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      O Homem que Encoxa Estranhos no Trem

      January 7, 2011

      Por Vic Touche

      O vendedor de revistas com quem cruzo a caminho do meu trabalho está sempre feliz, e é fácil saber porquê: sopa grátis, renda barata, nada de contas. Uma vez até dei pra ele um sanduíche, e outra um abraço -- porque me pediu. O sacana teve uma ereção. Eram 9h30 da manhã e eu no meio da rua, sentindo o pau duro de um vagabundo contra as minhas ancas.

      Aquilo que o vagabundo estava curtindo às minhas custas é chamado de frotteurismo, que nada mais é que o hábito de esfregar sua genitália em um estranho. Aconteceu comigo cinco vezes:

      1. Num show em Sheffield, quando um cara de Yorkshire roçou a pica de propósito nas minhas coxas.

      2. No festival de Glastonbury, quando um idiota New Age qualquer tentou relaxar o meu rabo usando o poder do seu mastro.

      3. No metrô de Paris, só que dessa vez foi mais ou menos minha culpa. Um cara veio falar comigo enquanto eu esperava o metrô e se ofereceu pra um boquete. Eu recusei. Aí ele me seguiu pra dentro do vagão e se esfregou todo em mim antes de sair na estação de Juarès. Pensando bem, o erro foi meu. “Ocupado”, em francês, pode querer dizer “excitado” ou “a fim”, por isso gritar “dá pra ver que estou ocupado, caralho” provavelmente não foi a melhor ideia.

      4. Mais uma vez no metrô parisiense. No ano passado, durante a greve, tinha um grupo enorme de pessoas em S. Lázaro e eu acabei sendo empurrado por soldados pra dentro de um vagão junto de um adolescente com um ar imponente. Passado um pouco, comecei a sentir a piça dele se esfregando contra mim. Olhei para ele de um jeito cruel, mas o lábio inferior dele tremia como se dissesse, “não consigo evitar”. Senti pena dele. Afinal, o que é a adolescência senão uma série de ereções inoportunas ocasionalmente interrompidas por situações melodramáticas?

      5. O meu vagabundo feliz.

      A minha vida parece permanentemente entrelaçada com o frotteurismo, por isso contatei um perito, o Osamu ‘Sam’ Yamamoto, que toca o site Frottophilia.com. Este senhor já escreveu duas obras de ‘ficção’ (A Frotter’s Diary, A Frotter’s Diary II) e um filme (A Man Who Kept Groping Buttocks: A Frotter’s Diary). Pelo que percebi através da minha correspondência com ele, ele parece um egoísta presunçoso que se descreve (na terceira pessoa) desta forma:

      “[Yamamoto] é uma lenda viva, especialmente na frotofilia japonesa. Conheceu sua esposa num trem (e a apalpou). Escreveu dois livros sobre o assunto baseados nas suas experiências. Depois, gravou um filme. Apesar do filme ser sobre a perversão sexual, foi muito bem aceito por todos, mesmo pelas mulheres, que o vêem como uma pura história de amor.”


      Sam Yamamoto

      Ele me passou essas instruções antes de me dar a pior entrevista de todo o sempre.

      “Peço-lhe veementemente que não utilize a palavra 'frotteurismo'. Pode até ser o termo adequado em termos médicos e acadêmicos, mas acredito que a maior parte dos leitores nunca ouviu falar sobre isso, e os poucos que conhecem a palavra vão compreender erroneamente que o artigo se trata sobre alguma coisa gay. Frotteurismo é uma palavra com muitos significados, e gay é apenas um deles. Mas eu não sou gay.”

      Não, claro que não. Bem, aqui vamos nós. Preparem-se para uma entrevista monossilábica com um frotteur.

      Vice: Quantos anos você tem?
      Sam Yamamoto: 62.

      O que faz da vida?
      Aposentado.

      É heterossexual ou homosexual?
      Heterosexual.

      Tem uma parceira?
      Sim.

      Há quanto tempo se interessa pelo frotteurismo?
      46 anos.

      Como surgiu esse interesse?
      Uma mulher me apalpou no trem.

      Algum dos seus amigos se interessa por frotteurismo?
      Não.

      Onde você prefere se esfregar?
      Onde a mulher concordar.

      Alguma vez se meteu em apuros?
      Não.

      Qual é a sua candidata ideal?
      Uma que aprecie o que estou fazendo.

      Qual é o melhor material para se esfregar (em termos de tecidos)?
      Pele nua, se ela concordar.

      Você tem alguma parte do corpo preferida?
      A buceta.

      Vê isso como uma forma de molestação?
      Não quando a mulher concorda.

      Sou muitas vezes vítima de frotteurismo por parte de outras pessoas. É porque emito vibrações gays?
      [Sem resposta]

      Vamos lá ver, frotteurismo é tipo um estupro de uma forma segura, não?
      [Sem resposta]

      No seu site tem uma frase um tanto quanto assustadora que diz: “Histórias sobre menores são toleradas, desde que relacionadas com o frotteurismo. Mas existe uma tendência para fugir do assunto. Se quiser descarregar energias enquanto pensa em meninas jovens, por favor clique aqui ou aqui”. Existem muitos frotteurs pedófilos?
      [Sem resposta]

      Bom, é melhor não chatear muito o molestador. Aqui está uma explicação da sua paixão através da bela poesia do Yamamoto:

      Esperava que, se não ela, qualquer outra me tocasse
      Todos os dias no trem, via uma mulher
      qualquer mulher, quero dizer…
      Esperava que esta ou aquela mulher me quisessem tocar
      Aproximei-me de uma mulher no trem
      Adotei uma postura indefesa
      Avancei com a minha pélvis
      Até a pressionei contra ela
      Mas ninguém me acariciou como ela.

      Da próxima vez que um hippie francês vagabundo se esfregar em mim, vou me recordar destas palavras.

      POR VIC TOUCHE VICE UK
      TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR

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      Tópicos: Vic Touche, Paris, frotteurismo

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