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      O Avô do Pornô Gay

      May 28, 2012


      Peter de Rome; Londres, 2012.

      Durante os anos 60 e 70, Peter de Rome fez quase 100 filmes, a maioria só de brincadeira. Esses filmes mostravam homens — incluindo ele mesmo — se masturbando, transando, chupando, metendo e se divertindo pra cacete. As pessoas começaram a prestar atenção no trabalho de Peter em 1973, quando sua produção Hot Pants bombou no Wet Dream Film Festival, de Amsterdã, e desde então seus filmes são celebrados por sua beleza cinematográfica por aqueles capazes de apreciar a composição e iluminação de uma cena pornô mesmo enquanto se masturbam.

      Tudo isso rendeu ao Peter o apelido de “Vovô do Pornô Gay”. O senhor de 87 anos é considerado um cara “bem legal, de verdade” e seu amigo Ethan Reid recentemente fez um filme sobre sua vida e obra para ajudar o Peter a celebrar o sublime que existe dentro da comunidade de arte-pornô. O filme se chama Fragments: The Incomplete Films of Peter de Rome. Assista ao trailer abaixo:


      Trailer de Fragments.

      Fui encontrar o Peter para saber um pouco mais sobre isso e várias outras coisas interessantes. Nos encontramos num quarto de hotel em Covent Garden, Londres. Reparei que a fechadura da porta estava quebrada. Peter contou que “tomou muito vinho” na noite anterior e, de algum jeito, acabou quebrando a porta.

      O cara é incrivelmente legal. Aqui está uma lista das coisas que discutimos, mas que acabaram não entrando nesta entrevista:

      - Ele aparece no filme Bonequinha de Luxo porque trabalhava no balcão da Tiffany na época.
      - Ele filmou o que provavelmente é a última aparição em tela da Greta Garbo (num filme pornô gay).
      - Ele se divertiu muito em Fire Island nos anos 60.
      - Dois de seus maiores fãs eram William S. Burroughs e Sir John Gielgud (que mais tarde escreveu um roteiro para Peter para um pornô chamado Trouser Bar).

      O resto você pode acompanhar por aqui.

      VICE: Como você começou a fazer filmes?
      Peter de Rome: Bom, comprei uma câmera quando viajei para o sul [dos EUA] para trabalhar pelos direitos civis em 1963. Achei que ia usá-la para isso, mas acabei usando para pesquisas particulares, gravando caras que eu achava interessantes, o que me levou a experimentar com nudez. Eram filmes de arte.

      Isso enquanto você estava trabalhando com o movimento dos direitos civis?
      Entrei para o teatro Free Southern. Eles tentavam levar o drama para as pessoas de todo o sul dos Estados Unidos. Viajávamos com todas essas peças pela América branca. Fizemos até Esperando Godot com cara branca.

      Caras negros com maquiagem branca na cara?
      Podia ser muito confuso ver gente negra e branca numa peça tão engraçada e estranha. Então eles disseram: “Nada de caras negras, vamos branqueá-las”. 

      Seus filmes têm sido descritos como metade ajuda masturbatória e metade filmes de arte. Qual foi a ideia inicial, o que você buscava criar?
      Acho que são mais “o que essa pessoa pode fazer que o interesse comercial não pode?”. E de algum jeito queria colocar gente nua nos filmes. Então fiz algumas tomadas de mim mesmo, pelado, me masturbando ou algo assim, e coloquei bem no meio de outro filme. Mandei isso para Kodak e felizmente eles mandaram de volta.

      Você chegou a perder algum filme na Kodak?
      Alguns. Eles decidiam não revelar um filme quando continha material que eles não tinham permissão para mandar através das fronteiras dos estados.

      Tinha muita pornografia rolando na época para quem quisesse achar?
      Não, nem um pouco.

      Então não havia um ponto de referência?
      Não, eu não tinha visto nenhuma pornografia masculina chegar a isso, nem mesmo hétero. Garganta Profunda foi o grande avanço, acho, e achei esse filme uma bela merda.


      Do filme Double Exposurede Peter de Rome.

      Seus filmes não me pareceram exibicionistas, mas sim profundamente pessoais. Mas você os passava nas festas para os seus amigos. Como era isso?
      Ah, só por diversão. Geralmente eles diziam: “Podemos ver suas fotografias?”. Isso porque eu tinha muita coisa impressa. Às vezes eram duas ou três pessoas, outras vezes eram 20 ou 30, dependendo da situação.


      Peter guarda seus recortes de jornal bem organizadinhos, em sacos plásticos.

      Um filme que ficou na minha cabeça foi Underground, com o hippie e o homem de negócios fazendo sexo no metrô. O que inspirou esse filme?
      Foi uma coisa que aconteceu comigo e com muitas pessoas que usam o metrô. Quando estava lotado, todo tipo de coisa podia acontecer. Tive tantos encontros no metrô. Nada nunca se realizou completamente, só uma apalpação e algumas vezes eu conhecia alguém lá e levava para casa, mas não era frequente. A ideia toda era ver até aonde a gente conseguia levar isso. 

