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      Nobuyoshi Araki

      February 15, 2013

      Por Tomo Kosuga

      ENTREVISTA E RETRATO POR TOMO KOSUGA
      TRADUZIDO DO JAPONÊS PARA O INGLÊS POR LENA OISHI

      Lá no Japão vive um monstro incansável que já lançou mais de 450 livros de fotografia — e que continua tirando fotos todos os dias. Seu nome é Nobuyoshi Araki. Quem não o conhece direito, depois de um olhar superficial, pode ver apenas um velhinho tarado. E sim, às vezes os assuntos dele são supereróticos, e não só quando ele fotografa mulheres. Ele pode fazer qualquer coisa se tornar sexy. Quem mais conseguiria fazer uma foto do chão que parece tanto uma vagina que você começa a pensar seriamente em se masturbar? Só o Araki. Existem zilhões de fotógrafos no mundo, mas nenhum viveu e respirou fotografia tanto quando ele. Produzindo constantemente, ele às vezes chega a lançar 20 livros por ano — uma proeza que só pode ser realizada por causa de seu foco perpétuo no cotidiano. E ele também escreve livros sobre fotografia. Suas palavras mágicas tornam suas imagens ainda mais potentes. Infelizmente, a maioria de seus livros foi publicada apenas no Japão e a gente não sabe ler japonês. Por isso mandamos o Tomo da VICE Japão conversar com o Araki. Cansado de ser entrevistado incontáveis vezes durante sua carreira, Araki tentou demolir o rapaz desde o começo. Mas Tomo não matou várias aulas da faculdade para ficar lendo a coleção inteira dos livros do Araki por nada. E assim começou uma batalha de vontades sobre fotografia sem precedentes...

      VICE: Hoje quero te perguntar sobre fotografias.
      Nobuyoshi Araki: Olha, se você quer saber sobre as minhas fotos é só ler um livro ou coisa assim. Vocês jornalistas sempre acabam fazendo as mesmas malditas perguntas toda vez. O que exatamente você quer saber?

      OK, bom, por que você não começa falando da primeira vez que pegou uma câmera...
      Não, não, não, esquece! Vamos esquecer isso tudo. Eu vou embora. Vai assistir TV ou alguma coisa assim — não enche o meu saco. Não vou mais fazer essa merda. Você já deve saber todas essas coisas. É um saco. E nem vem me perguntar sobre os meus projetos atuais. Não me pergunte sobre a primeira vez que eu tirei uma foto ou algo do tipo, é patético. E eu não preciso que você escreva outro desses artigos para pessoas ignorantes que não me conhecem, OK? Não dou a mínima. Não estou interessado em dinheiro ou fama. Não estou mais procurando por isso.

      Bom, então posso perguntar sobre todos os livros de fotos que você publicou?
      Que pergunta idiota, cara. Sobre qual deles você quer falar? Eu já publiquei 450 livros, pelo amor de Deus.

      Em EROTOS, você fez flores normais e rachaduras no asfalto parecerem genitálias masculinas e femininas. Por que você acha que suas fotos acabam sendo tão eróticas?
      Por que elas acabam sendo tão eróticas? Porque eu as fotografei. É assim que minhas fotos são. Você está imaginando por que elas parecem eróticas? Isso é o que é, sabe? Você vai continuar me fazendo essas perguntas idiotas e escrever isso no seu artiguinho? Ah, qual é, você pode fazer melhor que isso. Já me perguntaram isso um milhão de vezes, colega.

