©2014 VICE Media LLC

    The VICE Channels

      Masoquismo Musical - Um Dia com o Jota Quest

      February 20, 2013

      Por Paulo Marcondes

      Além do horizonte existe um lugar, um local onde eu jamais imaginei chegar na minha vida, algo que agora, lúcido, me arrependo amargamente de ter feito: passei nove horas do meu dia no que chamaram de “masoquismo musical”. Não sacou? Simples, eu baixei vários discos do Jota Quest, coloquei no meu player e ouvi praticamente o dia todo quase a discografia deles. Resolvi pular os primeiros e o em espanhol, porque eu gosto mesmo é de hits.

      Dei play nos seguintes álbuns: Oxigênio, De Volta ao Planeta, MTV Ao Vivo, Discotecagem Pop Variada e Até Onde Vai, e aposto que escutei músicas do Jota Quest que ninguém nunca ouviu, se pá nem o Flausino. Tirando os hits, que são ruins, as músicas que estão lá só para completar o álbum são bem piores do que as escolhidas para bombar. Eu cheguei a ouvir o Jota Quest mandando eu me ligar e lembrar quando for votar.

      A tortura completa você acompanha aí embaixo, dividida por período do dia que aguentei escutar isso e, olha, mais uma vez, foram nove horas. Para quem pensou que corajoso era alguém que escutava um álbum, isso foi um recorde. Bom, na verdade, é digno de aplausos um cidadão escutar cinco sons do J. Quest seguidos.

       

      Manhã
      Tive que ir a Osasco, acordar muito mais cedo do que estou acostumado, andar arrotando na rua por conta de problemas estomacais, colar num Poupatempo, desafiar caminhões na rampa do estacionamento e enfrentar um sol razoavelmente potente às 8h. Mas eu fui e estava de boa, porque “se você quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha Sol, é pra lá que eu vou”.

      No ônibus, sentei num banco perto do motor e não conseguia ouvir direito, talvez por isso eu estivesse de boa, mas aí aumentei o volume da parada, joguei os bracinhos timidamente e... Me bateu uma puta tristeza. Entretanto, ela sumiu como um pássaro que já buscou sua minhoca em algum buraco de um solo fértil, e eu estava “na moral, na moral, só na moral”.

      Em alguns momentos do masoquismo, eu ria freneticamente com os falsetes do Flausino. Num lapso, uma coisa me chamou muito a atenção nas letras do Jota Quest: qualquer trecho serviria para um subnick de uma mina de 13 anos no MSN, na longínqua época de 2005. Duvida? Um pequeno apanhado: “Eu, por exemplo, tatuaria em mim, todas as telas do mundo, por um sorriso teu... sincero”. Ou ainda na mesma faixa: “Por que você me faz correr tanto, se uma flor arrancada não sobrevive mais que alguns minutos?”. Ou melhor ainda: “Pedi ao vento pra trazer você aqui / Morando nos meus sonhos e na minha memória / Pedi ao vento pra trazer você pra mim”. Chega.

      Como a manhã foi a parte do dia que mais ouvi e quando a descoberta era maior, continuemos nela ainda para finalizar e já entrar num abismo suicida: o Jota Quest falando de política. O trecho que mais me chamou atenção foi este: “Eu peço a atenção ao povo / Quando for eleger de novo / Se lembre de tudo / Que pense no futuro”. Então a consciência política do CQC é de 2005? Do disco Até Onde Vai? Parabéns, Flausino.

       

      Hora do Almoço
      Estava começando a ficar num mau humor da porra e isso era notável, até porque meu estômago dançava Psy de tão ruim que estava, e não descarto alguma teoria de um psicólogo loucão que o meu problema gástrico, naquele momento, tinha total relação com as letras, a melodia e a voz de Flausino.

      A cada música que passava e eu trabalhava, ficava mal humorado. Estava cansado, de saco cheio de tudo, estilo Don L, “Pra Mandar O Mundo Se Fuder”. Até que me chamam para almoçar. Graças ao bom Deus, pensei, só que já era tarde demais, eu já havia sido contaminado e o mau humor continuou.

      “O amor não tem lógica”, diz Flausino em alguma música de um de seus álbuns. Respondo mentalmente: “Nem o que eu estou fazendo”.

       

      Tarde

      Essa foi a pior parte do dia, sem sombra de dúvida. Ninguém me suportava, nem eu mesmo. Foi foda. Meu estado de espírito não era mais “na moral”, eu queria explodir tudo, pique aquela cena de Um Dia de Fúria, quando o Michael Douglas pega um lança míssil no meio da obra e fode com tudo. Ótimo, eu estava exatamente como o William Foster e, se eu visse alguém com um chapéu idiota, produziria o clássico diálogo: “Agora você vai morrer com esse chapéu idiota. Como você se sente?”.

      Passar por aquilo foi como tentar atravessar uma sala de tortura usada naquele filme merda, O Albergue. Mas, depois de um tempo, relutei, ouvi o Thaíde mandando umas rimas no Acústico MTV, lembrei dos subnicks, calculei o tempo, vi que o fim se aproximava e me animei, apesar do sono e do mau humor continuarem lá.

      Meu último som foi “Dias Melhores”. Nada como terminar essa sessão de masoquismo esperando por dias que não deixarei para trás e serei melhor em tudo, principalmente nas ideias que tenho, como passar o dia inteiro ouvindo bandas como essa.

       

      Conclusão
      Não façam isso. Passei um dia escutando Capital Inicial e foi muito mais legal, o Dinho Ouro Preto caiu de uma parada e fala que pneus de carros cantam tchururu e tem toda aquela fita de se achar um meninão de 20 anos, enquanto o Flausino só faz um pseudodiscurso sobre guerras, paz, liberdade e uma suposta vibe boa.

      Eu não sei de qual guerra ele fala, não o vi fazendo nada, não o vi buscando por liberdade, não sei se ele sabe o que é isso. Só sei, na verdade, que “a nossa liberdade é o que nos prende”. Algum filósofo francês chato deve ter chorado muito em algum lugar do “além” quando viu que conseguiram chegar a algo que ele nunca tinha pensado.

      Resumindo: o Jota Quest é tipo o U2 brasileiro sem entrar na trilha sonora de jogos de futebol para videogames de 128 bits, sem o Flausino aparecer com umas faixas em shows e sem rolar umas fotos com crianças desnutridas na África.

      Leia também:

      Masoquismo Musical: Fui Detonado Pelo Detonautas

      Siga o Paulo no Twitter

      -

      Tópicos: Jota Quest, Rogério Flausino, música ruim, Paulo Marcondes, masoquismo musical, zuera

      Comentários