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      Notícias de uma Tourada Mexicana

      April 10, 2012

      Por Andrew Pry Ortega

      (Rafael Ortega)

      A Espanha, como todo mundo sabe, veio, viu e conquistou praticamente tudo do sul do México pra baixo, a cavalo e com espadas desembainhadas. Juntamente com o sarampo e o Catolicismo, veio a antiga tradição da corrida de toros, também conhecida como tourada. Esse espetáculo pegou em todo o antigo império espanhol, mas em nenhum lugar tanto quanto no México. Atualmente o país tem em torno de 220 arenas de tamanhos e qualidades variados. A maior do mundo, a Plaza del Toros da Cidade México, comporta 42 mil fãs, uma capacidade equivalente a do estádio londrino Stamford Bridge. Mas eu queria alguma coisa mais intimista, então fui para Merida, na península de Yucatan.

      O evento do último domingo de fevereiro estava lotado e fui obrigado a recorrer aos cambistas e pagar o dobro do valor do ingresso — 800 pesos, quase 115 reais. Geralmente um bom jeito de encher a casa é ter a participação de um famoso toureiro espanhol; aparentemente o México tem as arenas e a Espanha fornece as estrelas. O nome no letreiro naquele dia era Pablo Hermoso de Mendoza, um cara bonitão considerado o maior rejonador do mundo. Um rejonador, para os não iniciados, é um toureiro que trabalha a cavalo. O popular matador mexicano Rafael Ortega e alguns outros completavam a lista de atrações.

      (Pablo Hermoso de Mendoza)

      O calor daquela tarde foi ficando cada vez mais sufocante conforme eu ia até o meu assento. Uma banda militar preguiçosa começou a tocar, e um instante depois um touro de quase meia tonelada investiu através dos portões da arena. Nas três horas seguintes, cinco touros lutariam e eventualmente morreriam na arena. Mendoza impressionou a multidão com manobras a cavalo que lembravam a graça de uma bailarina, apesar de que suas empinadas e sorrisos para a plateia fossem muito Las Vegas pro meu gosto. No entanto, foi Ortega que fez a apresentação mais dramática da tarde, durante sua segunda luta. Ortega ficou a poucos centímetros do touro por cerca de 30 minutos, se contorcendo e dançando com toda a arrogância, graça e bravura que se espera de um toureiro. Ele deu as costas para o touro, recebendo gritos e aplausos da multidão. Uma espada foi enfiada no pescoço do animal, e Ortega apontou para a besta que caiu morta instantaneamente. O corpo sem vida e encharcado de sangue foi então arrastado pra fora da arena por um time de cavalos.

      Não é surpresa que grupos de direitos dos animais e separatistas catalães sejam contra touradas. Os primeiros denunciam seu propósito bárbaro e sem sentido, e os últimos associam isso ao passado colonial que preferiam esquecer. “Eles não matam os coitados dos touros?” é uma reação crítica que você vai ouvir até do público mais mente aberta. A resposta é sim — os touros são mortos, mas há raras circunstâncias onde o touro é perdoado.

      Parece estranho que os norte-americanos que devorariam alegremente um bife que compraram no supermercado fiquem tristes e com raiva porque um punhado de touros é apunhalado até a morte (Aliás, os touros mortos durante um Correo são transformados em carne que é doada para instituições de caridade locais). Enquanto em alguns casos o público das touradas é metropolitano — em Madri e na Cidade do México — ele se mantém um esporte principalmente rural, amado pelos homens e mulheres que trabalham em ranchos e que estão ativamente envolvidos com produção de comida — pessoas que têm uma visão mais clara do ciclo natural da vida e ficam mais confortáveis assistindo animais morrendo do que os manifestantes urbanos. Você não vê uma vaca sendo morta com uma martelada no crânio antes de comer um hambúrguer, mas não quer dizer que isso não aconteça.

      Recentemente banidas da Catalunha e do Equador para deleite dos detratores, as touradas podem eventualmente acabar não por causa dos protestos, mas por indiferença. A plateia das touradas é de velhos; a juventude mexicana tem pouco interesse na prática antiga de movimentos lentos. O público vem caindo em todo o país e os jogos da NBA chegam via satélite. Não há mais espaço para um espetáculo tão sangrento e agrário num mundo que quer sanitarizar tudo, até a violência inerente ao esporte. Ernest Hemingway e Teddy Roosevelt ficariam realmente chateados.

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      Tópicos: México, tourada, Esportes, Rafael Ortega, Andrew Pry Ortega

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