      Bom, vamos falar então sobre o seu livro Kofuku Shashin [“Fotografias da Felicidade”]. Comparadas com suas fotos mais antigas, essas lembram mais aqueles retratos que os pais tiram de suas famílias, me parece que elas ultrapassam a linha do que é quase um tabu nas suas fotografias antigas. O que te fez mudar a percepção tão drasticamente?
      Então você notou isso, né? Você não é tão sem noção no final das contas [risos]. Isso acontece provavelmente porque agora acredito que “a felicidade é o melhor estado”. Só isso. Ao invés de fotografar algo que parece com uma fotografia profissional, quero que meu trabalho pareça íntimo, como se alguém do círculo íntimo do assunto da foto a tivesse tirado. Agora que sou mais velho posso finalmente dizer que felicidade é realmente o melhor estado para se estar. Isso é meio brega, né? Quando se é jovem você tenta manter uma distância do seu assunto e ser totalmente descolado de tudo, mas eventualmente é isso que você acaba sentindo. Também notei que tanto fotógrafos amadores quanto profissionais pararam de fazer esse tipo de foto. Então tentei fazer isso eu mesmo e... Adivinha? Foi muito mais difícil do que fotografar coisas como as do EROTOS. Com o EROTOS eu só tentei ser o mais cheio de tesão possível e funcionou, mas em Kofuku Shashin foi uma questão de criar uma relação com o assunto.

      Certo. Com esse tipo de coisa há o perigo das imagens acabarem parecendo retratos profissionais, mas você não queria isso.
      Exatamente. Todo mundo acha que “arte” significa se afastar um passo de algo familiar e precioso para você. Mas minha posição é: “Não faça um trabalho de arte, não 'faça' fotografia”. Dito isso, com EROTOS o conceito inicial era criar um livro de fotografias finais, em que o público fosse forçado a entender as fotos sem nenhum texto. Não estou dizendo que isso é mau ou que foi um erro. Não quero dizer que um é melhor que outro, é apenas o fato de que, na posição em que estou agora, a noção de Kofuku Shashin é mais atraente para mim. Acho que envelheci ou fiquei mais sábio, sei lá. [Risos] Não é que estou desistindo do meu erotismo. Quando você desiste disso, perde a força de viver. De qualquer maneira, quando você compara os dois livros é difícil acreditar que é a mesma pessoa atrás da câmera, o mesmo fotógrafo, né? Tem tipo uns cinco Arakis dentro de mim.

      Kofuku Shashin consiste principalmente de fotos instantâneas. Você pediu permissão para cada uma dessas pessoas antes de fotografá-las na rua?
      No passado ninguém me conhecia, então eu podia tirar fotos de pessoas aleatórias secretamente. Não posso mais fazer isso porque elas me notam antes. Isso significa que preciso me comunicar com elas antes de fazer cada foto. Mas, no final, acho que é o melhor para ambas as partes porque nós dois ficamos conscientes da existência do outro. Eu os faço rir e esquecer dos problemas mundanos de ontem e tentar criar nosso próprio tempo diminuto juntos. E eu fotografo esse momento. Isso é muito mais profundo. Claro que a relação espacial que criamos para nós mesmos naquele momento também é importante, mas o tempo que compartilhamos é muito mais atraente e precioso para mim. Sem ser pedante, é como se eu enquadrasse “tempo” ao invés de “espaço”. Isso é o que diferencia minhas fotos do resto delas. E é aí que está a felicidade, sabe? No “tempo” que passamos juntos.

      Acho que é por isso que as expressões das pessoas nessas fotos são tão distintas.
      Claro, porque a “fotografia da felicidade” que faço agora é sobre compartilhar tempo e felicidade com os outros naquele momento. Ainda há um pouco de autoconsciência ali, mas essa é mais uma razão pela qual acho que captar um sorriso efêmero é melhor do que fotografar um retrato elaborado.

      Mas você disse uma vez que “uma câmera é um pênis”, e sua postura era sobre desencadear essa ferramenta nos seus assuntos.
      Claro, mas agora ela se tornou uma boceta, o exato oposto. Agora sou eu que aceito e envolvo, como uma vagina mesmo.

      Entendo. No seu projeto Nihonjin no kao [“Faces do Japão”] você viajou para várias províncias no Japão e fotografou os cidadãos de lá. Ouvi dizer que você fotografou todos que viram o anúncio e te procuraram.
      Mas não há nada com o que se surpreender, o mundo à nossa volta é tão magnífico que você não consegue parar de fotografar. Existe o termo “expressão artística”, mas eu acredito que as pessoas que se expressam verdadeiramente são os assuntos, sabe? Não tem nada a ver com o fotógrafo tentando expressar coisas. Não é assim que funciona.