      Se isso é uma fantasia, que fantasia seria? A do hippie ou do homem de negócios?
      Os dois, acho.

      E o hippie e o parceiro dominante?
      Sim, claro.

      É uma coisa muito louca ver as pessoas no vagão se virando ou ignorando a filmagem numa cena de abertura de um filme pornográfico. Como foi filmar isso?
      Quando o hippie entra no trem, é dia — o movimento do começo da manhã ou algo assim, e tínhamos dois caras com câmeras olhando de fora. O nova-iorquino blasé não estava interessado nisso. Um ou dois caras se voltaram para olhar, mas não estavam muito interessados. No final, temos toda a cena de sexo tarde da noite e no começo da madrugada.

      Tinha mais alguém no vagão enquanto eles estavam transando?
      Você viu aquele cara?

      O cara no canto. Ele estava em outro vagão e vocês fizeram uma montagem para parecer que ele estava lá?
      Não, ele estava no mesmo vagão durante a coisa toda e não acordou. Adorei usar ele. Bem no finalzinho, quando esse cara cambaleia para fora do trem e pega o jornal, ele diz: “Vocês não têm senso de decência?”. Achei isso muito engraçado.

      Quanto tempo levou para filmar?
      Só um dia, a filmagem da manhã, quando tem um monte de pessoas, e à noite filmamos o sexo. Durante a noite ficamos esperando perto dos trens, estávamos na West 4th Street, os guardas do metrô vieram até nós e disseram: “A gente já viu vocês por aqui, o que vocês estão fazendo?”. E a gente disse: “Nos perdemos, temos que pegar o trem F”. O sexo aconteceu no trem F indo para o Queens [risos]. 

      Quem são os atores de Underground?
      Os dois rapazes vieram de Boston. Falei para o meu produtor em Jackson Park: “Ah, não seria divertido fazer uma história com os dois no metrô?”, e ele disse: “Eu topo. Mas como vamos convencer os caras?”. Os dois estavam ouvindo e disseram: “Que ideia maravilhosa, vamos fazer sim”.

      Você escalava pessoas do seu círculo pessoal com frequência?
      Às vezes. Na maioria das vezes os pegava na rua. Nesse outro filme chamado Movers in the Rear — acho que você não viu esse —, um cara está procurando uma sala para alugar e enquanto vê os prédios encontra uns entregadores. Sua cabeça fica girando enquanto ele olha para todos esses garotos bonitos. Então ele aluga a sala e chama todos esses garotos de entrega, um por um. Um garoto chega e eles começam a transar e depois outro, e outro, e aí tem um fila de garotos do lado de fora do escritório dele esperando para entrar.


      Um teaser de Fragments.

      Hahaha. Todos os seus filmes parecem ser temáticos, como se tivessem um sabor visual distinto ou um motivo. Fiquei pensando sobre o filme Violation, como você teve a ideia de usar o parquímetro de “violação” em que o cara fica inclinado?
      Ele era um michê da 3rd Avenue, que ficava perto de onde eu morava. O pessoal chamava de “o quarteirão dos michês”, então eu costumava passar lá todo dia e ver o cara ali. Não tinha pensado na coisa da violação, mas quando o vi achei ele legal, foi por isso que o abordei e disse: “Você gostaria de fazer um filme?”. E ele disse: “Claro”.

      É um filme bem curto, não dá tempo de ficar entediado.
      Fiquei superfeliz quando ele voltou da Kodak. É um dos primeiros e me incentivou a fazer os mais longos, com dez até 12 minutos. A maioria dos meus filmes tem essa duração, o que eu acho que é o suficiente para um filme pornô, principalmente se for solo. 

      Acho que você diz no Fragments que essa é a duração ideal de uma punheta. Você considerou alguma vez ter diálogos nos seus filmes, ao contrário de uma trilha sonora?
      Adoraria ter feito, mas não pude. Isso é uma coisa que gosto muito de fazer, encontrar a música certa. Tenho uma grande coleção de LPs. Quando mostrava os filmes, costumava levar meu projetor e um tocador de fita cassete.

      Você já tinha visto seus filmes?
      Não.

      Como foi vê-los enquanto estava trabalhando no Fragments?
      Foi interessante, mas fiquei tecnicamente preocupado com coisas como iluminação e tal.

      Foi nostálgico olhar para trás, para essa época? Deve ter sido uma época realmente divertida para se viver.
      Era uma época selvagem, exuberante. Quer dizer, havia um lugar em Nova York chamado Trucks próximo do rio Hudson, no lado oeste, e as pessoas podiam ir até lá tarde da noite e subir nesses caminhões vazios e fazer muito sexo. Era fantástico. Lembro de ter ido até lá e dado uma olhada, mas não estava interessado em nada para mim mesmo. Aí vi um cara negro fechando as janelas de uma escola e e achei ele lindo. Ele era muito lindo, o zelador negro da escola, e eu disse: “Que horas você sai?”.  Voltei depois e o levei para casa. Continuamos amigos até hoje, sei que ele é casado e hoje em dia já é avô, mas mesmo assim tivemos bons momentos juntos.

