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      Infeliz Natal

      December 26, 2012

      Então foi Natal, o que provavelmente significou comilança, encontrar aquelas pessoas que você só vê uma vez por ano, e sofrer infinitamente com as piadas delas — principalmente do Tio do Pavê e da Tia do E-Os-Namorados/as. Mas é a sua família, e você tem que lidar com isso. Sabe o que ajuda em situações como essa? Álcool. Que também é a razão da existência das histórias de terror natalino abaixo.

      Ilustrações por Sam Taylor. Siga-o no Twitter @sptsam ou visite seu site samtaylorillustrator.com.

      FESTA PÚBLICA

      A festa de Natal da firma na qual eu trabalhava um par de anos atrás tinha exatamente o tipo de ambiente opressivo e indutor de suicídio que você espera de um lugar que venda artigos de escritório no atacado. Todo mundo lá chamava Linda ou Allen e seus rostos cinzas e carrancudos eram um lembrete de por que a morte nem sempre é algo ruim. Mas tinha essa moça chamada Katie que coloria os meus dias. A gente se xavecava por e-mail e sempre almoçávamos juntos, mas nunca nos encontramos fora do ambiente de trabalho. Os baldes de álcool grátis da festa provavelmente causaram o que aconteceu em seguida.

      Saímos para fumar um cigarro e, de repente, nós estávamos nos catando. Ninguém mais no escritório fumava, porque eram todos uns merdas obcecados com coisas como câncer e doenças pulmonares. Então, nós sabíamos que tínhamos o corredor para gente. Abaixei a sua saia, ela puxou a minha calça e foi lá mesmo. Tudo acabou bem rápido. Voltamos para o escritório e passamos o resto da noite bebendo vinho ruim e lentamente morrendo por dentro.

      Na manhã seguinte, enquanto eu entrava na firma, percebi os meus colegas de trabalho mais animados do que nunca. Todo mundo cochichando, uns sorrizinhos aqui e ali, e então ouvi uma risada. Antes que eu pudesse perguntar o que tinha acontecido, começou uma entusiástica salva de palmas, e entendi na hora o que tinha acontecido. As imagens minhas com a Katie no dia anterior espalhadas pelas paredes do escritório confirmaram minhas suspeitas. Estranhamente, não fui demitido e nem tomei uma advertência, mas as tentativas de merda de piadas que se seguiram à festa foram o suficiente para me convencer a vazar e forjar meu caminho no desemprego.

       

      O JEITO PERFEITO DE ARRUINAR UM DIA

      É costume de onde eu venho chapar ao máximo na véspera de Natal. Eu não sei por que, parece meio absurdo, considerando que você vai passar o próximo dia inteiro bebendo e comendo a maior refeição do ano, mas enfim. Bem, num ano — um ano no qual meus avós, tia, tio e primos jovens estavam hospedados na minha casa — o bar fechou e eu e meus amigos não tínhamos tomado o suficiente, então eu tive a grande ideia de voltar para a minha garagem e usar o MDMA que compramos para a véspera de Ano Novo.

      Após uma grama, um dos meus amigos sugeriu que entrássemos em casa para aproveitar as boas vibrações dos presentes e da árvore de Natal. Óbvio, parecia uma excelente ideia, e foi isso que nós fizemos. Cerca de dez minutos depois, porém, isso já não era suficiente, por isso decidimos abrir um presente de cada vez e depois embalá-los novamente. Não tinha como dar errado.

      Porque abrir presentes é emocionante e porque o MDMA faz coisas interessantes serem duas vezes mais emocionantes, o volume de nossas vozes instantaneamente subiu enquanto rasgamos os papéis de presente, acordando todo mundo na casa. Enquanto estávamos pulando loucamente e cavando mais e mais os presentes, um dos meus amigos engasgou. Eu me virei para ver toda a minha família assistindo eu e seis dos meus amigos arruinando o Natal de todos. Eu nunca ouvi minha mãe gritar tão alto, fazendo um dos meus primos começar a chorar e minha avó passar mal.

      Passei as próximas três horas tentando arrumar o que eu tinha feito com papel de embrulho que minha mãe tinha deixado, em seguida, me tranquei no meu quarto, dormi durante o almoço de Natal e esperei até a noite, quando ouvi meu avô cantando bêbado. Daí me juntei a eles. Moral da história: não use drogas e estrague o Natal da sua família. 

       

      NUMA FRIA

      Numa noite de Natal, fui para o único bar/boate que minha cidade tem para oferecer, e trombei uma menina com quem eu havia ficado algumas vezes na época da escola. Sabe quando você sente na hora que algo vai acontecer com alguém? Assim que nos vimos, eu sabia que essa era uma dessas vezes, por isso não perdi um minuto, fui e beijei a gata sem nem falar nada. Funcionou, obviamente, já que eu sou um garanhão. Saímos e pegamos um táxi para irmos até a casa dela.