      Então você está dizendo que precisa envolver seus assuntos?
      Sim, porque essas pessoas na sua frente, os assuntos, são muito mais extraordinárias que você. Todas têm seu próprio charme. Mas geralmente elas nem têm consciência desse charme, então você precisa descobrir isso e apresentar a elas, do tipo: “É isso!”. Elas irradiam toda essa aura, então nosso trabalho é bombear essa aura ainda mais e devolver isso a elas captando tudo no filme. É assim que abordo meu trabalho.

      Então você não quer necessariamente fotografar apenas pessoas bonitas.
      Não. Não faço distinção em termos de assunto. Você tem sempre que ser capaz de aceitá-los e envolvê-los. Eles são incríveis, cada pessoa tem essa coisa ultraespecial e única dentro dela. Geralmente os fotógrafos têm suas preferências, e alguns podem realmente querer fotografar uma atriz em particular ou algo assim, mas eu não tenho isso. Qualquer coisa e qualquer pessoa que eu tenha o privilégio de encontrar é significante por si só. Algumas pessoas podem parecer babacas, mas você tem que ter aceitação o suficiente para pensar que talvez você esteja projetando uma ideia preconcebida nelas, e que elas não são realmente babacas. Dessa maneira você pode ser capaz de descobrir algo legal sobre elas. Agora é fácil dizer isso, mas tenho que admitir que tem muita gente filha da puta por aí! [Risos]

      Como muitos dos seus trabalhos, essa série também sugere que você tem a intenção particular de fotografar o Japão. Por que é assim?
      Você tem que fotografar o que está à sua volta, o que é familiar. Frequentemente sou convidado para visitar outros países, mas quando chego lá sempre penso: “Merda, preciso fazer mais fotos do Japão”. Então foco na minha vizinhança e nas coisas que estão à minha volta na vida cotidiana, como a minha namorada. Quer dizer, somos japoneses, então você não precisa dizer conscientemente para si mesmo para fotografar o Japão. Isso deve vir naturalmente para você. No meu caso, eu pensava assim “OK, eu deveria fotografar um bando de japoneses”, o que levou a “Bom, por que não fotografo o país inteiro?”, e isso eventualmente resultou na série “Faces do Japão”.

      Tem que ter muita energia só para conceber fotografar o Japão inteiro.
      Eu sei! Que dizer, fotografei entre quinhentas e mil pessoas em cada província. Só estive em seis províncias até agora e não acho que vou ser capaz de terminar esse projeto. Não vou poder fazer isso para sempre! Eu vou morrer! [Risos] Tenho só mais alguns anos para viver. Mas geralmente eu tenho uma ideia e invisto nisso mesmo sendo algo muito vago. Uma vez que começo a trabalhar e encontrar mais e mais rostos, eu aprendo algo novo com eles o tempo todo.

      Por exemplo, muitas pessoas vêm até mim quando peço voluntários, e obviamente essas pessoas são de todos os caminhos da vida. Tenho casais de idosos que me dizem: “Por favor, tire uma foto nossa porque estamos juntos há 60 anos, mas não temos nenhuma foto do nosso casamento” e assim por diante. Ou ainda: “Temos um novo neto, por favor, tire o retrato da nossa família”. No passado, minha posição era focar nos sentimentos que emergiam através da relação entre eu mesmo e o assunto, mas quando as pessoas me procuram hoje em dia ou quando um casal pede “Tire uma foto nossa, por favor”, eu descubro que os sentimentos e emoções que eles têm um para com o outro são muito mais fortes que os meus. Percebi que posso fazer muito mais do que uma foto se focar no relacionamento que meus assuntos têm entre si, ao invés do relacionamento entre eles e eu. Fotografar todas essas pessoas me ensinou muito sobre a essência do ser humano. Kofuku Shashin foi o ponto final dessa percepção. Você não pode fazer esse tipo de fotografia quando é jovem — é muito constrangedor. Mas, de verdade, é a melhor coisa. Como quando você vai para o parque na época do desabrochar das cerejeiras e você vê duas crianças escalando o pai que está deitado numa toalha de piquenique, com a mãe sentada discretamente ao lado. Você não pode superar isso, sabe? Não existe nada igual no mundo. Acho que estou num ponto agora onde tenho espaço suficiente no meu coração para finalmente ser capaz de dizer: “Uau, isso é muito incrível!”. Olha o que eu estou dizendo, parece que eu vou morrer logo ou algo assim!