      O que te fez parar de fazer filmes?
      Aids. Em 1980 tudo parou e fechou.

      Acho que seus filmes oferecem um vislumbre bem nostálgico de uma era anterior à Aids, uma era bem inocente.
      É, muito inocente mesmo, tudo mudou. Foi uma coisa gradual, não aconteceu de repente. Primeiro as pessoas começaram a pegar amebas. Eu não peguei, não gostava de ser penetrado durante o sexo, sempre gostei de dominar e gostava que o meu parceiro me chupasse. Mas isso é considerado coisa simples, todo mundo queria ir além. Aí eles começaram a chamar isso de "câncer gay" e as pessoas começaram a comentar. Mas não percebemos que tínhamos uma revolução em nossas mãos, depois todo mundo começou a morrer e isso foi horrível, cada vez mais amigos meus morriam e eu pensava: “Meu Deus, o que é isso?”. Sabe? Eu simplesmente não gostava mais daquilo, não era divertido.

      Você sente uma camaradagem com as gerações de homens gays que nasceram depois disso?
      Sim, foi uma época terrível, perdi pelo menos uns 25 amigos desse jeito. Isso dizimou a coisa toda, mas, não sei, faz muito tempo agora — 30 anos pelo menos. Agora ouço falar muito de gente que está deixando de se proteger, mas isso é loucura, sabe? Eles têm um nome para isso – “bareback”.

      É mencionado no Fragments que seus filmes são apontados como muito importantes culturalmente para o movimento de direitos dos gays.
      Não pensava assim, duvido que eles tenham feito muita diferença, francamente.


      Peter em frente ao cinema que exibia seus filmes.

      Lee Black Childers, o fotógrafo, diz em Fragments que “era uma época fabulosa para ser gay, porque ficar nas ruas era ilegal e isso já era uma emoção”. Você concorda com isso?
      Não concordo. Não acho que andar pelas ruas... Não, de jeito nenhum. A cena gay mudou consideravelmente hoje, eles mostraram o dedo para milhões de pessoas. Eles não têm mais vergonha ou se sentem culpados. Mas não sou realmente parte disso. Nunca fui a um protesto gay. Admito que assisti paradas gays e outras coisas e gostei muito, mas nunca fiz parte de um protesto.

      Você sentia que a perseguição contra os gays era forte?
      Sim, fui entrevistado para o Relatório Wolfenden, antes mesmo de subir ao palco, sobre alguém do alto escalão. Acredito e senti, certamente, que deveríamos ser aceitos. Essa foi a única vez que realmente me envolvi no movimento.

      Você já se sentiu perseguido?
      Não, nunca me senti.

      É bom ouvir isso. Mas, dada a polêmica dessa questão até hoje em relação aos militares, fico surpreso que isso não fosse um problema quando você estava na RAF durante a Segunda Guerra Mundial.
      Não, estava muito ocupado. Acho que como era solteiro, só tinha que pensar em mim mesmo. Considerava o meu tempo de serviço como uma chance de me divertir. Pensei: “Ah, foda-se, estou indo lá só para me divertir”. E foi isso mesmo. Viajei para a Normandia, Bruxelas e Paris, onde eu fazia a ligação entre os americanos na travessia do Reno perto do fim da guerra, e foi uma época muito boa. Conheci um americano incrível e tive um caso maravilhoso com ele, e foi isso. Quando a guerra acabou tivemos que achar nosso próprio divertimento, aí eu corria para uma dessas unidades e íamos para a parte norte da Alemanha, tínhamos nossos casos de uma noite só e muita diversão.

      Não sei como colocar isso sem parecer muito puxa-saco, mas você parece um cara muito, muito calmo. E tem alguma coisa nos seus filmes — particularmente nos mais cotidianos, como Green Thoughts ou Daydreams of a Crosstown Bus — que é bem relaxante, mas ainda assim eles são muito excitantes de assistir.
      Acho que eles são muito pessoais e fico feliz que sejam assim, porque não são como os de nenhuma outra pessoa. Mesmo que sejam em parte acidentais, porque isso é parte de mim. Não acho que já tive sentimentos muito, muito profundos sobre sexo. Não sou muito filosófico sobre isso. O filme que me influenciou mais que tudo foi Canção de Amor. Foi feito nos anos 50 e é sobre dois prisioneiros e suas fantasias, você vê um personagem numa cela e o outro na outra, e as coisas que eles passam. É um filme gay maravilhoso. Sem nenhuma cena de sexo. Esse filme me influenciou mais que qualquer coisa, e Cocteau, suas peças e a maneira como ele filmava — sou um grande admirador do trabalho dele... Ah, oi.

      [Dois homens da manutenção do hotel bateram na porta e entraram, eles vieram para consertar a fechadura da porta].

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      Tópicos: Peter de Rome, Cinema, Cinema Pornô, pornô gay, Gays, Entrevista, Joshua Haddow, Festival de Amsterdã, NSFW, sexo, Gay

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