      Sentado no banco de trás, ela abriu minha calça e começou a me chupar. Incrível, pensei, até que ela levantou a cabeça, me olhou nos olhos com a expressão mais confusa que já testemunhei no meio de uma felação e começou a dizer: "Não, não, isso não é certo. Nós não podemos fazer isso. É Natal. Natal é coisa de família".

      Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ela me pôs para fora do táxi. Era um cruzamento, o chão estava coberto de neve, eu estava com bolite, minhas cuecas estavam saturadas com aquele líquido pré-gozo e começou a chover granizo. Fiquei ali, confuso, por mais de uma hora, até que um jovem casal parou seu carro e me emprestou um telefone para ligar para os meus pais. Olha, buscar seu filho bêbado, vestindo cuecas congeladas num cruzamento realmente não é o presente de Natal ideal para nenhum pai.

       

      UM MILAGRE DE NATAL

      Eu sou da Austrália — é, eu sei, lá é uma merda —, e alguns anos atrás decidi passar meu primeiro Natal longe dos meus pais e fiquei em Londres com um casal de amigos. Na verdade, fizemos tudo direitinho. Compramos os vegetais, um peru tamanho-família, uma pequena árvore e álcool suficiente para afogar uma manada de rinocerontes. Por volta das 04:00, o estoque estava se esgotando rapidamente e, percebendo que não havia nenhuma loja aberta, decidimos ir ao parque.

      O amigo menos bêbado (apenas nove cervejas, em vez de 14) levou nós quatro até o Kennington Park. Imaginei que seria uma boa estacionar na grama para ouvir música bem alto e usar os faróis para iluminar o que estávamos fazendo.

      Não sei foi a gritaria, o thrash metal em decibéis elevados ou forte cheiro de skunk que atraiu a atenção da polícia, mas era obviamente algo inevitável. Estacionando ao nosso lado, os dois policiais saíram do carro e andaram até a gente, balançando a cabeça o tempo todo. Coletivamente, pensávamos que estávamos ferrados. É isso, pensei. Meu primeiro Natal longe de casa e vou passar a noite em uma cela. Perfeito.

      De pé em frente de mim, o maior policial começou a falar: "Olha, eu sei que é Natal e um momento de celebração, mas vocês realmente não podem se comportar assim em público. Heavy metal e álcool tudo bem, mas drogas? Acho que isso é um pouco demais”. Pensei que já era, passaria o resto da minha noite preenchendo papelada e sentado em uma cela fria em vez de beber mais e vomitar. Mas o cara continuou: "Olha, é Natal. Não tô com vontade de lidar com vocês hoje, prefiro passar a noite com a minha família, mas só me prometam que vão direto para casa e que vão ficar lá".

      Todos nós rapidamente concordamos e agradecemos, daí os dois policiais deixaram o nosso obviamente intoxicado amigo levar todos para casa. Foi um verdadeiro milagre de Natal.

       

      UMA QUESTÃO FAMILIAR

      Essa vai bater qualquer outra história bunda-mole que tem aqui, pode confiar. Para começar, o meu tio é um merda e um psicopata. Ele é um cuzão. O marido da minha prima — genro do meu tio — é exatamente o oposto: uma alma gentil que fez uma licenciatura em Sociologia e escuta Zero 7 para descontrair.

      Enfim, com o passar do dia e mais e mais álcool consumido, a conversa começou a ficar mais agressiva — não tinha muito assunto, mas todo mundo cada vez mais irritado mesmo assim. Uma discussão sobre os jogadores de futebol e os seus salários começou, que é sempre um papo difícil com meu tio. Ele estava sugerindo que os jogadores de futebol merecem um salário maior do que os enfermeiros porque seu trabalho exige mais dedicação, treinamento e habilidade. O marido da minha prima, muito diplomaticamente, sugeriu que sim, mas que talvez eles sejam pagos mais porque há mais dinheiro no setor, mas será que eles realmente merecem?

      Eu podia ver o sangue do meu tio ferver. O mais lógico e pragmático que seu genro ficava, mais ele ficava puto, grunhindo e rangendo os dentes. Acho que a gota d'água foi quando o marido da minha prima disse, "os jogadores de futebol não oferecem qualquer coisa de real valor para ninguém", porque foi então que meu tio pegou uma faca e enfiou diretamente na coxa do seu genro.

      Toda a sala irrompeu em diferentes formas de histeria. Gritos, choro, correria. Jogaram toalhas na perna do pobre rapaz para parar o sangramento. Uma vez que a loucura arrefeceu, o genro abaixou as calças para mostrar que a ferida era superficial. Havia uma grande quantidade de sangue, mas nenhum dano duradouro, felizmente. Estranhamente essa experiência deixou os dois homens muito próximos e eu não ouvi um pio de debate entre eles desde então.

      Ilustrações por Sam Taylor. Siga-o no Twitter @sptsam ou visite seu site samtaylorillustrator.com.

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      Tópicos: Natal, contos, Bebidas, drogas, Sam Taylor

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