      Engraçado. Então te aconteceu algo interessante ultimamente? O que mais é novidade?
      Tudo é sempre interessante para mim. Uma coisa que veio à minha mente foi uma exposição minha em Berlim chamada Kinbaku [“Bondage”], consistindo de 101 fotografias em preto e branco. Fizemos uma festa de inauguração e todo mundo ficou louco. As pessoas estrangeiras são tão fascinantes. Eles são tão esquisitos que até as entrevistas para a TV são diferentes. Eles fazem umas coisas do tipo: “Eu trouxe uma corda, me amarre, por favor” e conduzem o resto da entrevista amarrados. Com a câmera rodando e tudo mais, sabe? Teve outro incidente — claro que eu não falo a língua deles, então não sei exatamente o que estava acontecendo — no qual essa fã do meu trabalho tirou toda a roupa no meio da galeria e começou a esfregar o quadril em mim. Eu fiquei pensando “Que porra é essa?” e, de repente, ela puxou um absolvente interno da vagina e veio na minha direção balançando aquela coisa em cima da cabeça!

      Epa.
      Ela era completamente louca. Foi muito surreal! [Risos] Então, sim, essas coisas são interessantes para mim, pequenos incidentes como esse.

      Seus retratos de bondage fazem com que isso pareça diferente de alguma forma da imagem típica que se tem disso.
      Muitas pessoas me dizem isso, e quando elas dizem isso eu falo que “libertei suas almas amarrando seus corpos”. Meio sem noção, né? Até pouco tempo atrás eu costumava dizer “não amarro suas almas, só seus corpos”. Mas agora eu digo o contrário, porque perguntei a uma garota o que ela preferia e ela disse que gostava mais da ideia de “libertar a alma”. Então fiquei com essa mesmo.

      Você trouxe o EROTOS com você hoje, né? Uau, é incrível que você tenha isso. Quando eu vou para outros países, muitas das críticas ou pesquisadoras mulheres me dizem: “Araki, de todos os seus livros, acho que EROTOS é o melhor”. Legal, né? As flores são eróticas para os meus olhos. Elas são todas Eros. Quando você percebe que são órgãos reprodutores, elas começam a parecer paus e bocetas. Esse livro é um clássico. Só faço cerca de quinhentas ou mil cópias de cada livro, mas se ele é bom então acho que isso é muito. Gosto da ideia de que só essa quantidade de pessoas tenham o livro. Em todo caso, é incrível que os dois livros que você trouxe hoje foram o EROTOS e o Kofuku Shashin. Você deve ter um olho especial para essas coisas.

      Obrigado. Então talvez você possa me dar algumas dicas de como tirar fotos brilhantes de milhares de mulheres.
      Bom, você precisa fazer sexo com elas! [Risos] Sério, isso ajuda um pouco. Sabe, se conectar com elas e tocá-las fisicamente. As pessoas hoje em dia negligenciam o toque. Todas tentam manter distância. Elas não se conectam com a cidade, com as mulheres, elas nem sentem com os olhos. Eu tenho uma ereção imediatamente quando toco numa garota, sabe?

      Sei. Muito obrigado pela entrevista.
      Ei, você deveria ficar um pouco mais. Primeiro eu queria ir embora porque você estava me fazendo perguntas idiotas, mas agora está tudo bem. Quer dizer, você trouxe o EROTOS e o Kofuku Shashin, pelo amor de Deus. Você passou! Olha, vou te levar para outro refúgio secreto meu. Vamos!

       

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      Tópicos: Nobuyoshi Araki, fotos eróticas, Erotismo, Japão, vaginas, fotografia, Entrevista, fotógrafo, EROTOS

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