Viagem
O que Rolou com o Protomarxismo em Indiana?

Bem-vindo a New Harmony, Indiana, população 866. Essa cidadezinha a sudeste da fronteira entre os estados da Indiana e Ilinóis é famosa por três coisas: uma comunidade utópica ultrareligiosa do século XIX, uma comunidade utópica iluminista estabelecida alguns anos depois da primeira e uma arquitetura estranhamente new age construída nas décadas de 60 e 70, quando ser utópico voltou a estar na moda. Eles também têm o melhor sanduíche de miolos deste lado do rio Wabash.
Tudo começou cerca de 200 anos atrás quando um alemão chamado George Rapp começou a dizer várias coisas sobre a vida e Deus que tocaram fundo muitas pessoas da comunidade, mas que não foram muito bem vistas pelos luteranos com quem ele andava na época. Logo, Rapp e seus seguidores romperam com o luteranismo mainstream e colocaram tudo o que possuíam numa grande pilha comunitária (isso aconteceu décadas antes do Manifesto Comunista de Marx), e começaram a se chamar de harmonistas.
Em 1803, depois de serem muito zoados pelo governo clerical alemão, eles disseram: “Chega, vamos para a América onde poderemos fazer as coisas do nosso jeito”.

George e os harmonistas chegaram a um pedacinho da Pensilvânia próximo a um lugar chamado Murdering Town, onde George Washington levou um tiro dos nativos americanos em 1753. Eles batizaram esse lugar de Harmony e se deleitaram em seu paraíso comunista pré-marxista, vivendo alegremente uma vida sem sexo, casamento ou comércio enquanto esperavam pela Segunda Vinda de Jesus, o que eles achavam que aconteceria a qualquer momento. Provavelmente eles foram os caras de mentalidade mais alemã da história, o lema de sua cidade era “Trabalhe, trabalhe, trabalhe! Poupe, poupe, poupe!”.
Eventualmente, no entanto, seus vinhedos secaram, e como a bebida acabou eles venderam a cidade para menonitas abstêmios e rumaram para o oeste, à procura de um lugar mais frutífero para se estabelecer e esperar Jesus Cristo. (Harmony, Pensilvânia, depois foi o cenário do clássico de 2009 Dia dos Namorados Macabro 3D.)

Assim, New Harmony, Indiana, nasceu, e continua sendo um dos lugares mais estranhos que já vi na vida. E como a maioria do pessoal daqui, foi só depois que saí do sudeste de Indiana que entendi que ter monumentos abandonados e labirintos de sebe de experimentos socialistas fracassados no seu quintal não é comum. Quando eu estava no primário, a gente fazia viagens escolares para New Harmony para assistir a encenações históricas da vida naquela época e nos banquetear com a pipoca compartilhada pelos exagerados entusiastas do teatro local. Mas como minha escola era católica, eles não mencionavam a parte sobre como os votos de celibato, colocaram restrições nos casamentos e mantiveram os nascimentos sob controle por quase uma década. Enquanto aquela pureza toda parecia uma coisa boa para o Deus que eles estavam esperando, não havia crianças suficientes para repor os companheiros mortos. E você sabe o que acontece nesse tipo de comunidade: elas são baseadas em união e vão fracassar, porque as pessoas não se dão bem.

Nenhuma viagem a New Harmony estaria completa sem testar suas habilidades de navegação espiritual no Labirinto Harmonista. Basicamente um labirinto de sebe meia-boca, do tipo que você espera encontrar no País das Maravilhas, só que os arbustos que servem de paredes têm menos de um metro e meio de altura. No centro do labirinto fica uma pequena construção de pedra, cheia de provérbios bizarros à la William Blake escritos no teto. Para as mentes devotas que já vagaram por esse local, o labirinto simboliza a estrada difícil e confusa para a perfeição, pra mim pareceu um ótimo lugar pra fumar um B.

Nas minhas viagens escolares da infância também esqueceram de mencionar o Robert Owen, um negociante anticapitalista que viu a visão utópica decadente dos harmonistas e decidiu injetar sua própria ideologia socialista à cena. Com esse cara eu consigo me identificar: as principais características da sua filosofia eram 1) ninguém é responsável pelos seus próprios atos pois sua personalidade é desenvolvida exclusivamente pelo ambiente e 2) “Todas as religiões são baseadas na mesma imaginação ridícula que torna o homem um animal fraco e imbecil” (citando a Wikipédia). Alguns historiadores dizem que George Rapp foi instruído por Deus a deixar a cidade, outros apontam para o fato de Owen ter dado a ele uma boa e velha pilha de dinheiro. Seja lá qual for a razão, Owen comprou a cidade e New Harmony 2.0 nasceu.

Foi com Owen que a coisa começou a ficar interessante. Ele queria construir uma cidade murada onde os habitantes poderiam ser livres para brincar e vagabundear, e traçou um grande plano para estabelecer tudo de acordo com sua visão de cidade ideal, que ele chamou de “Comunidade da Igualdade”. Infelizmente para os igualitários, nem todo mundo estava afim de trabalhar, e as desavenças entre os que tinham e os que não tinham eventualmente causaram o fracasso do experimento.

Você pode ver toda essa história de protomarxismo em exposição no Ateneu, o gigantesco e bagunçado centro de visitantes de New Harmony, que foi desenhado pelo arquiteto visionário e cadete espacial Richard Meier. Baseado nas raízes utópicas old-school da cidade, ele decidiu construir uma grande engenhoca angular de aço que força o visitante a vagar por uma labirinto tridimensional. Os visitantes têm que atravessar rampas e escadas sem saída de displays de artefatos históricos e varandas com vista para a cidade antes de finalmente encontrarem o caminho da enorme rampa inclinada que leva ao vilarejo histórico.

No entanto, a coisa mais estranha de todas em New Harmony provavelmente é a Igreja Sem Teto. De longe, parece uma semente gigante que caiu do espaço e foi cercada por um muro de tijolos por algum humano confuso. Mas aparentemente é apenas outro centro espiritual não confessional plantado no meio de um monte de outras ideias proscritas.
A New Harmony de hoje não mostra sinais de aspirações utópicas, é mais uma cidade turística e centro regional de negociantes de antiguidades. Mas alguma coisa ainda parece diferente. A única escola na cidade se chama “A Casa dos Rappites”, monumentos ao zelo idealista e religioso do passado continuam pelas esquinas e quase todo mundo aqui dirige carrinhos de golf.

Parei no boteco local, o Yellow Tavern, onde tiazinhas estavam sentadas numa longa mesa de madeira assistindo a Fox News, alegremente espalhando cavacos de amendoim pelo chão como um bando de crianças de um ano. “Sabe”, disse uma delas, “às vezes eu penso o que teria acontecido se o plano de Robert Owen realmente tivesse dado certo. Como iríamos saber sobre tudo que está acontecendo no mundo?”.
Outro botequeiro respondeu: “Espero que Robert Owen tivesse o bom senso de permitir a Fox News”.

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