Ocuparam a Secretaria de Justiça de SP (E, se Precisar, Vão Ocupar de Novo)

By Bruno B. Soraggi, Fotos por Matheus Chiaratti

Depois de duas horas e meia concentrados embaixo de um sol dos infernos em frente à Catedral da Sé, mais ou menos 50 manifestantes do Comitê Contra o Genocídio da Juventude Negra e Periférica de São Paulo ocuparam ontem, pacificamente e sem resistência, o saguão da Secretaria de Justiça do Estado. Ficaram por lá durante mais algumas horas discursando, rimando, fazendo poesia e apresentando suas reivindicações. O grupo, que este ano também já fez muito barulho dentro do Shopping Higienópolis, é formado por militantes de vários movimentos sociais que protestavam contra o que consideram uma ingerência e higienismo do Governo na política de Segurança Pública de São Paulo, respaldados pelo alto número de mortes nas periferias divulgados nos últimos meses (e que aumentam a cada madrugada).

Marcado pras 10h de um dia útil, o grupo foi aumentando com o passar das horas, chegando a uma centena de pessoas — nem todas ficaram até o final, quando zarparam rumo à Secretaria, por volta das 12h30. O equipamento de som só foi aparecer depois de um tempo. Enquanto isso, pra não desagregar e “criar um clima”, eram chamados pra falar quem quisesse se expressar. Estavam lá advogados, gente em situação de rua, estudantes, trabalhadores que faltaram ao trabalho pra se fazerem presentes, e militantes. Parentes de vítimas da violência policial também apareceram, como o pai herói Daniel Eustáquio de Oliveira, 50 — que recentemente figurou em tudo quanto é jornal por encarnar o CSI e botar policiais na cadeia depois de investigar (e provar) que a versão oficial sobre a morte de seu filho César Dias de Oliveira era uma farsa —, e a Dona Zélia, que teve seu filho de 21 anos morto “com certeza pela polícia” em Itaquera no mês de setembro, mas até agora tudo continua impune.

Quando os ânimos pareciam que iam se desagregar, eles passavam e repassavam o grito de guerra do dia: “Por menos que se conte a história / Não te esqueço meu povo / Se Palmares não vive mais / Faremos Palmares de novo”.

Na pauta também constavam: a exigência de uma audiência pública imediata com o governador de SP e com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso; o levantamento das identidades, B.O.’s, certidões de óbito e causa de morte de todas as vítimas civis assassinadas à bala no Estado neste ano de 2012; o fim da ROTA; a desmilitarização das polícias; a CPI das Polícias de SP e o impeachment de Geraldo Alckmin por “crime de responsabilidade”. Além, claro, da demissão imediata do Comandante da PM e secretário de Segurança Pública, este desligado na última terça-feira, quando a manifestação já tinha sido agendada.

Tudo isso consta num documento escrito pelo grupo, do qual são signatárias 100 organizações, entre elas partidos políticos (PT, PCB e PSOL), saraus, sindicatos (dos advogados de São Paulo, dos Metroviários de São Paulo, dos Trabalhadores da USP etc.), coletivos, associações, blogs e mídias independentes, Pastoral Carcerária, deputados federais Vicente Cândido (PT-SP) e Ivan Valente (PSOL-SP), movimentos de moradia, moradores de rua e da causa negra, Mães de Maio e vários outros. A ideia era entregar a missiva à Secretária de Justiça e de Segurança Pública.

A entrega aconteceu, ainda que por meio de assessores, às 15h. Porque a primeira, Eloisa de Sousa Arruda, estava acompanhando a posse do Joaquim Barbosa como presidente do STF, e o segundo, Fernando Grella Vieira, indisponível por questão de agenda graças à tomada do cargo naquela manhã. Mas o chefe de gabinete da Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania, Roberto Fleury, ainda se comprometeu a repassar o documento e, diante de toda a multidão munida de câmeras e indignação, afirmou que o Grella vai entrar em contato com os manifestantes pra agendar um encontro — eles deixaram contatos, por escrito e protocolado, pra que isso aconteça.

Os melhores momentos estão em nossa galeria de fotos acima.

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