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      O Massacre Fantasma

      December 27, 2011

      Por Hannah Brooks


      Uma mulher ferida é carregada para longe da cena de uma moto-bomba em 2009, em um dos vários casos de insurreição no sul da Tailândia. AP/Sumeth Pranphet

      Desde 2004, quase 5 mil pessoas, na maioria civis, foram mortas nas províncias do sul da Tailândia numa série de atentados à bomba, tiroteios, incêndios criminosos e decapitações realizados por insurgentes islâmicos que exigem separação do estado budista tailandês.

      Os conflitos remontam ao ano de 1902, quando o governo central anexou terras adjacentes à fronteira com a Malásia, áreas povoadas principalmente por muçulmanos. Os separatistas se mantiveram ativos nos anos 70, mas nos 90 a situação pareceu ter se acalmado, até que o governo começou a reprimir decisivamente pequenos atos de resistência. Essa nova postura linha dura arrebentou os pontos das velhas feridas, e elas não pararam de sangrar desde então.

      De acordo com a Anistia Internacional, entre 2004 e junho deste ano a região teve um total de 10.890 incidentes de violência, resultando em pelo menos 4.766 mortes e 7.808 feridos. E com o país e suas forças de segurança focados nos danos da recente inundação, o mês passado apresentou um aumento significativo nos ataques.

      Desde 2004, o governo mandou mais de 40 mil soldados às províncias do sul para tomar parte em operações de contrainsurgência, o que foi pouco efetivo na erradicação dos ataques. Em 2005, uma “lei de emergência” foi aprovada, permitindo a prisão de suspeitos por até 30 dias e dando imunidade aos oficiais por violação de direitos humanos durante o cumprimento do dever. Essa legislação, amplamente popular entre os tailandeses comuns, desencadeou mais de 5 mil prisões -- o governo foi acusado de tortura sistemática e execuções ilegais, além de ter sido condenado por grupos humanitários internacionais.

      O pesquisador da Anistia tailandesa Benjamin Zawacki diz que os ataques são ideológicos e que os insurgentes estão deliberadamente procurando alvos civis. “Os números e porcentagens exatos dos assassinatos ideológicos contra os não-ideológicos são impossíveis de determinar”, afirma. “Se os assassinatos não-ideológicos são de fato tão poucos, por que as outras fronteiras da Tailândia — todas com os mesmo elementos [criminais] — não são tão violentas e mortais quanto as do sul?”

      Enquanto os rumores são de que símbolos tradicionais do estado tailandês são os mais visados, a violência também parece indiscriminada, afetando tantas vítimas muçulmanas quanto budistas. A Anistia recentemente chamou a situação de “conflito interno armado”, e disse que atacando deliberadamente civis os perpetradores são, de acordo com a lei internacional, passíveis de serem julgados por crimes de guerra -- mas as chances de isso acontecer são poucas.

      Num artigo publicado logo depois da liberação do relatório da Anistia, o cientista político da Universidade de Melbourne Marc Askew questionou as afirmações dos grupos de direitos humanos, argumentando que de 30 a 40 por cento das mortes nas fronteiras das províncias do sul poderiam estar relacionadas a atividades criminais, abundantes ao longo da fronteira entre Tailândia e Malásia. Na verdade, essa é uma afirmação apoiada pelo governo tailandês, que liga os insurgentes ao tráfico de drogas no sul do país.

      Teorias sobre quem é de fato responsável pela violência tem variado no decorrer dos anos. Alguns sugerem que isso pode ser atribuído aos “tradicionais” grupos separatistas da área, ao aumento dos focos globais de jihad e até da Al-Qaeda. Sem dúvida, o aspecto mais marcante do conflito é que depois de oito anos os ataque continuam sendo uma ameaça sem rosto. Enquanto especialistas, ONGs, meios de comunicação e o governo tailandês disputam em relação à terminologia legal e porcentagens, pessoas estão morrendo. De forma constante e horrível.

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