajar e realizar. Enquanto for assim e enquanto for divertido, não há razão pra parar. Essa turnê foi maravilhosa. Considerando que todos nós evitamos o mainstream, nos saímos muito bem.

Não acho que nossa música soe datada. Se você nunca nos ouviu antes, você não vai pensar: “Ah, eles soam como alguma coisa dos anos 80”. Não soávamos como se fôssemos dos anos 80 nem nos anos 80. Nesse sentido, acho que ainda somos relevantes pra garotada. Da mesma maneira que um cara de vinte e poucos anos curtiria o nosso som em 1983, caras de vinte anos podem curtir a gente agora. Só que agora parecemos com os avôs deles.

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